Octávio Caumo Serrano caumo@caumo.com

A física moderna procura explicar-nos que o tempo é uma ilusão.

Passado e futuro não passariam de locais do mesmo espaço, conforme a posição em que nos colocamos. Provavelmente, está aí a explicação para o apocalipse e seus mistérios. Como e para que João foi trazido ao futuro para ver o caos em que se encontrava a humanidade e depois voltar para alertar os seus a fim de que não cometessem os mesmos erros para não ter sofrimento semelhante, quando chegasse a hora de eles viverem nesse mesmo “futuro”. Explicava, portanto, que vamos realizando hoje e construindo, por consequência, novos acontecimentos. Aplicação instantânea da lei de ação e reação. Não fora isso, não pudesse João mudar o “futuro”, por que o Cristo haveria de entristecê-lo mostrando o caos a que chegaram seus conviventes?

Como explicar o dia do juízo final quando nossa história nos é revelada, causando alegria ou infelicidade pelos nossos atos do “passado”? Foi o que descobriu o pesquisador Raymond Moody relatado no seu livro “Vida depois da Vida”, do original “Life after life”. Fê-lo por meio de pesquisa com letárgicos, por traumas ou comas em hospitais, quando relataram o túnel escuro, a chegada a um local luminoso e o filme de suas vidas que era ali exibido, deixando-os tristes ou alegres, conforme o comportamento que tiveram durante a sua existência. Onde estavam guardadas essas imagens? Seria na consciência de cada um, como diz o Livro dos Espíritos na questão 621 sobre a Lei de Deus?

Aceitando que os diferentes tempos não passam de ilusão, conforme as ciências atuais, só há um tempo real: O AGORA, porque daqui a um átimo já não é mais AGORA. E não podemos viver nem antes nem depois do AGORA. A nossa vida é feita de acontecimentos que nos dão alegrias ou decepções. Costumamos ter lembranças deles, ficando felizes com os que nos deram prazer e lamentando os dias de infortúnio. Vem a saudade acompanhada de contentamento ou trauma. Segundo o dicionário, “saudade é essa lembrança melancólica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoa(s) ou coisa(s) distante(s) ou extinta(s)”. Relembrar um triste acontecimento é sofrer novamente. Recordar um fato feliz traz-nos a tristeza de não poder vivê-lo de novo.

É por isso que não gosto de ter saudade. Nunca. Os bons momentos procurei desfrutá-los da forma mais intensa que pude. Extrai deles todo o êxtase que podiam me oferecer. Passado o evento, já não posso tê-los. Os maus incorporei naturalmente ao meu saber, transformando-os em experiências para não revivê-los com lembranças do momento desagradável, de situações, coisas ou pessoas.

No que diz respeito aos assuntos de natureza espirituais, cresci com o bem que eventualmente fiz, numa compensação automática das leis divinas, e registrei enganos a serem reparados, segundo a mesma justiça. Já nos valores materiais, procurei fugir da avareza, da ganância, da carência irrefletida, aproveitando experiências dos que afirmavam que “rico não é quem tem muito, mas quem precisa de pouco”. Como o grego, Diógenes, que vivia de camisolão pelas ruas de Atenas dentro de um barril e que jogou fora uma caneca quando viu um menino fazer com as mãos uma concha para beber água num riacho. “Quanta coisa supérflua ainda carrego comigo”, disse o filósofo.

Na vida recebi muitos elogios. Analisava-os para ver se expressavam meus reais méritos ou se buscavam agradar-me com segundas intenções. Filtrei-os, cuidadosamente, aproveitei, ou não, e segui. Recebi também ofensas, ingratidões e o que considerei injustiças. Desculpei todos os meus ofensores porque tais atos vêm de pessoas enfermas da mente ou do corpo. Perdoar sempre faz bem e evita que se acumule detritos na alma. Faço-o, graças a Deus, com certa facilidade. Aprendi com Gandhi que ninguém nos ofende se nós mesmos não nos ofendermos.
Para concluir, cito uma sextilha que diz: “Esta palavra saudade, conheço desde criança. Saudade de amor ausente não é saudade é lembrança. Saudade só é saudade quando morre a esperança!” – Pinto de Monteiro-PB.

Xô, saudade.

Jornal O Clarim – Maio 2019