Octavio Caumo Serrano   caumo@caumo.com

Apesar do hábito, as palavras não exprimem o verdadeiro sentimento.

É comum que os conviventes de uma doutrina, especialmente as cristãs, se tratem usando a palavra irmão. Seria bom se a expressão verbal carregasse junto o verdadeiro sentimento fraternal, porque foi exatamente o que ensinou Jesus: “Meus discípulos serão reconhecidos por muito se amarem.” (Jo, 13:35).

Na prática não é o que vemos. Muitos abraços, beijos automatizados, mas nenhum sentimento que demonstre interesse pelos problemas do outro. Ausências que nem são notadas, doentes que nunca são visitados ou ajudados, quando os problemas não são ignorados de todo e por todos. A maioria de nós nem sabe o nome completo do parceiro de doutrina. Menos ainda sobre seu trabalho ou dificuldades que os visitam. Dia do aniversário, nem pensar. Os mais cuidadosos e que já aprenderam alguma coisa se dão ao trabalho de um telefonema ou, aproveitando a modernidade, mandam um Zap. Por isso no nosso Centro temos cadastrado o dia de nascimentos de cada trabalhador para cumprimenta-lo pela importante data de retorno ao planeta. O dia de mais uma oportunidade de renascimento para libertar-se de erros do passado. Já houve quem houvesse recebido nesse importante dia somente o cumprimento no Centro. Nem filhos doutores, que estudaram com o sacrifício da viúva, lembraram da mãe!

Quando aprendemos com o Espiritismo sobre a parentela, fomos informados que parentes são muitas vezes uniões compulsórias para reajustamentos que ficaram pendentes. A consanguinidade, pela inferioridade dos humanos do nosso estágio, tem um peso expressivo e faz com que nos dediquemos um tratamento especial, o que nem sempre oferecemos aos que não são de casa. Mas a finalidade da família carnal é exatamente essa; transformar os envolvidos na família espiritual.

Isto não significa que os demais, que convivem conosco em diferentes circunstâncias, não estabeleçam vínculos que poderão gerar novos parentes em outra vida. A babá, a secretária do lar, o companheiro de trabalho, os parentes não sanguíneos (sogro, sogra, genro, nora) poderão conviver conosco até mais do que pais e filhos. Isto vale, e muito, para os parceiros das tarefas sociais, religiosas, beneficentes e similares, com os quais podemos realizar expressivas tarefas em favor da nossa sociedade. A empregada doméstica que cuida de nossos pais ou filhos, além de nós mesmos, estabelece laços conosco muitas vezes maiores do que a parentela carnal. No futuro podemos nascer no mesmo núcleo familiar.

É certo que num mundo colonizado por espíritos inferiores como o nosso, as tribulações próprias são já bastante expressivas. Mas os de coração grande sempre terão um espaço para o parente de alma, além do tratamento fraterno ao parente de sangue. É comum que o socorro chegue até nós mais pelo amigo do que pelo parente.

Tratemos de ter sempre gestos de delicadeza com nossos parceiros de jornada. Os cumprimentos e as saudações cabem em qualquer lugar. Se sabemos que alguém adoeceu, nunca esqueçamos de saber se melhorou, se necessita de algo que possamos oferecer. Se possível, uma visita fraterna ajuda muito. Vamos tentar ser na prática o que já conhecemos tanto por teoria. No centro, então, vale o conhecido reforço: “- Espíritas, uni-vos; espíritas, instrui-vos.

Jornal O Clarim – março 2019