Tribuna  Espírita    julho/agosto  Octávio Caumo Serrano

Há pessoas com habilidade para o que não aprenderam nesta encarnação. Por isso tantos autodidatas em artes, diferentes profissões e tendências para certas atividades. Uns se dão bem comandando e outros mal servem para obedecer. Às vezes, de uma hora para outra descobrem vocações que nunca imaginariam ter. Um bom motivo para pensar por que isso acontece.

Permitam-me citar um exemplo pessoal.

Quando em 1975, aos quarenta e um anos de idade, fiz minha primeira viagem internacional, um cruzeiro para Montevidéu, Mar Del Plata e Buenos Aires, na festa de Réveillon, me peguei conversando com tripulantes em espanhol com fluência e naturalidade. Percebi que eu tinha um razoável vocabulário nesse idioma e construía frases com verbos bem colocados e corretamente conjugados. Mais que isso, não me servia da tradução mental porque falava o idioma com a naturalidade de um hispânico.

Depois disso, em 1976, viajei a trabalho para Venezuela, Colômbia e Peru, falando o idioma o dia inteiro nas fundições onde demonstrava nossos produtos. Eu era perfeitamente entendido e os compreendia, de maneira fluente e natural.

Comumente alguém me perguntava onde eu houvera aprendido o idioma, pois para eles eu falava bem. E quando eu dizia que nunca estudei era elogiado porque lhes parecia surpreendente. Com o tempo percebi que eu tinha uma extroversão e uma alegria inexplicáveis quando estava num país de língua espanhola. Eu, naturalmente acanhado, era outra pessoa nesses países. Precisava me relacionar e conversar porque falar espanhol me deixa contente.

Em 1991, a Universidade de Salamanca fez um teste em São Paulo para conferir diploma básico em espanhol para estudantes do idioma em países de outras línguas. Habitualmente fazem no Brasil, Estados Unidos e Japão. Dois dias inteiros de provas, sábado e domingo, com todo tipo de teste oral e escrito. Tive facilmente meu diploma. No ano seguinte voltei a me candidatar ao Diploma Superior de Espanhol como Língua Estrangeira. Tudo oficializado pelo Ministério de Educação e Cultura da Espanha. Passei novamente e mais tarde ficaria sabendo que eu tinha dos mais conceituados diplomas para este idioma em todo mundo, podendo ser inclusive tradutor oficial e dar aulas.

Como eu já tinha espaço numa tradicional revista espírita brasileira, onde começara em 1990, a partir de junho de 1998 passei a ter coluna em dois idiomas, que mantemos até hoje. De início houve pessoas para corrigir os textos, mas como é difícil quem tenha além da boa vontade a responsabilidade com prazos, fundamentais para a edição de qualquer veículo de divulgação, passei a ser o tradutor sem que houvesse revisor.

Que texto é esse que escrevo? Espanhol perfeito, castiço? Certamente não. Mas não é também um “portunhol” ou “espanhês”. Sei que encontrarão no texto muitos erros de concordância, acentuação (difícil em espanhol), palavras arcaicas já em desuso, mas estou certo que a mensagem é passada e permite aos irmãos compreende-la. Além disso, quando ouço esse idioma, mesmo falado com velocidade, não perco praticamente nada. E há locais onde se fala mastigado como na Venezuela e no Caribe, cantado, como no México, etc. Se considerarmos os muitos idiomas espanhóis do mundo, em cada país diferente do espanhol tradicional, o que faz que até eles às vezes se desentendam, penso que o meu trabalho cumpre a finalidade de facilitar a compreensão do texto para “los Hermanos hispanos”. O mesmo se dá com os dialetos do sul e nordeste no Brasil ou com o português de Portugal com os das ilhas da Madeira e Açores ou das povoações da África.

A razão de lhes contar sobre este fato não é exaltar mérito que não tenho, já que não resulta de esforço de aprendizado. Desejo apenas enfatizar que é comum buscarmos provas para reencarnação e, às vezes, as evidências estão claras. Meu vocabulário é relativamente grande. E quem pensa que português e espanhol são parecidos e é fácil falar este idioma, engana-se. Posso citar facilmente cem palavras cuja tradução será desconhecida para o leigo. Gostaria de falar os idiomas que estudei tanto (inglês, alemão e francês) com a fluência do espanhol. Mas nesses sou capenga. Mal dão para o gasto.

Que cada um avalie seus conhecimentos e habilidades e veja o que foi obra de estudo e o que foi ideia inata. Já nasceu com ela e por isso tem facilidade para executar a tarefa. Irão se surpreender com as culinárias, as artes, os dotes em geral, pois o que parece difícil para os outros faz com a maior naturalidade. Não aprendeu nesta etapa, mas cultivou noutras eras e tudo o que aprendemos fica guardado e aflora quando se faz necessário. Pelo instinto mais do que pela razão. Daí ser importante aprender coisas novas em cada encarnação para aumentar o conhecimento que um dia pode ser útil. No Centro Espírita há muitas oportunidades para isso, desde que a pessoa se disponha a aproveitar. O mesmo se dá com o trabalho profissional, quando fazemos além das atribuições para as quais somos remunerados. O trabalho, mais que salário, nos dá conhecimento e experiência que guardamos eternamente.

Consultem Inteligência e Razão, L.E. perguntas 71 a 75. E, também, A Lei do Trabalho, questões 674 a 685a. Importante.

 

 

 

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