Walkiria Lucia Araujo Cavalcante 

“Vive o homem incessantemente em busca da felicidade, que também incessantemente lhe foge, porque felicidade sem mescla não se encontra na Terra. Entretanto, mau grado às vicissitudes que formam o cortejo inevitável da vida terrena, poderia ele, pelo menos, gozar de relativa felicidade, se não a procurasse nas coisas perecíveis e sujeitas às mesmas vicissitudes, isto é, nos gozos materiais em vez de a procurar nos gozos da alma, que são um prelibar dos gozos celestes, imperecíveis; em vez de procurar a paz do coração, única felicidade real neste mundo, ele se mostra ávido de tudo o que o agitará e turbará, e, coisa singular! o homem, como que de intento, cria para si tormentos que está nas suas mãos evitar.”[1]

Um amigo uma vez disse-me que quando queremos controlar os acontecimentos da vida seria o mesmo que desejarmos segurar o vento em nossas mãos: impossível de acontecer. São várias as razões dos tormentos voluntários, entre elas, a falta de paciência e a inabilidade em não sabermos nos conduzir diante das situações que acontecem na encarnação e acabamos por criar tormentos voluntários.

O item que intitula este artigo faz parte do capítulo Bem-Aventurados os Aflitos de O Evangelho Segundo o Espiritismo. A primeira vista para o desavisado, pode parecer que nós espíritas fazemos apologia ao sofrimento e a dor. Muito pelo contrário, a imortalidade da alma não nos torna imunes à dor, mas sim, ao desespero. Sabermos que o ser amado não desintegrou ou foi segregado a um local eternamente, provoca-nos profundo alívio.

Com o conhecimento espírita começamos por relativizar a felicidade terrestre, entendendo que absoluto só DEUS. A questão 922 de O Livro dos Espíritos nos orienta sobre a felicidade comum a todos os homens encarnados: “Com relação à vida material, é a posso do necessário. Com relação à vida moral, a consciência tranquila e a fé no futuro.”

Ao falarmos da parte material, entendemos que fique mais fácil a compreensão do que vem a ser a posse do necessário, mas a consciência tranquila e a fé no futuro, mesmo para nós espíritas, é algo difícil de ser solidificado mentalmente e depois traduzido em atitudes. Mesmos aqueles ditos de “berço espírita”, que não frequentaram outra religião, ainda trazemos arraigados em nosso subconsciente práticas de outras religiões vivenciadas.

Por isso, para muitos, ter a consciência tranquila é não fazer mal a alguém. Mas se começarmos a avaliar nossos atos usando Jesus como modelo e guia[2] que o é, verificaremos que não basta não fazermos o mal, necessário é fazermos o bem. Quantas situações se desenham em nossas vidas que simplesmente deixamos de nos pronunciar ou agir porque não nos convém naquele momento? Quantas oportunidades de fazer a caridade temos e que não executamos porque estamos atrasados ou não queremos deixar de fazer isto ou aquilo que nos apraz? Não estamos com isto, fazendo juízo de valor, mas alargando o que vem a ser o significado do termo: “consciência tranquila.

Com relação à fé no futuro, gostaríamos de abordá-la sob dois prismas: as questões da vida de relação e as questões que nos afetam como trabalhadores espíritas, que passam pelas primeiras, mas que tomam outro tom, pois resvalam nos trabalhos que estamos executando e acabam por interferir diretamente no próprio movimento espírita, em virtude de sermos representantes dele.

A fé no futuro é a crença, a princípio, de que dias melhores existirão. Dizemos crença, porque em sua origem, vindo de outras religiões, acreditamos sem compreendermos muito bem o significado, que existe um futuro que nos está reservado e que de alguma forma colheremos o que fizermos hoje. Somente a Doutrina Espírita nos explica que somos herdeiros de nós mesmos e que os atos que parecem escondidos do todo, não ficam escondidos de nós, da nossa consciência, por isso que os espíritos ao responderem a pergunta a colocam em primeiro lugar como patamar para a felicidade.

Sendo que o macerar dos sofrimentos acaba por nos magoar e diminuir esta esperança num futuro melhor. Mesmo que sejamos espíritas. Porque começamos por observar que a criatura que nos faz mal também irá reencarnar e não achamos justo, muitas vezes, que ela tenha as mesmas oportunidades que nós, afinal, ela nos fez mal. Mas esquecemos de que Deus é Pai de todos nós. Esquecemos que também temos um passado e àqueles a quem fizemos mal muito provavelmente não gostariam que tivéssemos outras oportunidades. Vivenciamos um círculo vicioso de sofrimento e criamos assim, tormentos voluntários invejando o outro.

Quando somos trabalhadores da lide espírita temos outro problema a ser destacado: somos mensageiros que entregamos a carta da esperança aqueles que nos rodeiam muitas vezes não vivenciando a própria fé viva em nós de maneira plena. Mas isto é possível? Já nos ensinou Jesus: “Não são os que gozam saúde que precisam de médico.”[3] O Evangelho Segundo o Espiritismo em seu capítulo XXIV, itens 11 e 12 nos esclarece que se fossemos esperar somente os que estivessem dignos da execução do trabalho teríamos problemas para faze-lo.

Muitos afirmam que nos capacitamos para um trabalho na execução dele. O que não podemos é alegar que não o executamos porque não somos iguais a “A” ou “B”. O processo de superação é com relação a nós mesmos. A passagem do óbolo da viúva que deposita o pouco que tem nos ilustra bem isto: fazermos o melhor que pudermos, transformarmos o pouco que possuímos, agindo de maneira ativa, viva e com fé em proveito próprio e do nosso próximo.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – junho 2019

[1] Evangelho Segundo Espiritismo, capítulo 5, item 23

[2] Questão 625 de O Livro dos Espíritos

[3] Mateus, cap. IX, v 12