Walkiria Lucia Araujo Cavalcante

“Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.”[1]

Ao ler o capítulo 74 de mesmo título do nosso artigo do livro Palavras de Vida Eterna, psicografado por Chico Xavier e autoria espiritual de Emmanuel lembramo-nos do capítulo XVI do Evangelho Segundo o Espiritismo, em especial, do item intitulado: Salvação dos Ricos.

As duas passagens falam de carregarmos a nossas cruzes e seguirmos Jesus. Mostram-nos que o crescimento é objeto e objetivo de nossas vidas e que para alcançarmos patamares mais altos precisamos deixarmos para trás o que está servindo como empecilho para nossa evolução.

Sendo que muitas vezes entendemos como vantagens o que são empecilhos e vice-versa. Para o moço rico, os empecilhos eram os bens materiais. Ele não conseguia desvencilhar-se deles porque ainda se sentia possuído por eles, não os possuía. Emmanuel nos traz a proposta de nos desapegarmos do homem velho, da criatura antiga que habita em nós e rumarmos para a nova proposta de vida que almejamos.

As vantagens são as cruzes que carregamos no silêncio da renúncia de nossos dias, onde, cambaleantes muitas vezes diante das intempéries, prosseguimos, por possuirmos um propósito maior. Deixando ressoar em nossa mente a convocação/estímulo do Mestre Rabi, entendendo que seguir-Lhe os passos supera o caminhar sobre eles. É um ato de reconhecimento de si e caminhada sobre si. Ultrapassando todas as barreiras de forma persistente, diária e ininterrupta.

Alguns leitores podem pensar neste momento que não haverá fracassos. Mas é um engano. Eles existirão, porque ainda somos imperfeitos e porque o processo de aprendizado solidifica-se através das tentativas e erros que fazemos através das nossas próprias experiências. Aprendemos a teoria observando o semelhante, estudando o evangelho, mas somente na prática diária que conseguiremos forjar a criatura luminífera que Jesus nos concita no processo evolutivo.

É marcante, quando do calvário, que Jesus ao carregar a sua cruz, cai algumas vezes. Sempre me perguntei por que isso acontecia. Afinal, Ele é Jesus de Nazaré. O tipo mais perfeito que Deus nos ofertou, modelo e guia da humanidade[2]. Hoje, permito-me interpretar esta passagem, entendendo que em todas existe um significado, sendo uma maneira de nos mostrar que ao “pegarmos de nossa cruz e O seguirmos”, iremos cair em alguns momentos, iremos fraquejar em outros tantos. Estaremos caminhando forçosamente para o momento mais cruciante de dor de nossas vidas, mas ao mesmo tempo em que o sofrimento nos aguarda, a forma como o encaramos irá nos libertar ou nos aprisionar ainda mais, prorrogando o momento da libertação.

Os dois textos nos falam da maturidade perante a vida, dizendo-nos que para crescermos necessitamos ressarcir perante a Lei Divina aquilo que conspurcarmos; seja através do sofrimento moral, ou através do desfazimento dos bens materiais, também veículo de atingimento de processo evolutivo moral, como foi proposto ao moço rico, pedindo que ele entregasse aos pobres. “Pois onde estiver o seu tesouro, aí estará o seu coração.”[3]

A nossa cruz torna-se mais leve ou mais pesada conforme compreendamos ou não as verdades espirituais. Podendo parecer simples esta afirmação, passa esta compreensão pela ratificação do comportamento. Seria o que o Evangelho Segundo o Espiritismo nos explica sobre o a Obediência e a Resignação: “A obediência é o consentimento da razão; a resignação é o consentimento do coração, forças ativas ambas, porquanto carregam o fardo das provações que a revolta insensata deixa cair.”[4]

Quando conseguimos alinhar razão e sentimento, incorporamos a mensagem ao nosso comportamento não modificando assim nossa linha de conduta. Entendendo ser esta a única maneira de viver/exercer determinado papel na vida, mesmo que sejamos questionados, açodados, permanecemos firmes e continuamos a marcha. O processo de negar a si mesmo não é um excludente da criatura. Não é uma anulação do ser espiritual que habita o corpo transitório, mas dos valores transitórios que acompanham o espírito imortal.

Valores estes importantes, mas não fundamentais para nos fazerem chegar à perfeição. São facilitadores na engrenagem da vida, mas não constituem a engrenagem da vida. Tanto que de tempos em tempos a própria sociedade questiona-se qual o rumo que está tomando. Novos ídolos materias surgem, mas os valores imortais do amor, da caridade e da justiça continuam por sendo a espinha dorsal a conduzir a seara humana.

Perguntado a um velho sábio o que ele gostaria de deixar de presente à humanidade no dia em que ele partisse, ele respondeu: “Se só uma coisa me fosse permitido deixar, deixaria o amor. Mas não o amor como às criaturas apregoam. Seria o amor que o Mestre Jesus nos ensinou. O amor que nutre a criatura pela própria existência dele. Que faz se ultrapassem as barreiras da humanidade e enxergue no outro, o outro, não quem ele represente. Que nos coloca diante do próximo e nos aproxima dele, em vez de nos afastar. Que enfim, une a sua a nossa cruz para quem ambas fiquem menos pesadas.”

Se observarmos bem, a madeira é composta de “tecidos lenhosos de plantas”, são camadas e mais camadas que se unem. A nossa cruz são camadas de história que se une a outras cruzes, que possuem outras camadas de histórias, nas quais nossas encarnações se entrecruzam e se tivermos sabedoria, mutuamente nos ajudamos. Então, carregar a própria cruz é libertar-se das próprias marcas e sempre que possível ajudarmos ao nosso semelhante. Foi essa a proposta feita ao moço rico. Libertando-se do apego excessivo aos bens materiais, ele iria ajudar àqueles que carregavam o peso da necessidade material.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – julho 2019

[1] JESUS (MARCOS, 8:34)

[2] Questão 625 de O Livro dos Espíritos

[3] Mateus, cap. 6, v 21

[4] Capítulo IX, item 8

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