RIE_09_2018

 

O Evangelho de Jesus não é uma vã filosofia

Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

A Boa Nova deixada por Nosso Senhor é um código de ética e de moral, indispensável para o nosso crescimento espiritual. Portanto, não basta decorar os ensinamentos de Jesus; é fundamental aplicá-los em nosso cotidiano.

A expressão “não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita” (Mateus, 6:3) é uma figura de linguagem usada por Jesus para nos ensinar a importância da modéstia, que combate a vaidade. É o ensinamento que intitula o Capítulo XIII de O Evangelho Segundo o Espiritismo.

Logo de início, recomenda que façamos o bem sem ostentação e sem esperar o reconhecimento dos mortais, porque devemos trocar o elogio provisório e duvidoso dos homens pela glória eterna de Deus. Todo bem que fazemos fica impregnado em nossa alma de forma inalienável. Se recebermos já na Terra a recompensa, quando nem precisamos deste agradecimento, nada mais teremos a receber no mundo espiritual, quando poderemos precisar de verdade de alguma compensação pelos nossos gestos; seja pela nossa necessidade, seja como atenuante compensadora para alguma falha que cometemos.

Todo aquele que enaltece a si mesmo já recebeu o pagamento por seu gesto. No entanto, devemos fazer o favor, seja de que natureza for, de tal forma que preservemos o beneficiado, não o menosprezando ou diminuindo, em respeito ao momento difícil que o outro pode estar vivendo. Recomendam os Espíritos que devemos praticar a caridade de modo a parecer ao outro que nós é que a estamos recebendo. Um dia entenderemos que isso não é só aparência, mas realidade, porque o maior beneficiado por um favor prestado é o próprio agente. Só quando damos é que recebemos de verdade. Se precisamos ser incensados, demonstramos complexo de superioridade e descrença na vida futura, pois esses tesouros que produzimos na Terra se transformarão em tesouros do céu se não forem cancelados aqui mesmo.

Certa vez um palestrante do Sul, que pregava no Nordeste, com tema específico em diferentes centros, foi apresentar-se na nossa casa a pedido de uma companheira que cedeu a ele o seu dia de falar. Abrimos exceção e tivemos o cuidado de lhe dizer que ele não seria aplaudido, por mais que gostassem de sua fala. Ele quis saber por que e nós informamos que não era hábito na nossa casa aplaudir os palestrantes. Mas ele insistiu: — Por quê? Dissemos que o orador espírita não é um artista, embora muitos se apresentem como tal, e que nada traz de novo que não tenha sido ensinado por outros antes dele, especialmente Jesus Cristo. Ele sim merece nossos aplausos e agradecimentos. Guarde para receber os aplausos no Céu. Fez uma boa palestra, mas não foi aplaudido. Agradecemos e dissemos que o trabalho foi muito bom. Não ficou muito satisfeito, mas seguimos nossos princípios quanto ao assunto.

O que devemos ressaltar é que Deus vê mais a intenção do que o ato. Por exemplo, se contarmos a alguém sobre o bem que fazemos para motivá-lo a fazer o mesmo, e não por exibicionismo, será sempre lícito. Quantas pessoas desejam ajudar e não sabem como. O óbolo da viúva, mencionado por Jesus nesse mesmo capítulo XIII, logo depois do exemplo daquela senhora benfeitora anônima no item “Infortúnios Ocultos”, é um exemplo de que muitas vezes o pouco vale mais do que o muito. E há quem não faça nada porque não pode fazer algo expressivo. Já diz o povo que “o pouco com Deus é muito”.

Um exemplo de óbolo da viúva é o trabalho do voluntário espírita que oferece a palestra evangélica, o passe amoroso ou o texto divulgado pela mídia. Por maior e mais brilhante que seja sua tarefa e esforço, ainda assim será uma gota para matar a sede desta humanidade sofrida. E quanto maior for a modéstia na execução do trabalho, mais aproveitável será para quem faz e para quem recebe.

Raciocinando dessa maneira, não nos decepcionaremos com os ingratos, porque o agradecimento é também uma forma de quitar o favor recebido. Se ficar pendente, o problema se restringe ao ingrato por não ser agradecido. Quem fez o favor será sempre credor do bem oferecido e receberá no momento de mais necessidade.

Guardem como recordação esta nossa trova para nunca esquecer de que nossos atos de bondade não dependem de religião ou de qualquer outra circunstância: No gesto de caridade / que tira o homem do chão / Deus reconhece a bondade / seja ateu, seja cristão.

RIE-Revista Internacional de Espiritismo – setembro 2018

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