Os vários espiritismos

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Octávio Caumo Serrano    caumo@caumo.com

Não falamos de umbanda, quimbanda ou candomblé. Nem poderíamos porque são doutrinas espiritualistas, não Espiritismo. Como todas as demais que acreditam em algo depois da morte, o que é próprio de todas as religiões porque todas agrupam pessoas que não são materialistas. São espiritualistas, sem ser espíritas.

Se o Espiritismo é a doutrina que nasceu em 18 de abril de 1857, com o lançamento de O Livro dos Espíritos, quando foram criadas as palavras espírita e espiritismo, neologismos que identificariam a nova doutrina e seus seguidores, só os que a praticam são espíritas. Por que perguntamos, então, quantos espiritismos existem? Porque cada um o entende de um jeito. Existe o espiritismo das federativas, o espiritismo dos dirigentes de centro, o espiritismo dos palestradores e passistas, o espiritismo do público desinformado que acredita que todos os que praticam a mediunidade ou apenas vão ao Centro uma vez por semana, são espíritas e, além de outros mais, o espiritismo de Allan Kardec. Até o dicionário do Sr. Aurélio Buarque de Holanda é falho em sua definição quando diz que Espiritismo é a “Doutrina baseada na crença da sobrevivência da alma e da existência de comunicação, por meio da mediunidade, entre vivos e mortos, entre os espíritos encarnados e os desencarnados”. Isso muitas outras também afirmam, inclusive as doutrinas afro-brasileiras. Nessa definição enquadram-se os fenômenos espirituais, apenas, porque a essência do Espiritismo, seu principal objetivo, é auxiliar o homem na sua transformação moral, estimulando-o a esforçar-se na luta contra as suas más tendências; atue ou não como médium.

Qual a razão de tantas variantes? Certamente o desconhecimento pela falta de estudo para saber o que o Espiritismo pode oferecer às pessoas. Ou seja, umas por ignorância, outras por interesse em tirar dele alguma vantagem. Dão com a direita, mas a esquerda assiste a tudo o que ela faz. Desejam usar o Espiritismo para curar-se ou livrar-se de problemas cuja solução é da alçada de cada um. Como o Espiritismo é a própria doutrina de Jesus, observemos que Ele ensinou muito mais do que curou. Não como certas religiões cristãs que ora seguem o Novo Testamento, ora o Velho, segundo capítulo e versículo que mais atenda aos seus interesses.

O verdadeiro espírita, portanto, é o que pratica a caridade em favor do próximo e, também, em seu favor, como gratidão a Deus pelo dom da vida. Não se suicida pouco a pouco com preocupações e revoltas que não lhe dizem respeito, amam e descartam o ódio. Enfim, procura ser hoje melhor do que ontem e amanhã melhor do que hoje. Crê que estamos no mundo material para solucionar problemas do passado visando o seu próprio progresso.

Fica claro que se alguém lhe disser que você está perturbado, com obsessão e precisa ir a um centro para tomar “uns passes”, não acredite. Você precisa ir a um Centro sério não apenas pelos passes, mas para esclarecer-se quanto ao que você mesmo pode fazer pela sua cura. Viva segundo os conselhos do Espiritismo, que é o próprio Cristo falando em linguagem mais atual, sem parábolas ou fantasias. “Faz que o Céu te ajuda.”

Jornal O Clarim – setembro 2019

 

 

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Há muito que nos enganam

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caumo@caumo.com   Octávio Caúmo Serrano

Os cristãos são seguidores do Evangelho de Jesus, a Boa Nova, que está entre nós há cerca de vinte séculos, e devem vivenciá-lo em todos os atos do cotidiano.

No Brasil, católicos, protestantes e espíritas são os componentes dessa facção religiosa. Mas percebe-se claramente que os espíritas são os que absorveram melhor os mecanismos dessa revelação, graças à lucidez do Codificador Allan Kardec que desvinculou a salvação dos homens dos templos e das práticas fantasiosas, afirmando apenas que “fora da caridade não há salvação”. Mas que ninguém descarte, também, a prática da caridade consigo mesmo. Afirma que a fé espírita é raciocinada, não dogmática, e por isso não aceita o que, apesar de saber, não pode compreender, porque é isto o mais importante.

Deixa claro que um ateu pode adiantar-se espiritualmente até mais que um religioso se amar o próximo com a si mesmo, sendo fraterno, solidário e indulgente com o semelhante. Disse Jesus aos seus discípulos certa vez que “em verdade publicanos e meretrizes os precedem no reino de Deus” (Mateus 21:31). Ao praticar a auto caridade, o homem aprende a desvincular-se de atitudes que lhe causam mal, como a revolta contra situações políticas, sociais  ou econômicas que o levem a odiar o semelhante e ter desejos de vingança, maculando sua pureza espiritual. Se puder corrigi-las por lutar contra elas ainda faz sentido; mas aborrecer-se sem ter condições para mudar o estado das coisas é causar a si mesmo um sofrimento desnecessário. O caminho é o perdão, a oração pelo faltoso, sem jamais ser conivente com os erros alheios.

O Evangelho Segundo o Espiritismo foi escrito para registrar, analisar e comentar a parte moral da vida do Cristo, sem ater-se às práticas exteriores ou rituais de qualquer tipo. Por isso é mencionado o texto sagrado básico, extraídos noventa por cento do Novo Testamento, seguido do comentário de Kardec e, finalmente, a opinião dos Espíritos que complementam as lições ou dão testemunhos de vida, sucessos e fracassos, para nos servir de orientações.

Jesus jamais fez promessas de salvação fácil ou com base em privilégios. Nunca disse que Ele ou Deus nos carregariam no colo. Enfatizou que seria como “O Caminho, a Verdade e a Vida” para nossa aproximação com o Criador. Aceitou que se fizessem as oferendas para não criar maiores conflitos com os homens da sua época, mas recomendou que antes nos reconciliássemos com os adversários. Sintetizou os mandamentos de Moisés recomendando que deveríamos “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo com a nós mesmos”. E disse, também, que todos seremos medidos com a mesma vara. Sempre censurou os que sabiam mais, como fez com os fariseus aos quais chamou túmulos caiados. Brancos por fora e podres por dentro. “Não são os que dizem Senhor, Senhor que entrarão no reino dos Céus, mas os que fazem a vontade do Pai que está nos Céus.”

No entanto, o que nos ensinaram nossos templos? Que devemos orar, acender velas, oferecer flores, fazer novenas, cantar hinos, sacrifícios físicos com caminhadas de joelhos ou longos percursos, que só servem para agredir nossa saúde, ou promessas que serão trocadas por favorecimentos imerecidos. E quanto mais ofertas e maiores os valores que doarmos aos templos, mais benefícios receberemos. Muitas delas encheram seus divulgadores de roupas exóticas, coloridas e enfeitadas, esquecendo que Jesus pregava no Templo, nas Sinagogas ou nas ruas sempre vestido com a mesma roupa simples. No entanto, ao mostrar o exemplo da viúva que deu seu óbolo, Jesus disse que ela foi quem mais deu porque deu do necessário para a sua sobrevivência.

Graças ao Espiritismo podemos compreender que devemos empregar o valor a ser gasto com uma vela, que não ilumina alma, porque o que a ilumina é o amor, na compra de um pão ou de um prato de comida para aliviar a fome de um irmão. Se não tem bens para oferecer, estenda sua mão para erguer um caído, dê um dia de trabalho num lugar de dor e miséria (asilo, orfanato, hospital) ou uma palavra de alento que pode levar alguém a modificar suas ideias ajudando-o, muitas vezes, até a desistir do suicídio. Mas temos de ter em mente que nada colheremos de bom de atitudes que a ninguém beneficie. Quando nada pudermos oferecer ao outro, vamos endereçar-lhe boas vibrações com desejos de que possa superar suas fraquezas. Foi o que disse Jesus quando lhe perguntaram quando O haviam visitado, curado, alimentado, que ao fazer isso a um de seus irmãos menores era a Ele que o faziam. Somos auxiliares de Deus e de Jesus na reforma e melhoria do mundo. Não desperdicemos esta honrosa tarefa.

Nosso comportamento é sempre o inverso. Em vez de sermos auxiliares de Jesus na melhoria do mundo, nós O transformamos em nosso empregado incumbindo-O de arranjar emprego para nossos filhos, marido para nossas filhas, recursos para quitarmos dívidas e médico gratuito para livrar-nos de enfermidade que vivemos produzindo pela nossa invigilância.

É hora de repensar nosso entendimento sobre o Evangelho e baseá-lo na Lei de Ação e Reação. Esperar receber só aquilo que por méritos construímos. “Faz que o Céu te ajuda”. A mil por um ou como na multiplicação dos pães e peixes que oferecermos. Zero vezes zero sempre será zero. Nunca tenhamos falsas ilusões. Boa sorte!

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – setembro de 2019