Walkiria Lucia Araujo Cavalcante

“875. Como se pode definir a justiça? “A justiça consiste em cada um respeitar os direitos dos demais.”

  1. a) – Que é o que determina esses direitos? “Duas coisas: a lei humana e a lei natural. Tendo os homens formulado leis apropriadas a seus costumes e caracteres, elas estabeleceram direitos mutáveis com o progresso das luzes. Vede se hoje as vossas leis, aliás imperfeitas, consagram os mesmos direitos que as da Idade Média. Entretanto, esses direitos antiquados, que agora se vos afiguram monstruosos, pareciam justos e naturais naquela época. Nem sempre, pois, é acorde com a justiça o direito que os homens prescrevem. Demais, este direito regula apenas algumas relações sociais, quando é certo que, na vida particular, há uma imensidade de atos unicamente da alçada do tribunal da consciência.”[1]

A Lei de Justiça, de Amor e de Caridade encontra-se explicada em O Livro dos Espíritos a partir da questão 873 até a questão 892. Não podendo separar a sua aplicabilidade, as três Leis somam-se e complementam-se, traduzindo a razão de ser, a viga moral que nos conduz a todos.

Começando a desenvolver o nosso pensamento sobre a Justiça, verificamos que a regra de conduta passa pela perfeita compreensão dos direitos de cada um e da coletiva como um todo. Mesmo que não estejamos ferindo o direito individual, quando estamos em coletividade a nossa razão mostra-nos que o todo representa mais que as partes individualmente.

O que seria um leve insulto, podendo ser relevado pela outra parte, torna-se uma grande agressão e vice-versa. Por vezes, em nome do equilíbrio da coletividade, desrespeitamos os direitos individuais da criatura humana, provocando desastres morais que levam a pessoa a desrespeitar aquilo que jamais faria com relação a si mesmo. O ser humano adequa, em muitas situações, a realidade dos fatos e assim a realidade da justiça, ao sabor da necessidade momentânea. Por isso, vemos muito bem explicado, pelos insignes mestres da humanidade, que a justiça consiste em “… respeitarmos o direito dos demais.”

Não existe condicional nesta afirmativa. É uma linha divisória de comportamento alinhando a nossa a conduta a do outro. O direito não permitindo adições de outra parte neste contexto, introduz o pensamento que para sermos justos precisamos aprender a respeitar o próximo. Sendo o respeito um dos filhos diletos do amor, fonte primeira da elevação aos pórticos mais amplos da criação humana, não podemos também separá-lo da caridade.

A caridade, não se constituindo somente a entrega de algo a alguém, também representa a tolerância de uns para com os outros[2], sendo que é o que menos fazemos sobre a Terra, conforme palavras do próprio Evangelho. Para tolerarmos alguém, precisamos passar pelo princípio do respeito. Vemos que este, faz vinculação aos três aspectos, da Lei que nos orienta a convivência com o próximo.

A Lei de Justiça adiciona-se as forças constritoras de educação e elevação do espírito. Limitador da economia humana, as provas e expiações, com olhar mais detido para expiações, produz-nos campo de entendimento sobre o proceder com relação a conduta, o comportamento, as afeições e por fim, com relação ao outro. Tendo um livre-arbítrio limitado, produzimos a caminhada dentro dos limitadores que nos conduzem a evoluir: as provas e as expiações, que a medida que se processamos a compreensão através da prática, acionamos o conhecimento já adquirido e formulamos a nossa conduta estabelecendo parâmetros de conduta diante de nós mesmos, do semelhante e com relação ao todo. Por isso, que se afirma que o aprendizado modifica a forma da criatura enxergar a vida. Esta modificação produz-se muitos mais pela absorção da aprendizagem atual somada ao que já trazemos de experiências passados, do que ao tempo decorrido em virtude da idade.

Sempre competindo a nós a escolha, se enveredarmos para o mal teremos obrigatoriamente que fazer o caminho de retorno. O amor, a elevação, o bem constituem o caminho reto para elevação da criação. Ficando a escolha sob o que deveremos fazer a cada um segundo os limites determinados pela consciência. Fiel amiga, que no silêncio do pensamento aciona a campainha moral, sinalizando que não estamos agindo de acordo com o aprendido e já vivenciado, mas que o interesses pessoal leva-nos a quebra do parâmetro estabelecido.

Por isso que o Livro dos Espíritos nos lembra: “…na vida particular, há uma imensidade de atos unicamente da alçada do tribunal da consciência.” Poderemos fugir ao julgamento legal, social e moral da coletividade, mas não poderemos fugir de nós mesmos. A Justiça Divina estabelece-se da criatura para com Deus, passando pela compreensão de Sua Lei. Por mais que queiramos em alguns momentos e por mais que neguemos, aprendemos e absorvemos a informação. O caminho para execução perfeita da Lei trilha o caminho do exercício. Opcional: provas; ou compulsório: expiações.

Não fugimos de nós mesmos. Não podemos fingir que não sabemos, pois estamos encarnados exercitando o aprendizado, mesmo quando negamos exerce-lo. Cedo ou muito cedo, seremos convidados a revisitá-lo. Até chegar o momento que a criatura, não mais negará a si e Lei em sua vida. Lei de Justiça, de Amor e de Caridade, norte de condução a criatura para perfeição relativa que o Mestre Jesus nos concitou a mais de dois mil anos.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – Abril 2019

[1] Livro dos Espíritos

[2] Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XIII, itens 9 e 10

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