RIE_11_2018

Octavio Caumo Serrano

Plantar sementes e plantar virtudes, são gestos parecidos.

Quando alguém vai criar uma lavoura, escolhe sementes de qualidade e define a área e a época do plantio. Sabe que a terra terá de ser preparada, destocada e adubada, para receber a semeadura. Dando continuidade, cuidará de regá-la adequadamente, nem com pouca água nem a encharcando além do necessário, para que a semente germine sem apodrecer. Todavia, além das providências que competem ao agricultor, outros fatores são importantes para uma boa colheita. Sol, chuva, frio, calor, conforme a necessidade de cada planta.

É por isso que cada região produz frutos com qualidades diferentes. A uva para o bom vinho depende não só do tipo de solo, mas do número de meses com baixa temperatura para deixá-la em condições de produzir bebida com qualidade. Há plantas que frutificam sob o solo, outras no tronco, como a jabuticaba, ou nas copas, como o coco, a jaca, laranja, quiabo, jiló, berinjela, etc. Outras são as próprias folhas, como a alface, a couve, o repolho e verduras em geral. Muitas, como a mandioca, a batata, a cenoura, beterraba, rabanete, amendoim, aspargo, cebola, confundem-se com as próprias raízes.

Se observarmos a paternidade, entendida mãe e pai, dá-se o mesmo. O casal planeja a sua união e, após sedimentar as necessidades básicas, avaliam suas condições e optam por trazer mais um Espírito ao mundo, adotando-o como filho, para enriquecer o lar e dar mais motivação à vida da parelha. Preparam o enxoval, o berço e o quarto cheio de requintes, para esperar o anjo que Deus vai lhes mandar. E o dia chega e tudo é festa. Alegria de pais, avós, padrinhos e demais familiares envolvidos naquele núcleo.

Começam agora os encargos de manutenção e encaminhamento da nova criatura. Aleitá-la, ampará-la para que tenha repouso e cresça saudável, e ensinar-lhe princípios básicos de higiene. Pediatra, vacinas, primeiros passos para ir-se adaptando ao mundo novamente. Acompanha a trajetória instrutiva, fiscaliza notas, comportamento na escola, relacionamento com colegas e professores, para que se habitue a ter boas companhias. Saber o que fazem, com quem se relacionam, que diversões têm como prioridades, como faz o semeador que arranca as ervas daninhas da lavoura, os brotos ladrões que enfraquecem a planta, removem galhos e folhas secas para que o produto cresça saudável.

Muitas vezes, porém, como ocorre na lavoura, chegam pragas imprevistas. Gafanhotos, moscas, geadas ou estiagem anormal que danificam o plantio. Como acontece com um filho quando é assediado por maus hábitos, por amigos nocivos que o desencaminham, apesar de toda a plataforma que construímos para que ele tivesse segurança. Quando menos esperamos, damo-nos conta de que ele está faltando ao estudo para seguir os amigos, criando problemas para outras pessoas ou envolvendo-se nos vícios comuns dos dias atuais, como jogo, bebida, droga, contra os quais a maioria das famílias tem perdido as batalhas.

É a hora do desespero, com a clássica pergunta “onde foi que eu errei”? Aparentemente tínhamos a vida do filho nas nossas mãos e as revelações que agora nos chegam são chocantes. A casa vira de pernas para o ar e uns tentam culpar outros. A avó diz que a filha não cuidou direito e esta alega que o marido é que se omitiu. Todavia, não é hora de buscar culpados, mas soluções. Às vezes são difíceis de encontrar, dependendo de quão longe o problema já avançou. Mas insistir na busca de consertos até a exaustão é o correto.

Neste instante, o mais importante é ter a consciência tranquila por ter feito o melhor, sem omissão. Como o agricultor que cuidou da lavoura e mesmo assim a perdeu. O prejuízo existe, mas a consciência está em paz. Fez tudo certo e as contingências lhe criaram problemas imprevisíveis. Não tem culpa. O mesmo se dá com os pais que em nenhum momento deverão afligir-se imaginando a reprovação de Deus. Nossos filhos são almas antigas que retornam para novas experiências e já trazem tendências, vícios e defeitos, de outras existências, sabe-se lá onde e em que condições. Nascem pequenos, de novas sementes, exatamente para serem moldados enquanto estão sob a proteção do esquecimento do passado. Mas nem sempre numa nova encarnação é possível transformar rudezas arraigadas em bondade, educação, respeito e equilíbrio. Isto está bem explicado em O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo XIV, item 9, que trata da Ingratidão dos Filhos e os Laços de Família.

Entre as difíceis missões que temos na Terra está a formação de um lar. Como mãe ou pai. Nunca é batalha ganha antecipadamente. Há fatos que nos pegam desprevenidos, invigilantes, excessivamente confiantes devido à genética. Mas o DNA só transmite aos filhos as características físicas. Moral e caráter forjam-se; não se deixa como herança nem se passa em testamento. E é preciso que as duas partes sintonizem. Como professor e aluno. Um transmite seu conhecimento e o outro assimila ou não. Por isso há tanta desigualdade entre os discípulos da mesma classe, como há entre filhos dos mesmos pais.

Empenhemo-nos em ser bons lavradores, mas roguemos a Deus que nos mande chuvas de entendimento para que os filhos possam banhar-se nas bênçãos da educação e da bondade. E que afaste de nossa lavoura familiar os ventos fortes e suas ressacas que tudo destroem, deixando-nos impotentes ante a violência das grandes intempéries.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – novembro 2018