Octávio Caúmo Serrano – caumo@caumo.com

A prece sempre estabelece uma ligação do homem com o mundo espiritual e jamais deixa de ser atendida, ou aproveitada, quando é dita de coração puro, sem interesse de favorecimentos; particularmente os imerecidos. Quando nos foi ensinado que se pedíssemos obteríamos, está implícito que depende do que pedimos. Há quem peça números que o favoreçam numa loteria e nunca é atendido.

Algo que parece tão simples e que fazemos de hábito mecanicamente, é mais profundo do que imaginamos porque não podemos mudar leis simplesmente recitando palavras que muitas vezes nem sentimos. Quantos rezam terços caminhando na praia ou durante o cooper, cumprimentando quem passa, sem perceber que sua prece está sendo dita automatizada sem que as expressões venham da alma. De nada valem todos os “Pais Nossos” ou as “Ave Marias” porque não nasceram da mente e do coração ao mesmo tempo. Uma lição decorada sem sentido. Há quem confunda oração ou frequência aos templos com fé. Sem que se estabeleça uma íntima ligação entre a criatura e o criador, mesmo por seus prepostos, essa prece não sai do chão nem chega a lugar algum.

É preciso, também, que ao rezar não procuremos derrogar as Leis de Deus e, portanto, aprender a orar é importante. Diante do infortúnio de alguém que goza de nossa estima, oramos pedindo que seja poupado do sofrimento, quando ignoramos a importância eventual que aquele desconforto tem para quem passa pela provação. Quando alguém está enfermo, mesmo que sinta dores lancinantes, nunca roguemos para que Deus o leve porque não somos donos da vida do outro e não sabemos se para ele é melhor morrer ou curar-se. Entreguemos o destino dele ao Criador, Ele sim o dono da vida de todos nós. Difícil? Muito. Nunca dissemos que tais momentos são fáceis.

Para exemplificar, lembremos de Eurípedes Barsanulfo, o apóstolo de Sacramento-MG, que contraiu a gripe espanhola em 1918 durante o tratamento da população infectada, porque era farmacêutico. Sua mãe e outras pessoas oravam ao lado de seu leito, onde ardia em febre, quando ele disse: – Graças, Senhor, estou salvo. Imediatamente as pessoas se afastaram do leito para comemorar e, logo depois, ao voltar, o desenlace tinha se consumado. Enquanto uma corrente de orações o prendia a este mundo, a equipe encarregada de desatar os laços que ligavam o espírito ao corpo físico não conseguia realizar o desligamento. Com a notícia da cura, eles se afrouxaram e a espiritualidade pode completar o trabalho.

Este tipo de comportamento é fácil de ser compreendido pelos espíritas que sabem da continuidade da vida e que novas encarnações nos serão oferecidas para a aquisição de mais experiências e conhecimentos. Para os cristãos de outras doutrinas tal comportamento é mais raro, porque veem na morte uma perda irremediável, sem qualquer oportunidade de reencontro ou aprimoramento para aquela alma que agora retorna ao mundo real. Mas todos, uns mais outros menos, se não acreditam nessa continuidade têm dúvidas se não é assim que funciona. Esta vida que levamos na matéria é muito pequena se comparada ao que a inteligência de Deus pode nos oferecer. Vamos pela rua e um louco dispara uma arma e nós, que não éramos o seu alvo, somos atingidos e “morremos”. Nessa altura o máximo que esperamos de Deus é que nos diga: “Desculpe, falha minha!  Eu estava distraído.” Não, meus amigos, seria uma vida frágil demais para ser tudo o que a inteligência suprema teria para nos oferecer. Afinal, a minha única culpa era estar passando pelo local naquela hora! Não; recuso-me a admitir que tudo seja tão simplista. Até aceito que o episódio fizesse parte de um plano de resgate. Mas que eu desaparecesse para sempre, não consigo aceitar.

Resumindo, a oração mais sábia é aquela que roga a Deus para que nos dê discernimento, sabedoria, aceitação e força para suportar a dificuldade. Em vez de uma cruz leve, devemos pedir ombros fortes.

Jornal O Clarim julho 2019