Octávio Caumo Serrano  caumo@caumo.com

O comunicador espírita, pela expressão oral ou escrita, deve ser alguém com inteligência, conhecimento e de fácil inspiração. Quando mais sintonizar com as mensagens da espiritualidade, mais facilmente desenvolverá o tema por seu próprio discernimento. Assim nascem, muitas vezes, artigos espíritas que chamam à atenção.

Vivi uma experiência que peço permissão para contar ao leitor.

Num anoitecer de 1991, chegávamos no Centro Kardecista “Os Essênios”, no bairro do Jabaquara, em São Paulo, quando um confrade, Sr. Hélio, na altura dos seus setenta anos se dirigiu a nós: – Seu Octávio. Encontrei um amigo com problemas e lhe disse que viesse conhecer “o nosso centro”. Tão logo ele terminou a frase, eu já não mais ouvia o que ele dizia. Apenas uma luz piscava, acendendo e apagando, com a expressão “O NOSSO CENTRO”.

Ali mesmo eu comecei a perguntar num solilóquio: – Por que nosso centro? Nosso de quem? Sabemos quem criou o nosso centro, se a casa é própria ou alugada? Quem paga IPTU, luz, água, despesas de manutenção e limpeza? Lembramos da primeira vez que viemos ao nosso centro? Tudo pronto, à nossa disposição; orientadores, passistas, palestrantes, banheiro cuidado e equipado, água potável com copos descartáveis, ventiladores para o nosso conforto, biblioteca, de uso gratuito, como tudo o mais. E que fazemos nós pelo nosso centro? Nada. Mas reclamamos se a palestra não foi das melhores, se não pudermos ser atendidos naquele momento, se não nos deixaram entrar porque atrasamos ou estávamos vestidos inadequadamente para este tipo de reunião. Etc., etc., etc.

Dia seguinte, ao chegar no escritório, fui logo para a máquina de datilografia (não havia computador) e escrevi matéria que intitulei “O nosso centro” que logo imprimi, envelopei e levei a uma agência dos Correios para enviar ao jornal O Semeador, da Federação Espírita do Estado de São Paulo. Jornal quinzenal. I-meio era algo inimaginável naquela época; ficção científica!

Na manhã seguinte, chegando ao escritório, reli a matéria e senti calafrios. Mesmo sem me considerar especialista em textos, já havia escrito coisas bem melhores do que aquilo. Acalmei-me quando raciocinei que o jornal teria o bom senso de não aprovar algo tão banal. Para a minha surpresa, porém, já na edição seguinte, numa longa coluna na contracapa, lá estava, impoluto, O NOSSO CENTRO. Gelei! Meu Deus. Todos vão ler isto. E tem minha assinatura! Conformei-me porque o mal já estava feito e não tive o cuidado de revisar à exaustão, como manda a técnica jornalística.

Menos de trinta dias, uma companheira do Centro me entrega um panfleto com o artigo, impresso pela Sociedade Espírita Maria Nunes, de Belo Horizonte, por iniciativa da confreira Juselma Coelho. Seu chefe no Metrô de São Paulo havia ido visitar o tio, Maia, em BH e havia pego nos escaninhos do centro dez folhetos porque o texto lhe pareceu interessante. É a instituição onde trabalhava o médium João Nunes Maia, autor de mais de 60 livros psicografados. O mesmo que recebeu pela via mediúnica, em Contagem, a receita da pomada Vovô Pedro e o folheto seria encartado nos livros despachados pela editora. Logo depois inúmeras instituições copiaram a mensagem e vários jornais e revistas espíritas reproduziram o artigo. Culminou quando, em 1992, a Associação dos Jornalistas Espíritas de São Paulo – AJE-SP – conferiu-me, no auditório da FEESP, o troféu de melhor artigo espírita do ano.

Intrigado com o ocorrido, perguntei a algumas pessoas porque algo tão vulgar teve tanta repercussão. E uma confreira me disse: – Você foi o advogado dos dirigentes espíritas e em nome deles pediu socorro para que as pessoas ajudem mais as instituições. Eles vivem abandonados porque público e colaboradores fazem o estritamente necessário embora exijam cuidado e atendimento como se fosse uma obrigação do centro ajudar as pessoas e não simples ato de caridade. E quanto aos colaboradores, imaginam que por dar passes, fazer palestras ou ajudar nalgum outro trabalho, nada mais lhes compete fazer. Nem apagam a luz, nem fecham a porta, nem desligam um ventilador. Usam tudo o que há no centro e em nada colaboram a não ser com seus supostos dotes mediúnico-evangélicos. Como dizem habitualmente, tenho outros compromissos e só posso dar um dia para a doutrina. Eles imaginam que dão alguma coisa para o Espiritismo ou para Jesus. Dizem que trabalham para o Cristo e nem percebem que trabalham, mal e pouco, para si mesmos.

Nas coisas simples e verdadeiras, quando nascem do coração, estão inseridas grandes verdades. O sucesso deste artigo mal escrito foi uma lição para a minha pretensão como articulista da Doutrina dos Espíritos. Quantas matérias em português castiço, bem construídas, caíram no esquecimento. O Nosso Centro, no entanto, continua atual.

Para quem tiver interesse em conhecer aí vai o link: https://essenios.files.wordpress.com/2008/10/o-nosso-centro.pdf

Tribuna Espírita set/out 2018

 

 

 

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