Walkiria Lucia Araujo Cavalcante

“A felicidade é constituída de pequenas ocorrências, delicadas emoções, sutis aspirações que se convertem em realidade, construções internas que facultam a paz interior. Indague-se aos gozadores se eles estão felizes, satisfeitos com a vida, e com certeza responderão que se encontram saturados, cansados, desinteressados praticamente de tudo. Desse modo, consciente das muitas bênçãos que tens recebido da vida, especialmente se dispões de um corpo harmônico e saudável para aplicar-lhe as forças em favor do desenvolvimento intelecto-moral, amando e servindo sem cessar. No entanto, se te encontras com algum limite orgânico, sob a ação das tenazes do sofrimento de qualquer natureza, agrade a Deus a honra de resgatar os erros e adquirir o necessário para a felicidade que logo chegará.. [1]

 

Mas o que é a felicidade? Muitos acreditam ao adentrar no movimento espírita que os beneméritos da humanidade irão retirar de nós as dores que possuímos ou irão nos apartar a partir daquele momento e não mais sofreremos os labores das dores humanas e só seremos abençoados pelas hosanas nas alturas.

Desde o princípio, pelo contrário, somos apresentados à justiça das aflições e todas as suas consequências. Entendemos, mesmo que não consigamos aplicar em toda sua integralidade, que somos responsáveis pelos nossos atos e que semelhante a uma bola arremessada numa parede, a mesma força que empregarmos nela, voltará para nós. Da mesma maneira, os sentimos de ódio, raiva, amor e misericórdia que empregarmos com relação ao nosso próximo também retornará para nós. Mais ainda, nos envolvemos nele, nos impregnamos neles antes de os emitir.

No terreno do plantio livre, mas de colheita obrigatória, começamos a compreender que viver não se constitui num ato somente orgânico. É um processo espiritual e psicológico que comanda uma máquina orgânica. Rememorando o Evangelho Segundo o Espiritismo e corroborando a fala de D. Joanna como sendo a felicidade um estado interior da criatura e sendo um processo gerado em virtude do nosso comportamento, independente de fatores externos e sendo nós que influenciamos os fatores externos, verificamos que “O corpo não dá cólera àquele que não na tem, do mesmo modo que não dá os outros vícios. Todas as virtudes e todos os vícios são inerentes ao Espírito. A não ser assim, onde estariam o mérito e a responsabilidade?”[2]

Não poderemos colocar a culpa na constituição orgânica por sermos ou não felizes. Afastamos assim, um fator como sendo responsável pela felicidade. Outros alegam que só conseguirão ser felizes se conseguirem um determinado emprego, ou casamento ou filhos, enfim, colocam a felicidade em situações que dependem de acontecimentos exteriores, de vontades de outras criaturas para acontecer.

Primeiro, que mesmo que tenhamos, por imposição, o controle da vontade do outro, a felicidade não trará a alegria proporcionada igual aquela conquistada espontaneamente em virtude da consequência dos fatos e da livre escolha dos outros. Segundo, aprendi com um amigo, que não seguramos o vento em nossas mãos. Mesmo que por nossa imposição, que já é algo gravíssimo, o outro, se submeta a nossa vontade, ele estará cumprindo o nosso desejo enquanto houver uma permissão da Lei.

Então, se não controlamos a veste material, os fatos e as pessoas, como obter a felicidade sem mescla? Porque existem pessoas, que mesmo diante da adversidade, do sofrimento conseguem ter bom ânimo e leveza? Em síntese, como a Doutrina Espírita pode nos ajudar?

Não somos dados jogados ao acaso, estamos vinculados a um passado espiritual do qual demos causa e que hoje estamos colhendo as consequências e que o futuro de nossa colheita depende do que nós estamos plantando hoje. Que as criaturas que se vinculam a nós, mas principalmente as situações estão implicitamente ligadas a este passado espiritual construído por nós. Este é o ponto de partida que toda criatura madura parte para o entendimento da felicidade em bases sólidas.

Entendido isto, começamos a trabalhar e nos educarmos a sermos felizes. Pois a felicidade constitui-se em educação também. Lembremo-nos da história utilizada em grupos de autoajuda e que serve muito bem para ilustrar neste momento: enxergarmos o copo meio cheio. Isto não é técnica moderna. Jesus fez isso. Conta-se que Jesus e alguns discípulos andavam pela Galileia quando um cheiro horrível impregnou o ambiente.

Como sempre, o Mestre não se deixou abalar. E foi ao encontro de onde provinha o cheiro. Tentaram o impedir sem êxito. Seguiu juntamente com os discípulos e ao chegar ao local viu que era um cachorro em estado avançado de decomposição. Enquanto os outros ficavam horrorizados pela decomposição, o Mestre destacava o que de bom ainda era visível: o pelo e os belos dentes “brancos e fortes”.

Então, além de termos consciência de que estamos encarnados num processo evolutivo ascensional, modifiquemos o nosso olhar diante das mazelas da vida, porque mesmo no charco do sofrimento uma linda flor pode e brota para nós. Por fim, não estamos desamparados pelo Pai Amantíssimo. Somos todos seus filhos. Ele vela por nós, confiemos Nele, acreditando que tudo tem o seu momento e que as alegrias constituiem-se nas pequenas honrarias de sermos a mensagem rediviva quando seguimos o exemplo do Mestre.

Jornal O Clarim – outubro 2019

[1] Livro Libertação do Sofrimento, psicografado por Divaldo Franco, pelo espírito Joanna de Ângelis, Capítulo 22, A felicidade possível

[2] Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XIX, item 10

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