RIE 06_19

Que tempos são esses que, embora aparentemente chegados, parece que nunca chegam?

Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

 

Apesar de ter descoberto o Espiritismo somente aos trinta e oito anos de idade, já tenho quase quarenta e sete anos de contato com esta fantástica doutrina.

A frase dita por um divulgador protestante — o chamado crente no meu tempo de jovem, lá por 1952 —, “os tempos são chegados”, ainda hoje ecoa em meus ouvidos, embora naquele tempo eu não tivesse a menor ideia a que tempos se referia aquele entusiasmado pregador de rua, rodeado por uma dúzia de atentos ouvintes. Hoje, sessenta e sete anos depois, ouvindo os Veneráveis Espíritos informarem sobre a transição planetária, começo a entender um pouco que tempos são esses que, embora aparentemente chegados, parece que nunca chegam. É porque o tempo do homem e o tempo de Deus são diferentes.

Meu primeiro centro espírita foi o Amor e Paz, na Alameda dos Arapanés, 707, no bairro de Moema, São Paulo. Depois dele fiz meus primeiros cursos de Doutrina Espírita na Federação Espírita do Estado de São Paulo e num grupo ligado à Aliança Espírita Evangélica, o Grupo Socorrista Maria de Nazaré, quando comecei a proferir palestras e a ministrar aulas em vários centros, com base nas apostilas da Aliança. Buscava transmitir as verdades do Evangelho de Jesus, agora com a cobertura de Kardec, que nos deu explicações claras das lições do Mestre para maior facilidade de entendimento.

De explanações técnicas, leis de causa e efeito e que tais, fui aos poucos percebendo que tudo pode ser sintetizado na máxima do Cristo: “Ama o próximo com a ti mesmo.” A partir desse instante, constatei como é praticamente impossível a este homem planetário amar o próximo, já que não consegue sequer amar a si mesmo. Cada um de nós, componentes desta humanidade fracassada, é intimamente um vulcão revolto, que não consegue acalmar-se. Vomita iras e ódios, cada expressão é um impropério, com revolta até contra o próprio Criador, que nos ofereceu a vida para sermos felizes. Mas, como não sabemos lidar com o nosso passado nem com o presente para plantar melhor futuro, somos um bando desarvorado vagando ao léu da indecisão. Ninguém se ama. É comum não gostarmos do próprio nome. O gordo queria ser magro e o magro queria ser gordo.

Pulamos daqui para lá e de lá para cá porque nada nos agrada. Nem a família, nem o emprego, nem a religião. Quando não invejamos a vida do outro, o agredimos, transformando-o no culpado por nossos desajustes. Seja ele o político, o patrão, o professor, o vizinho ou o marginal, porque temos de eleger alguém que leve a culpa pelos fracassos que são só nossos.

Neste ciclo planetário de mudanças radicais, os tempos efetivamente mudam, mas não em anos ou décadas. As mudanças da história são registradas em séculos ou milênios, no mínimo.

E nós, como ficamos? Como seres eternos estamos sendo esculpidos pelo buril da natureza. Atritamo-nos, ferimo-nos e à medida que aprendemos sobre paciência, resignação e fé vamos ficando mais leves. Aprendemos que as mágoas da revolta moram em nós e que o perdão nos alivia, mesmo que o outro não o aceite. Nossa tarefa somos nós; o outro é mero recurso que usamos para o nosso aprimoramento. Para isso, porém, temos de vencer o orgulho. Mas, melhorar por quê? Porque é esta a tarefa primordial da vida em mundos probatórios como o nosso.

Não há saída. Queiramos ou não, a Lei é que decide, não nós. Somos comandados pela natureza que habita em nós. Enfraquecemos, envelhecemos e no curto período que por aqui estagiamos — porque também temos prazo de validade na matéria — temos de conviver com ela de maneira pacífica e harmoniosa. Lutar contra é tempo perdido. Seremos sempre derrotados. Melhor nos aliarmos a ela. A lei que nos harmoniza é a do amor. Com tudo e todos, intensa e incondicionalmente.

Antes que o desalento me dominasse totalmente, decidi confessar-me com o Pai Eterno e dizer-Lhe: — Senhor da Vida, sei que a tudo assistes e tudo permites para testar nossa força e nossa fé, e que estás preparando o nosso lugar ao Teu lado caso vençamos esta guerra contra nós mesmos. Confio na Tua bondade e é por isso que prossigo com coragem e destemor. Tem misericórdia de nós, pobres equivocados. Não permitas que invalidemos o esforço de tantos missionários, que vieram antes de nós preparar-nos o roteiro com lições que muitas vezes lhes custaram a vida. Foram tantos a testemunhar, que não é honesto de nossa parte desperdiçar o sacrifício desses desprendidos que nada queriam para si. Foram enviados divinos que renunciaram às suas vidas para ofertá-las a nós. Não cometamos tão severa ingratidão! Que eu jamais sinta desalento por mais pedregoso que seja a caminho. Amém!

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – junho 2019