Walkiria Lucia Araujo Cavalcante

“De duas maneiras se opera, como já o dissemos, a marcha progressiva da Humanidade: uma, gradual, lenta, imperceptível, se se considerarem as épocas consecutivas, a traduzir-se por sucessivas melhoras nos costumes, nas leis, nos usos, melhoras que só com a continuação se podem perceber, como as mudanças que as correntes d´água ocasionam na superfície do globo; a outra, por movimentos relativamente bruscos, semelhantes aos de uma torrente que, rompendo os diques que a continham, transpõe nalguns anos o espaço que levaria séculos a percorrer. É, então, um cataclismo moral que traga em breves instantes as instituições do passado e ao qual sobrevém uma nova ordem de coisas que pouco a pouco se estabiliza, à medida que se restabelece a calma, e que acaba por se tornar definitiva.”[1]

Em O Evangelho Segundo Espiritismo, capítulo III, na parte trazida pelas instruções dos espíritos, vemos o item progressão dos mundos. Mas os mundos progridem porque a humanidade progride. A situação da criatura humana em ser superior ou inferior varia de acordo com o ponto de vista analisado.

Tomando como ponto de partida a criatura encarnada no planeta Terra no qual estamos expiando ou provando, os que estão acima não estão mais sujeitas as doenças que estamos, possuem os sentidos mais apurados, a própria locomoção é mais rápida, a infância é mais curta, consequentemente a longevidade é maior. Os que estão abaixo em contrapartida tem a força bruta como lei entre eles, o sentimento de delicadeza e justiça não predomina entre eles.

Mas quanto a nós, que estamos como ponto de partida para avaliação. Como nos avaliarmos? Baseados nas avaliações do próprio Evangelho, vemos que a superioridade intelectual predomina, mas não ainda, a moral. Ainda estamos propensos a númerosos vícios. Ainda verificamos a questão das provas e das expiações como proeministes em detrimento das missões.

As expiações são os expurgos dos atos cometidos contra a Lei Divina. Ao fazermos o mal a alguém, na verdade estamos conspurcando a Lei Divina utilizando o próximo como veículo. Deixando em nós a matriz do delito, marcas que serão o meio pelo qual nos reajustaremos com a própria Lei. Dia chegará que a divindade por força da necessidade ou nós mesmos pelo esclarecimento da razão desejaremos este reajuste nos colocando em situação de reealinho. Podendo utilizar como veículo a mesma pessoa a quem fizemos mal ou outra.

As provas são os testes que fazemos de tempos em tempos para corroborar as lições aprendidas e renovarmos o saber diante da Lei. Avançamos no conhecimento doutrinário, comprometemo-nos com uma nova de proceder, atentamos para novos preceitos em nossas vidas, ajustamos percursos em virtude desses valores abraçados, mas necessitamos forjar a teoria à prática. A Lei nos coloca em prova diante das lições e das promessas feitas por nós.

Neste nosso planeta ainda verificamos as desigualdades sociais; o merecimento não é o nivelador para alçar, na grande maioria das vezes, os postos mais altos, não importando do que estejamos falando; ambição, orgulho e vaidade sobressaem no ser, fazendo famílias separarem-se e amizades serem dissolvidas; a esperteza, o se dar bem a todo custo cria inimizades e a fraternidade ainda não é bandeira de ordem nos corações humanos.

Mas nós progredimos. Não somente os planetas progridem. Da mesma maneira que a renovação ocorre de duas formas para os mundos, também ocorre para nós. Uma lenta, gradual, formada no aprendizado e suplantado pelas provas e as missões que abraçamos durante as sucessivas reencarnações que possuímos. A criatura sedimenta um alicerce forjado no aprendizado constante e na filosofia do amor, da caridade, da fraternidade e do perdão. Tornamo-nos pessoas melhores, porque enxergamos no outro, nós mesmos.

Há um outro processo, mais rápido. Diante das expiações. Do mesmo jeito que os cataclismos revolvem a terra; temos os nossos cataclismos físicos e morais que nos revolvem de forma tal que nos sentimos abalados, sem chão. São as expiações. Necessárias para o expurgo moral, mas também importantes nesse processo de aprendizado, pois se bem aprendidas colocamo-nos sob um novo prisma do entendimento sobre a vida, sobre quem somos e a forma como nos comportarmos a partir daquele momento.

Não há como sermos iguais após estes cataclismos físicos e/ou morais que vivenciamos de tempos em tempos na nossa encarnação. Processos depurativos de aprendizagem que nos projetam para um novo patamar evolutivo se assim o quisermos. Em alguns momentos, sentimo-nos destruídos, mas mesmo assim, este é um processo que faz parte da renovação.

“É lei da Natureza a Destruição? Preciso é que tudo se destrua para renascer e se regenerar. Porque, o que chamais destruição não passa de uma transformação, que tem por fim a renovação e melhoria dos seres vivos.”[2] Os planetas vivem em constante renovação, nós vivemos em constante renovação. Algumas dessas provocam abalos que não gostamos e até procuramos evitar, mas só conseguiremos ver o arco-íris depois da chuva em nossas vidas.

Deus como Pai amoroso que é não nos deixaria sofrer e ficarmos a mercê de situações que não fossem necessárias ao aprendizado e libertação de amarras pesadas que possuímos. Mas ainda, pensamos como crianças que corremos para o colo de nossos pais, quando o médico quer nos fornecer o remédio necessário para cura, mas que traz sabor amargo naquele momento.

Jornal O Clarim – Abril de 2019

[1] Livro A Gênese, capítulo XVIII, item 13

[2] Questão 728 de O Livro dos Espíritos

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