Walkiria Lucia Araujo Cavalcante

“Toda vez que o indivíduo, descredenciado legalmente, procede a um julgamento caracterizado pela impiedade e pela precipitação, realiza de forma inconsciente a projeção da sombra que nele jaz, desforçando-se do conflito e da imperfeição que lhe são inerentes, submetido como se encontra à sua crueza escravizadora em tentativa de libertar-se. … Hábeis na arte de dissimular as desditas interiores, especializavam-se em desvelar nos outros as torpezas morais que os infelicitavam e não tinham coragem de enfrentar. É sempre esse o mecanismo oculto que tipifica o acusador contumaz, o justiçador dos outros, o vigia dos deslizes das demais pessoas.”[1]

Aprendemos na oração dominical que o Mestre Jesus nos ensinou que a medida/proporção/capacidade que perdoarmos os erros cometidos pelo nosso próximo para conosco, também desejamos que a Lei seja condescendente na mesma proporção em relação a nós. Mas normalmente, desejamos a misericórdia em nosso benefício, esquecendo-nos que o outro é tão filho de Deus quanto nós.

Esquecemo-nos também do contido em O Livro dos Espíritos, parte 3ª, capítulo 11, que nos instrui a cerca da Lei de Justiça, Amor e Caridade. Nós, de forma imatura, a interpretamos separadamente, mas a Divindade a traduz de forma igualitária, solidária e equitativa. A Lei se cumpre para todos, no momento certo de absorção do aprendizado; o Amor, representando a misericórdia Divina, encaminha-nos para a luz do entendimento e aproveitamento exato; e a Caridade são as mãos amigas que nos amparam os passos e nos conduzem a caminhada para que possamos realizar o devido reajustamento com a Lei.

Antigamente a figura do perdão era representada como uma barganha realizada entre a criatura e a Divindade. Eram oferecidos sacrifícios, hoje, sacrificamos o orgulho e a vaidade colocando-nos de um ponto mais afastado da situação. Daqueles que enxergam com os olhos do espírito a situação. Então, as passagens evangélicas começam a ter outro sentido. Quando lemos o contido em Mateus[2] Então, aproximando-se dele, disse-lhe Pedro: “Senhor, quantas vezes perdoarei a meu irmão, quando houver pecado contra mim? Até sete vezes?” – Respondeu-lhe Jesus: “Não vos digo que perdoeis até sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes.”

O Mestre Rabi nos incute a ideia da tolerância e da paciência. Ele poderia ter usar qualquer número como variante para o cálculo. O que ele nos apresenta é uma propositura de dar tempo de conhecer o outro. De conhecer o outro lado da criatura e que também deixemos o outro, ao conviver conosco, conhecer-nos melhor, tendo a chance de modificar suas atitudes. Ninguém reencarna num agrupamento por engano. Não existem enganos na Lei de Divina, verdade seja dita que não possuímos vinculação com todos, mas estamos vinculados às situações e a muitos que nos circundam intimamente.

Pois bem, utilizando-se dessa figura de linguagem, Jesus nos conviva há tolerarmos um pouco mais, uma convivência que a princípio poderia ser cerceada se fatores maiores e superiores não nos obrigassem a permanecermos nela. A sabedoria nos mostra então, que poderemos administrar a situação e tirarmos algum ensinamento, promovendo o devido reajustamento com a Lei, tendo a possibilidade ambos de evoluir rumo à perfeição relativo que o próprio Jesus nos ensinou.

Assim, entendemos com mais facilidade afirmativas como esta: “À luz da Psicologia Profunda, o perdão é superação do sentimento perturbador do desforço, das figuras de vingança e de ódio através da perfeita integração do ser em si mesmo, sem deixar-se ferir pelas ocorrências afugentes dos relacionamentos interpessoais.”[3] O desejar fazer justiça com as próprias mãos. Ou como muitos dizem: Entregar nas mãos de Deus. Quando fazemos o mal aos outros, fazemos em primeiro lugar a nós mesmos.

Perdoar é bom para quem perdoa. Afirmativa que fere os nossos ouvidos e cala-nos fundo a alma, principalmente, quando estamos vivenciando experiências dolorosas neste momento. Mas a sistemática torna-se simples. Ao perdoarmos o outro deixamos de carregar conosco aquele sentimento de ódio, rancor, raiva e vingança que estamos/estávamos sentindo. Permitindo-nos sentir outros sentimentos pelas mesmas ou se não conseguirmos (algo compreensível, a princípio) por outras pessoas.

Mas como conseguir modificar a conduta em meio à turbulência? Evangelho no Lar, a boa prática de leitura de obras doutrinárias e a prece. Criamos um arcabouço mental de bons pensamentos que nos sustentam nestes momentos de queda. E coisa singular, parecem fios tênues que nos vinculam a outros tantos que vibram no mesmo pensamento de amor e edificação.

Que possamos praticar o perdão ao semelhante, mas que possamos exercer o autoperdão. Que deixemos que a Lei se faça em nós. Somos criaturas imperfeitas em processo de evolução constante, senão, não estaríamos encarnados neste Planeta. Nosso compromisso é com a execução. “Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más.”[4] Que vislumbremos o porvir e não carreguemos pesos desnecessários na construção da criatura nova que somos.

[1] Livro Jesus e o Evangelho a Luz da Psicologia Profunda, capítulo julgamentos, psicografado por Divaldo Franco, autora espiritual Joanna de Ângelis.

[2] Mateus, capítulo 12, versículos 21 e 22

[3] Livro Jesus e o Evangelho a Luz da Psicologia Profunda, capítulo Reconciliação, psicografado por Divaldo Franco, autora espiritual Joanna de Ângelis.

[4] Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XVII, item 4

Tribuna Espírita – julho/agosto 19

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