Walquiria Lucia Araujo Cavalcante

“Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus.”[1]

A passividade longe de ser uma situação de inércia, corresponde ao movimento dinâmico de entendimento de que a guerra é a luta moral da criatura para consigo mesma. Travada internamente, eclode em expressões agressivas para com o semelhante (quando não ajustado o comportamento ao ensinamento Crísitico) e mostra-se estóico perante o mundo suportando as investidas do mal (quando alinhado as verdades eternas).

Estamos encarnados num processo depurativo de aprendizado. Fato este comprovado nos pequenos como nos grandes momentos da nossa encarnação. Questionamo-nos como iremos introjetar a mensagem divina, em especial o Espiritismo, proposta de vida que nos explica a reencarnação e a justiça das aflições como balizadora das relações humanas, em nossas vidas diante dos fatos que ocorrem em nosso derredor.

Partindo de extremos, a criatura, em sua grande maioria, vivencia o culto excessivo a si mesma, ao corpo, a inteligência, beleza e etc ou vivencia uma descrença absoluta em si, por isso, o avançado aumento dos casos de depressão e suicídio. Procuramos fora o que deveria ser produzido dentro de nós. A excelência na qualidade de vida começa no que escolhemos como o que é bom para nós.

Ser pacífico, antes é um estado de espírito. “… naquele que nem sequer concebe a ideia do mal, já há progresso realizado; naquele a quem essa ideia acode, mas que a repele, há progresso em vias de realizar-se; naquele, finalmente, que pensa no mal e nesse pensamento se compraz, o mal ainda existe na plenitude da sua força. Num, o trabalho está feito; no outro, está por fazer-se.”[2]

Para isso é necessário coragem. Coragem para mudar os condicionantes trazidos de outras encarnações e para enfrentarmos os chamados e os desafios impostos durante a encarnação. Criaturas em desalinho moral, corruptores da moral que ainda não compreenderam o sentido existencial, que permeiam e ladeiam a encarnação conosco. Detêm poder e influenciam, muitas vezes decidindo parcelas importantes que influenciam a nossa encarnação.

Outras tantas, são criaturas que estão mais próximas a nós, mas que tem a mesma importância e influencia em nossas vidas. Capazes de interferir sobremaneira, são representantes ou os próprios adversários do passado que ora se encontram junto a nós. Por isso a convocação para sermos pacíficos perante a vida. Pois seremos chamados filhos de Deus. Não significa que agora não o sejamos, mas ainda não possuímos esta perfeita identidade com o Pai.

Lembro-me de uma passagem que ocorre com André Luiz[3], ele aporta na cidade espiritual Nosso Lar. Depois de um ano lá, resolve visitar seu antigo lar. Depara-se com uma situação que lhe desagrada. Evoca a presença de sua amiga Narcisa. Supera a intempérie, entendendo que o amor nos irmana a todos não importando em que condição estejamos e qual função nós executemos no núcleo familiar, o amor nos irmana a todos. Ao retornar a cidade espiritual ele é considera um cidadão por ter se desvinculado das sensações e sofrimentos que o vinculado a Terra.

É a este pensamento que Jesus nos convida: ajudarmos e nos mantermos íntegros, inteiros não importando o que nos ocorra. A deseducação moral, os sentimentos torpes, a desonestidade, a crueldade, o desserviço daqueles que não querem o progresso tentarão nos retardar os passos, pois, ao trabalharmos pelo bem, estaremos trabalhando e moldando a nossa própria argila e contribuindo para o progresso da humanidade.

“O estoico é alguém que encontrou o sentido existencial e reconforta-se nos severos compromissos do autoaprimoramento, descobrindo as fontes de uma vida digna por meio da prática das virtudes e vivendo-as em todos os passos da caminhada enobrecida.”[4] Não são fáceis os dias que estamos vivendo. Mesmo entre o meio religioso, encontramos aqueles que defendem as meias-verdades que são mais corrosivas que as mentiras completas. Servem de desestímulos àqueles que desejam progredir.

Como ainda estamos forjando a nossa fé em bases sólidas, lembremo-nos sempre do Mestre Jesus. A caminhada é composta de uma quantidade indefinida, ainda por nós, de passos. Mas já começamos o processo. Ao olharmos para traz, não enxergamos mais a linha de partida. O clarão do Mestre Rabi está mais a frente, na chega, iluminando nossos passos.

Pedras existirão no caminho. Galhos secos nos rasgarão a pele, mas “… As provas rudes, ouvi-me bem, são quase sempre indício de um fim de sofrimento e de um aperfeiçoamento do Espírito, quando aceitas com o pensamento em Deus.”[5] Forte e corajoso não é o que reage a agressão, mas aquele que age de forma correta, não permitindo-se seguir a excitação da coletividade e permanecendo fiel aos ensinamentos do Cristo.

Muitos zombarão e tratarão de covarde. Muitos exclamarão que o Mundo clama por justiça e justiça feita pelas próprias mãos. E o Mestre nos mostrará que o caminho é o da busca interior, da paz interior, da pacividade interior. Para que exaltemos o culto do amor e da vivência fraterna entre nós. Forte não é quem luta é quem persevera até o fim, fiel aos preceitos da verdade e do amor.

Jornal O Clarim julho 2019

[1] JESUS (MATEUS, cap. V, v. 9.)

[2] Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo VIII, item 7

[3] Livro Nosso Lar

[4] Livro: Libertação do Sofrimento, psicografia de Divaldo Franco, autoria espiritual de Joanna de Ângelis

[5] Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XIV, item 9

Anúncios