Octávio Caumo Serrano    caumo@caumo.com

Há 28 anos eu escrevia o artigo “Nosso Centro”, que me valeu o troféu AJE-SP – Associação dos Jornalistas Espíritas do Estado de São Paulo. Foi amplamente divulgado e muitos centros imprimiram para distribuir entre seus frequentadores, sendo a pioneira a Sociedade Espírita Maria Nunes, de Belo Horizonte, para encartar nos livros de João Nunes Maia, da Editora mineira ligada ao Centro. Pode ser lido em https://www.espiritbook.com.br/profiles/blogs/a-quem-pertence-a-casa-esp-rita

Já naquela oportunidade enfatizávamos que o amor entre as criaturas é escasso também nas casas espíritas onde circula a maledicência, mais precisamente a fofoca, devido à concorrência, melindre, inveja, desejo de evidência por vaidade e disputa por posições que provoquem destaque para o participante da casa. Ciúmes, críticas infundadas e grupos que se isolam dos restantes da instituição. Ou seja, a afirmativa de Jesus que seus discípulos seriam reconhecidos pelo muito que se amassem não encontra eco nas nossas instituições. Deixa claro que estamos longe de merecer ser definidos como discípulos do Cristo. Enquanto uns se gostam outros se odeiam ou se ignoram!

O que afirmamos, longe de ser um comentário crítico, é um lamento escrito devido à tristeza de constatar quão distante estamos do “uni-vos e instrui-vos”, proposto pelo Espiritismo, ou do “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”, segundo Jesus.

Dizia também naquela oportunidade que os trabalhadores espíritas são como funcionários que, operando em um setor, fazem o estritamente necessário dentro da função que exercem. Não colaboram com a casa nem com os colegas, auxiliando no simples ato de desligar um ventilador, um aparelho de som ou uma lâmpada, ajudar a fechar a casa ou qualquer ato que deixe claro que ele se sinta um participante da instituição e não um freelance espírita: apenas palestrante, passista, recepcionista, orientador, etc. sem outra participação espontânea para colaborar com os demais. Mal terminam os trabalhos do dia saem, apressadamente, porque nada mais é de sua responsabilidade.

Ignoram quem encapa os livros da biblioteca, quem compra pilha para os relógios, papel higiênico e copos descartáveis. Quem se encarrega da manutenção, material de limpeza. Não sabem quem paga o aluguel, a água ou a luz, embora liguem todos os ventiladores, porque são calorentos… Não saem do seu conforto, agindo como se estivesses nas suas casas. O centro não é problema deles. E ninguém se atreva a censurá-los porque ficam zangados e ameaçam ir embora do grupo. Não suportam advertências.

Antes de criticarem este escrito, os amigos leitores que participam de casas as mais diversas, observem o seu comportamento e o de seus colegas e digam onde exagerei ou menti. Serão forçados a concordar comigo porque visito muitas casas, há quase cinquenta anos, e são todas iguais, porque em todas há os mesmos seres humanos. Orgulhosos, comodistas, insensíveis e egoístas desta sociedade falida.

Quando analisamos o comportamento de religiosos de outras doutrinas, vemos que não somos diferentes em nada. Eles, por isso, são forçados a pagar, dar contribuição compulsória ou ostensiva à sua igreja, porque espontaneamente nada se deve esperar deles. Nem de nós.

Ainda não percebemos a diferença entre ser espírita e frequentar um centro espírita. No nosso livro Pontos de Vista escrevemos sobre o Cristo, o cristianismo e o cristão. Dizíamos que o Cristo é a essência, o cristianismo as suas lições e o cristão aquele que ainda não entendeu nada sobre a proposta do Cristo. Comparávamos com o Espírito, o Espiritismo e o Espírita e a conclusão foi a mesma. Vejo milhares nas plateias dos Congressos, nas palestras dos Centros, mas quase não vejo espíritas que se identifiquem como tal pela vivência dentro da proposta do Evangelho, priorizando o trabalho incondicional em favor do próximo a par de sua modificação moral para servir de bom exemplo onde esteja: no lar, na rua, na, escola, no trabalho… Mesmo esses, prestam mais atenção ao celular do que ao Evangelho.

Estamos no limiar da nova era quando o planeta será promovido a mundo de regeneração e temos a esperança de ser habitante da nova Terra. Só que isto vai depender da nossa conquista pelos méritos que acumularmos. Com o fracasso quase que total desta civilização, o mundo está dependendo da chegada da nova geração que já está se preparando para vir ao planeta e consertar os erros que estamos cometendo há milênios. Este final de encarnação que vivemos, especialmente nós os mais velhos, pode ser aproveitado como vestibular visando o ingresso no planeta renovado. Mas o esforço de renovação deve ser grande como se fosse uma encarnação supletiva na qual faremos o que não fizemos nas últimas cinco ou dez reunidas.

Quando indagamos a uma amiga da Federação Espírita de São Paulo por que um artigo tão simples e mal escrito fez sucesso e foi reproduzido por muitos jornais e revistas, além de centros espíritas que o distribuíram entre seus frequentadores, ela respondeu que fomos o advogado do dirigente espírita que pede socorro para não ficar só com a responsabilidade de administrar a sua instituição. Penso que foi isso!

Este chamado de consciência é para que não sejamos cristãos avestruzes que enfiam a cabeça no solo para ignorar o que se passa ao nosso redor. Não mais podemos ser mornos; temos que ser participantes ativos como colaboradores neste momento de transição planetária; para nós e os que estão chegando. Em vez de jogar nas mãos de Jesus a nossa salvação, cada um que trate de se salvar. Como diz um grande amigo: – Não mais é tempo de distribuir mensagens. Chegou a hora de nós mesmos sermos a mensagem. E que Deus nos ajude!

Tribuna Espírita março/abril 2019