Octávio Caumo Serrano

Logo que tomamos contato com o Espiritismo, aprendemos que Deus nos criou, todos, simples e ignorantes para fazer o caminho de volta no rumo da evolução. Inclusive Jesus.

Assim dito, dá a impressão que Deus estava diante de um recipiente com sementes de vida e com uma pinça ia dele tirando cada um de nós, individualmente, mandando-nos para os mundos primitivos onde faríamos nossas primeiras experiências. Seria como imaginar que as imensas turbinas da Usina de Itaipu girassem para produzir infinidades de 110 e 220 volts para enviá-las às nossas casas a fim de que as luzes se acendessem e as tomadas gerassem corrente para os eletrodomésticos. Sabemos que não é assim. Ela produz em alta voltagem que vai pelas linhas de transmissão até as usinas e depois pelos transformadores dos postes em cada setor urbano, onde se reduzem. Parte vai para as indústrias que tem cabine primária, para criar os trifásicos, mas a maioria se destina às residências onde chegam em 110 ou 220 volts, conforme a região.

Dá-se o mesmo com a criação. Deus, pelo poder da Sua vontade cria a mônada celeste (um conjunto de princípios espirituais) que num movimento de involução desce do Céu para Terra para iniciar o caminho de retorno ao Pai, por meio de constante aprimoramento. Essa mônada seria como uma colmeia e suas abelhas ou uma pinha com múltiplos frutos, todos com as características do envoltório mãe, mas que têm sua individualidade. “Sob a orientação das Inteligências Superiores, congregam-se os átomos em colmeias imensas e, sob a pressão, espiritualmente dirigida, de ondas eletromagnéticas, são controladamente reduzidas as áreas espaciais intra-atômicas, sem perda de movimento, para que se transformem na massa nuclear adensada, de que se esculpem os planetas, em cujo seio as mônadas celestes encontrarão adequado berço ao desenvolvimento. (Evolução em Dois Mundos – Primeira Parte: cap. 1 – Fluido Cósmico.)”

“Faixas inaugurais da razão – Estagiando nos marsupiais e cretáceos do eoceno médio, nos rinocerotídeos, cervídeos, antilopídeos, equídeos, canídeos, proboscídeos e antropoides inferiores do mioceno e exteriorizando-se nos mamíferos mais nobres do plioceno, incorpora aquisições de importância entre os megatérios e mamutes, precursores da fauna atual da Terra, e, alcançando os pitecantropoides da era quaternária, que antecederam as embrionárias civilizações paleolíticas, a mônada vertida do Plano Espiritual sobre o Plano Físico atravessou os mais rudes crivos da adaptação e seleção, assimilando os valores múltiplos da organização, da reprodução, da memória, do instinto, da sensibilidade, da percepção e da preservação própria, penetrando, assim, pelas vias da inteligência mais completa e laboriosamente adquirida, nas faixas inaugurais da razão.” (Obra citada – Primeira Parte: cap. 3 – Evolução e corpo espiritual.)

Inicialmente fazem suas experiências sem modificar seu coletivo, aprendendo com o reino mineral (contração, dilatação, etc.), com o vegetal (fotossíntese, acasalamento, etc.) com os insetos (defesa da vida, alimentação para sobrevivência, etc.), como uma turma de turistas orientados por um guia ou alunos levados por um professor para realizar pesquisas numa escola, museu, igreja ou parque. Tão logo termine essa fase, cada princípio espiritual individual liberta-se para continuar suas experiências e dar vida a um animal maior: cachorro, gato, leão… É o mesmo princípio espiritual que um dia será a alma humana.

Nessa fase, sofre influência da lei do determinismo que o impulsiona ao progresso, mesmo que não se dê conta, ao mesmo tempo que passa a ter livre-arbítrio, pelo uso da razão além do instinto, que vai aumentando à medida que o determinismo diminui com o seu conhecimento e evolução. O objetivo é dotar-se, muito tempo depois, da intuição e da super intuição que é o conhecimento próprio de tudo. A sabedoria, como Jesus.

Percebe-se por esta rápida análise que ser um espírito superior demanda longa caminhada e muito esforço. Daí termos de viver inumeráveis vezes em mundos materiais, iniciando nos inferiores antes de capacitar-nos a viver nos mais elevados.

Tão logo diminui o determinismo passamos a ser donos da nossa vontade e a responder por tudo o que fizermos. É uma fase difícil, pois ao descobrir o mundo material encantamo-nos com suas atrações e esquecemos do progresso espiritual que é consequência do comportamento moral, mantendo-nos por longos períodos nas esferas inferiores o que sempre nos causa sofrimentos porque traz consigo o orgulho e o egoísmo, fase em que o homem está preocupado em ostentar e investe sua inteligência e capacidade na conquista do que lhe traz projeção social. Passa a valer pelo que tem, não  pelo que é. E como ninguém pode amar dois senhores, como ensinou Jesus, afasta-se  do principal objetivo, que é crescer como espírito eterno, para apegar-se às posses do mundo. Daí o grande sofrimento da humanidade neste planeta de provas e expiações. Todos já passamos por essas fases primárias e hoje ao reencarnar já trazemos muito conhecimento que apenas demanda aprimoramento. E a ignorância ou descrença sobre a reencarnação é mais um fator que retarda nosso progresso.

Devido à dificuldade para evoluir, podemos imaginar quanto tempo vivemos como mônada, depois espíritos sub-humanos (elementais) e, finalmente, espíritos que precisam reencarnar. E se olharmos para alguns iniciados do nosso mundo (Chico, Gandhi, Teresa de Calcutá, e outros) que estão ainda nos primeiros degraus do crescimento, podemos imaginar quantas vidas ainda nos serão necessárias só em planetas atrasados como a Terra. Mas como temos a eternidade e nenhuma ovelha se perderá, vamos em frente sem desistir e sem olhar para trás, como a mulher de Ló, para não virarmos estátua também e pararmos no tempo.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – outubro 2019