Walkiria Lucia Araujo Cavalcanti

“‘Mediunidade … constitui ‘meio de comunicação’, e o próprio Jesus nos afirma: ‘eu sou a porta… Se alguém entrar por mim será salvo e entrará, sairá e achará pastagens!’ Não existe outra porta para a mediunidade celeste, para o acesso ao equilíbrio divino que anelais no recôndito santuário do coração! Somente através d’Ele, vivendo-lhe as sublimes lições, alcançareis a sagrada liberdade de entrar nos domínios da Espiritualidade e deles sair, conquistando o pão eterno que vos saciará a fome para sempre. Sem o Cristo, a mediunidade é simples ‘meio de comunicação’ e nada mais, mera possibilidade de informação, como tantas outras, da qual poderão assenhorear-se também os interessados em perturbações, multiplicando presas infelizes.’”[1]

Encontramos em O Livro dos Médiuns, que completou no último dia 15 de janeiro, 158 anos de seu lançamento, a obra basilar de orientação para nós que nos dedicamos ao trabalho de prática mediúnica. Sendo lançado entre a publicação de O Livro dos Espíritos e o livro intitulado Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas, é composto por duas partes, sendo que a primeira traz em seus quatro capítulos as noções preliminares e a segunda, em seus trinta e dois capítulos, as manifestações espíritas.

Decorrente da 2ª Parte de O Livro dos Espíritos – Do Mundo Espírita ou Mundo dos Espíritos, é roteiro de orientação a todos os envolvidos com estas relações que ocorrem entrem o mundo espiritual e o mundo material ou extrafísico e físico como quiserem tratar. A mediunidade é uma ferramenta de trabalho que possui em O Livro dos Médiuns o seu manual de instrução.

Feitos estes apontamentos pertinentes a obra, verificamos que Kardec preocupou-se logo na sua introdução a objetá-la, encaminhando o leitor à perfeita análise do que encontraria pela frente. É uma obra para quem realmente se dedica a prática das boas comunicações, tendo plena consciência que encontrará percalços, mas que estes, serão ultrapassados pelo exercício, pela habitualidade orientado através do conhecimento adquirido nesta obra e em obras auxiliares.

Ponto a ser destacado é a questão da formação dos médiuns, capítulo 17. Não existe médium pronto. Todos estamos em formação, o estudo constitui-se como mola propulsora a nos encaminhar, aperfeiçoamo-nos a medida que executamos o trabalho. É um processo de afinidade com o plano espiritual superior, mesmo quando nos tornamos veículo de entidades menos felizes. Estando afinados com as equipes do bem, contamos sempre com a sua assistência, não nos permitindo cair em ciladas preparadas pelo plano inferior.

Mesmo assim, se cairmos, “As ciladas constituem recursos perturbadores durante a experiência humana que têm a finalidade de proporcionar a aquisição de resistências espirituais e de valores pessoais ao indivíduo, mediante os quais o Espírito se enriquece de sabedoria”[2] Em tudo existe aprendizado, no qual sairemos mais fortes e sábios se soubermos compreender a lição.

O Livro dos Médiuns nos traz no capítulo 20 uma advertência muito importante para todos que nos dedicamos a esta prática, este fala-nos sobre a influência moral do médium. A mediunidade não tem relação com a moralidade do médium, pois esta radica-se no organismo, porém o seu uso poderá ser bom ou mau de acordo com as características boas ou más da criatura. Já nos alerta Emmanuel: “Não é a mediunidade que te distingue. É aquilo que fazes dela. A ação do instrumento varia conforme a atitude do servidor.”[3] O direcionamento da mediunidade dar-se muito mais fora da reunião mediúnica, no dia a dia do médium do que no momento reservado à reunião.

Por isso, nós médiuns não podemos atribuir a falta de decoro ocorrida na reunião aos espíritos. Somos instrumentos passivos no sentido de sermos dóceis àqueles que se apresentam a nós naquele momento, não oferecendo resistência a comunicação, mas mantendo o controle sobre tudo o que ocorre. Semelhante a uma visita que adentra a nossa casa, somos responsáveis por todos os seus atos. Não poderemos alegar ao síndico que estávamos dormindo enquanto a visita agia de forma desabonada.

Mesmo falando da mediunidade que se expressa de forma inconsciente. Mais uma vez fazendo analogia, explicamos as regras a nossa visita, mesmo que estejamos impossibilitados, o convidado deverá se portar tal qual nos portaríamos, a questão é se não nos portamos de acordo. Então, mesmo que apresentemos as regras ele verá nosso exemplo e o copiará.

Por fim, não busquemos a perfeição neste terreno, pois que ainda não existe. “Médium perfeito seria aquele contra o qual os maus Espíritos jamais ousassem, uma tentativa de enganá-lo.”[4] Porque se acreditarmos que somos infalíveis ou perfeitos acabaremos entrando pela senda da obsessão. Explicada no capítulo vinte e três da referida obra. Começando de uma forma simples, se imiscuindo em nosso pensamentos; iludindo-nos ao ponto de acreditarmos nas mais tolas ideias como sendo verdadeiras, paralisando-nos o raciocínio, que seria a fascinação; por último e não obrigatoriamente seguindo esta ordem, constringindo-nos física e/ou moralmente, que seria a subjugação.

A mediunidade ajuda-nos a evoluir. Não foi dada a escolhidos, foi proporcionada àqueles que se colocaram em condição de aprendizado, seja por processo de reajuste moral acelerado, seja por desejo de ajudar ao próximo ajudando a si mesmo. Não se dá nem se tira mediunidade. Trabalha-se, educa-se e se evolue com ela. É uma faculdade do espírito que se manifesta no campo físico. Que possamos aprender com ela, que possamos nos educar com ela, que possamos evoluir com ela. Que sejamos melhores pessoas em virtude do que aprendemos através dela!

Jornal O Clarim – Março de 2019

[1] Livro Missionários da Luz, cap. 9 – Mediunidade e Fenômeno

[2] Livro Entrega-te a Deus, cap. 5 – Ciladas, psicografia de Divaldo Franco, autora espiritual Joanna de Ângelis

[3] Livro Seara dos Médiuns, capítulo 12 – Na Mediunidade

[4] Livro dos Médiuns, capítulo XX, item 226, questão 9ª

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