Walkiria Lucia Araujo Cavalcante

“Vinde a mim, todos vós que estais aflitos e sobrecarregados, que eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei comigo que sou brando e humilde de coração e achareis repouso para vossas almas, pois é suave o meu jugo e leve o meu fardo.” (S. MATEUS, cap. XI, vv. 28 a 30.)

Ao despertarmos no conhecimento espírita, aportamos num mundo novo de aprendizagem. Que nos convida a apaziguar a mente e os sentimentos. Somos compelidos a nos movimentar numa nova ordem de ideias. Mais ainda, a enxergarmos a vida de uma maneira diferente. Para alguns significa acordar de um profundo pesadelo; para outros, ser apresentado a um ser estranho, a si mesmo. Alguém desconhecido, que habitava em si mesmo, mas que estava adormecido em virtude dos anestesiantes morais que a vida nos oferece.

“Um sábio da antiguidade já vo-lo disse: Conhece-te a ti mesmo.”[1] Mas o que isto teria a ver com o alívio de nossas dores? Os médicos hoje em dia, procuram entender o paciente como um todo antes de fechar um diagnóstico sobre a doença. Se um estranho que tenta nos ajudar a encontrar a cura age desta forma, porque nós, que somos os primeiros e melhores médicos que possuímos também não iremos nos conhecer sem máscaras para chegarmos à cura de nós mesmos?

Sabemos que a encarnação em alguns momentos se torna dolorosa, difícil de ser trilhada. Período que se fala de transição planetária, em que as criaturas ascendem de patamar, muitos acreditam que equivaleria a sairmos de uma condição a outra sem esforço íntimo, nem tão pouco coletivo. Não é assim que se processa a evolução. A semelhança de uma borboleta que antes precisa renascer sobre si mesma para depois sair voando, somos também assim, renascemos somos nós mesmos até conseguirmos alçar o voo definitivo rumo a perfeição relativa que o Mestre Jesus nos ensinou.

Se Ele, enquanto encarnado, vivenciou os percalços que vivenciou como exemplo a nos mostrar: “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.”[2] Porque nós iríamos nos isentar do nosso quinhão no processo de aprendizado e na cota evolutiva? Desejamos o lugar mais alto, as esferas superiores, sermos como os espíritos mais elevados, mas nunca nos perguntamos o que estes espíritos fizeram ou o quando de lágrimas derramaram silenciosamente para estarem na condição que estão.

Mais ainda, a renúncia, o trabalho árduo, as horas incansáveis trabalhadas pelo bem contabilizadas somente na própria consciência e por parte daqueles que orquestram, como emissários da Divindade, a evolução humana. Em todos os tempos existiram as guerras, as maledicências, as brigas pelo poder, a soberba, a astúcia, a luta por se ter um pouco mais do que vai se acabar logo mais. Sendo que hoje, em virtude, inclusive, deste processo de última oportunidade de encarnação para muitos aqui no planeta Terra, as cores tornam-se mais fortes, as dores tornam-se mais cruéis. Em tudo se subiu o tom e o choro tornou-se mais doido em todos os lares.

Então, como cultivar a paz que Jesus nos ensinou? “Eu sou o grande médico das almas, e venho trazer-vos o remédio que vos deve curar. Os débeis, os sofredores e os enfermos são os meus filhos prediletos, e venho salvá-los. Vinde, pois, a mim, todos vós que sofreis e que estais carregados, e sereis aliviados e consolados. Não procureis alhures a força e a consolação, porque o mundo é impotente para dá-las. Deus dirige aos vossos corações um apelo supremo através do Espiritismo: escutai-o. Que a impiedade, a mentira, o erro, a incredulidade, sejam extirpados de vossas almas doloridas. São esses os monstros que sugam o mais puro do vosso sangue, e vos produzem chagas quase sempre mortais. Que no futuro, humildes e submissos ao Criador, pratiqueis sua divina lei. Amai e orai. Sede dócil aos Espíritos do Senhor. Invocai-o do fundo do coração. Então, Ele vos enviará o seu Filho bem-amado, para vos instruir e vos dizer estas boas palavras: “Eis-me aqui; venho a vós, porque me chamastes!”[3]

O Espiritismo não traz fórmulas mágicas, receituários, nem tão pouco processos de cura que isentam a criatura. Muito pelo contrário. Somos os atores principais neste processo. Assimilando a mensagem promovemos a mudança paulatinamente, de acordo com o entendimento de vida que possuímos, sem ferir a consciência, através do aprendizado experienciado através das várias encarnações, até o momento que se solidifique, como base em nossas vidas, servindo de mola propulsora a novos movimentos de modificação em nossas vidas.

A cada movimento aprendido e solidificado modificamos de comportamento. Assimilamos um pouco do que o Cristo era. Não somos mais os mesmo. Agimos de outra forma. Começamos a viver mais em paz. Gostamos desta paz. Modificamos mais. O que antes não fazia sentido agora faz. As agressões não cortam como lâminas afiadas como outrora, assemelham-se a alfinetas. Começamos a enxergar que ao lado da podridão que nos envolve o sol também nasce e que ele brilha também para nós.

Jesus se faz presente nesta hora. Semelhante a Paulo de Tarso na estrada de Damasco, vemos surgir este Sol de primeira grandeza a nossa frente. Ele não precisa nos perguntar por que o perseguimos. No nosso caso é diferente. O Mestre Rabi estende-nos as mãos, e nos diz: Vem, segue-me. Pois, “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.” Não há outra alternativa para vivermos em paz, a não ser procurarmos seguir os passos do Mestre Jesus. Ainda não conseguimos em totalidade, mas estamos no caminho que leva a Ele.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – Maio 2019

[1] Questão 919 de O Livro dos Espíritos

[2] João, 14:6

[3] Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo VI, item 7