RIE_02_19

A vida neste mundo é como uma peça de teatro: em cada ato trocamos de roupa e cenário, mas somos o mesmo artista

Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

Bom-dia, meu Pai.

É o Octávio. Lembra de mim? Creio que sim, afinal sou um de seus filhos, morador desta favelinha espiritual chamada Terra, onde a miséria, a desigualdade e a desonestidade estão cada vez maiores. Quero confessar-lhe que tenho me empenhado em ser bom para candidatar-me a morador de algum condomínio melhor, ou mesmo desta favela, quando irmãos mais moralizados decidirem fixar residência por aqui. Virão com outras ideias porque são almas melhores e nos ajudarão a construir um novo modo de viver. Mais próximo do que se espera dos humanos. Penso que este tempo está chegando. Pelo menos espero…

Sei que sou um pouco culpado por esse desajuste geral, porque às vezes também fracasso no propósito de amar o próximo. Juro que me esforço. Mas não é fácil, meu Pai. Muita gente ruim atormentando os que querem ser corretos. E os que dirigem, os que têm o poder, são os piores. As pessoas de bem, honestas, trabalhadoras, estão sendo agredidas e eles nada fazem. Não sei por que o Senhor os deixa nessas funções se eles não as executam direito. É para testar a nossa fé? A nossa paciência? A nossa coragem? Se é por isso, tudo bem. Mas que não é fácil resistir, não é! Temos de matar um leão por dia. No sentido figurado, claro, porque matar, jamais! Matar, nem a esperança das pessoas!

A vida neste mundo é como uma peça de teatro: em cada ato trocamos de roupa e cenário, mas somos o mesmo artista. Ora herói, ora vilão! No futuro haverá uma galeria com nossos retratos de cada encarnação e saberemos como vivemos em cada intervalo pelos mundos materiais. Assim constataremos as razões de nossas tristezas e alegrias. Observaremos nossos papéis, fazendo o bem ou omissos diante do mal. Entenderemos a origem das virtudes e defeitos que ainda temos e dos quais nos orgulhamos ou envergonhamos. É difícil compreender, mesmo tendo Jesus deixado tudo bem explicadinho. Mas nós não acreditamos.

Depois de um tempo na minha religião tradicional, onde nos colocam sem perguntar e que é exigida para estudar, casar etc., descobri uma doutrina interessante. Creio que o Senhor já ouviu falar: Espiritismo. Fez tanto sentido que comecei a estudá-la e acabei um de seus adeptos. Cheguei até a fundar uma casa para levar o conhecimento deixado por Allan Kardec, aquele que tão bem traduziu Jesus, para as pessoas que vivem sofrendo e explicando-lhes que a solução para os seus problemas está no trabalho que farão em favor dos outros. Ajudando serão ajudadas. Gostei quando o Espiritismo ensinou que “fora da caridade não há salvação” e também quando informou que o verdadeiro espírita seria conhecido pela sua “transformação moral e pelo esforço que faz para combater as suas más inclinações”. Fiquei encantado porque não nos chama de pecadores e diz que só o esforço para ser melhor já agrada a Você, meu Pai. Sei que sempre leva em conta as nossas intenções, ainda que os atos sejam falhos.

O mal é que trabalho num centro de pessoas que têm vida relativamente boa e que, embora queixosas como todo terráqueo, gozam de muitos privilégios, o que, por vezes, atrapalham as suas vidas. Qualquer festa, evento, feriado prolongado, lá se vão elas para suas viagens de recreio, casas de campo ou de praia, deixando para depois os compromissos assumidos com o centro espírita. Eles trabalham porque querem; não são forçados. Mas não entenderam ainda que não trabalham para Você, Pai, nem para Jesus ou para o Espiritismo. Trabalham para eles. Por isso, se veem no direito de ir quando querem. O centro não é prioridade para eles. Hoje vão de carro, moram perto e faltam muito. No próximo ato, no novo papel que terão no teatro da vida, morarão no mato, sem luz e irão a pé para o centro, que vai ser muito distante de sua casa. Mas as necessidades e as dores serão tais que terão de se render e aceitar o sacrifício.

Por enquanto, o Espiritismo perde de goleada para os espíritas e seus eventos. Hoje no placar nós vemos: Natal 8 x Espiritismo 1; Futebol 5 x Espiritismo 0; Aniversário 6 x Espiritismo 2; Feriadão 4 x Espiritismo 1. E assim por diante. O Espiritismo não faz um ponto. Será que vai acabar rebaixado? Jamais. Mesmo sem a colaboração dos espíritas o Espiritismo vai crescer muito e ajudar a humanidade. Já nos foi dito que ele prosperaria apesar dos espíritas. Ouvi falar que alguém teria dito essa frase: “Com os espíritas, sem os espíritas, apesar dos espíritas!” Se não disse poderia ter dito… É bem procedente.

Na nova encarnação tudo será ao contrário. Por isso é que é bom o centro espírita com trabalhadores pobres que não têm condições para passear demais. Só a conscientização nada pode fazer por nós. Não entendemos ainda o “espírito da coisa”, nem os privilégios que norteiam nossas vidas, nem as razões de mais uma encarnação. Somos apóstolos do Cristo, mas não percebemos nem agimos como tal! Deixamo-lo sempre sozinho!

  • Bem. Eu só queria conversar um pouco e desabafar. Espero que o Senhor se lembre quem eu sou e tenha paciência com este seu filho também ainda cheio de falhas. Sua bênção, Pai!
  • RIE – Revista Internacional de Espiritismo – fevereiro de 2019
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