Octavio Caumo Serrano

De que tempo estamos falando?

Quando eu tinha dezessete anos, lá por 1951, trabalhava na Rua Barão de Itapetininga, no centro de São Paulo. Nos sábados o expediente ia até 13 horas, quando me encontrava com um amigo e duas meninas conhecidas para lanchar e bater papo; até umas quatro da tarde. Atravessava o Viaduto do Chá, Praça do Patriarca e seguia pela rua Direita porque ia para a Praça João Mendes pegar o ônibus para o Jabaquara, porque às sete e meia eu entrava do Colégio Roosevelt da Rua São Joaquim, no bairro da Liberdade. Curso científico.

Na rua Direita, antes da Praça da Sé, no largo da Misericórdia, havia sempre um pregador que ali estava elegantemente vestido, de paletó e gravata, de Bíblia na mão dizendo que os tempos eram chegados. Muitos que passavam faziam pouco caso do homem e lhe dirigiam gracejos, o que me constrangia, embora eu, nos minutos que parava para ouvi-lo, nada entendia do que ele falava. “Meus irmãos, os tempos são chegados!” E eu me perguntava que tempos seriam aqueles. Matriculado no catolicismo por tradição brasileira, nunca havia tido contato com uma bíblia e, portanto, nada entendia.

Vinte anos depois, pelo simples desejo de encontrar explicações para perguntas que minha religião não respondia, descobri, ocasionalmente, o Espiritismo, doutrina que abracei porque, de pronto, a sua lógica me fascinou e eu podia entender, a partir de então, as desigualdades entre os humanos, todos filhos do mesmo Pai. Fui informado que cada um de nós vivia as consequências de encarnações anteriores quando, na maioria das vezes, não tivemos bom comportamento. As dores já não representavam castigo, mas oportunidade para que, repetindo-as, pudéssemos agir de maneira mais acertada. Afinal, aprendi, somos seres espirituais e o corpo carnal é circunstancial e provisório. Foi descerrado o véu da minha ignorância e tudo passou a fazer sentido.

Comecei a entender que os tempos já chegaram e que estão com pressa. Os bons não podem mais ficar à mercê da maldade. E como o Apocalipse está fervilhando, a seleção está sendo feita em regime de urgência. Por isso os desencarnes já não são de um em um, mas resultam de grandes e sucessivas tragédias coletivas, umas por acomodação da natureza que está se ajustando à topografia da nova Terra que se prepara para abrigar humanidade maior que a atual, outras pela invigilância dos homens que as provocam por suas ganâncias. Mesmo os desencarnes individuais estão atingindo as pessoas mais intensa e prematuramente. A vida está banalizada e mata-se para roubar ou por não aceitar a perda da posse do outro. A mulher, especialmente, que não queira mais conviver com o companheiro arrisca-se a morrer.

Segundo aprendi também com esta doutrina, os que estão desencarnando e não reúnem condições para renascer na Terra de Regeneração, estão sendo exilados em espírito para mundos mais atrasados onde poderão usar seu intelecto para ali minorar as desgraças, crescendo, assim, em moral e bondade. Só ficarão na Terra, mesmo os desencarnados que estagiarão na sua esfera espiritual, os que já reúnem um mínimo de condições para ficar distante dos vícios, das falcatruas, da insensibilidade porque no novo período do nosso planeta o que identificará seus habitantes será a solidariedade em forma de amor entre as pessoas. Serão os cristãos da Nova Era.

Todas as oportunidades já nos foram dadas e chegaram mesmo a ser prorrogadas, sem que a maioria se desse conta ou agradecesse. Agora, salve-se quem puder. Tratemos de preparar, com prioridade, a nossa vida futura, porque nesta, a maioria de nós faliu. Mas que ninguém perca a tranquilidade porque somos todos filhos de Deus. E, no final, como garantiu Jesus, “nenhuma ovelha do rebanho se perderá”. Estamos todos condenados à angelitude. Demore mais ou demore menos!

Jornal O Clarim – junho 2019