Walkiria Lucia Araujo Cavalcante

“Também os fariseus vieram ter com ele para o tentarem e lhe disseram: Será permitido a um homem despedir sua mulher, por qualquer motivo? Ele respondeu: Não lestes que aquele que criou o homem desde o princípio os criou macho e fêmea e disse: – Por esta razão, o homem deixará seu pai e sua mãe e se ligará à sua mulher e não farão os dois senão uma só carne? – Assim, já não serão duas, mas uma só carne. Não separe, pois, o homem o que Deus juntou.

Mas, por que então, retrucaram eles, ordenava Moisés que o marido desse à sua mulher um escrito de separação e a despedisse? – Jesus respondeu: Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés permitiu despedísseis vossas mulheres; mas, no começo, não foi assim. – Por isso eu vos declaro que aquele que despede sua mulher, a não ser em caso de adultério, e desposa outra, comete adultério; e que aquele que desposa a mulher que outro despediu também comete adultério.. (MATEUS, cap. XIX, vv. 3 a 9.)

A primeira leitura, o texto pode parecer machista, pois fala-nos da dispensa do homem com relação à mulher. Mas o entendimento deverá ser diverso. Provindo de uma sociedade patriarcal, o poder de desfazimento do laço conjugal estava detido no homem, cabendo a ele o rompimento. Unindo-nos numa só carne, somamos os ideias evolutivos e transmutamos em educação ao fruto da união o somatório de quem somos.

Quando o respeito não faz mais moradia na convivência doméstica e a união não foi baseada no desejo mútuo de progresso, é lícito o desfazimento dos laços não construídos pela Divindade. Emmanuel (espírito), através da psicografia de Chico Xavier, no livro Vida e Sexo, capítulos 6 a 9, traz-nos luz ao entendimento das uniões e serve como balizador do desenvolvimento do nosso pensamento a partir deste momento.

Quando duas criaturas se unem em comunhão sexual, em primeiro lugar, deve-se estabelecer um vínculo de afinidade e confiança, pois além da parte material, existe o que Emmanuel denomina de “circuito de forças” que se estabelece entre as criaturas, no qual ambas de alimentam e retroalimentam psiquicamente destas energias espirituais. Quando há a fuga conjulgal, passa-se a estabelecer um desequilíbrio de forças, engana-se quem acredita que quem fica é que é somente o desequilibrado.

Em toda relação, em especial a conjugal, as bases deverão ser a do respeito e da responsabilidade para com o outro. Respeito para sempre analisarmos e não fazermos aquilo que não desejaríamos que fizessem para conosco e responsabilidade, pois ao vincularmo-nos emocionalmente a outra criatura, estabelecemos um compromisso, que ultrapassa qualquer documento assinado. É antes, um compromisso moral que nos disciplina espiritualmente, mostrando-nos neste pequeno mundo de relação a dois, como deveremos proceder na sociedade.

Fugindo das nossas obrigações conjugais, estamos desconsiderando o outro, mas estamos num processo de desconsideração de nós mesmos. De descompasso com o que assumimos outrora com o parceiro de jornada. Por isso, que adulterar vai mais além de trair. Adulterar é modificar o princípio, o acordo assumido entre as partes. Existem as regras civis, as regras sociais e as regras estabelecidas entre os casais. Quando se adultera, fala-se principalmente destas últimas.

Alegam que as relações profissionais e as redes sociais propiciam a traição. Entendemos que estamos falando do veículo. Seria como culpar a faça por ter cortado a mão. Quem corta a mão é quem empunha a faca. O mesmo equivale para as redes sociais e as relações profissionais. Utilizamo-nos e nos expressamos através deles, mas eles não nos possuem.

A indissolubilidade absoluta do casamento é uma lei humana[1], “O amor, sem dúvida, é lei da vida, mas não será lícito esquecer os suicídios e homicídios, os abortos e crimes na sombra, as retaliações e as injúrias que dilapidam ou arrasam a existência das vítimas, espoliados do afeto que lhes nutria as forças, cujas lágrimas e aflições clamam, perante A divina Justiça, porque ninguém no mundo pode medir a resistência de um coração quando abandonado por outro e nem sabe a qualidade das reações que virão daqueles que enlouquecem, na dor da afeição incompreendida, quando isso acontece por nossa causa.”[2]

Não podemos exigir do outro o que ele é incapaz de nos oferecer. Mas deveremos ter a decência de entender que o outro é um ser humano que merece o nosso respeito e que um dia nos enamoramos dele. O elegemos como parceiro de jornada, mesmo que não seja por toda a encarnação. Que tenhamos a decência de terminarmos da mesma maneira que começamos: com respeito. Respeito ao outro, respeito a nós mesmos. Para que não sejamos cúmplices “…suicídios e homicídios, os abortos e crimes na sombra..”.

A Doutrina “bentida” Espírita nos mostra as consequências dos nossos atos, fala-nos do livre arbítrio e da certeza evolutiva da criatura humana. Que as relações estabelecidas hoje não são fruto do acaso, mas que dependem de nós a forma como as iremos direcioná-las: sendo um calvário de dores ou palmas de flores a nos conduzir rumo à perfeição.

Temos como exemplo a mãe de André Luiz[3]. O Pai dele estava para reencarnar, após período em zona umbralina. A mãe que possuía arcabouço moral e estava em zonas superiores a Nosso Lar, visita-o e informa que irá reencarnar. Diz mais, que ambos quando atingirem a idade adulta irão se reencontrar, consorciar-se e receberem as jovens que foram desencaminhadas pelo pai de André Luiz. As relações conjugais fogem do determinismo que muitos acreditam existir. Somente a necessidade evolutiva nos condiciona os passos e as relações afetivas.

 

RIE – Revista Interacional de Espirtismo – novembro 2019

[1] Questão 697 de O Livro dos Espíritos

[2] Livro Momentos de Ouro – Chico Xavier, mensagem de Emmanuel, Lesões Afetivas

[3] Livro Nosso Lar, capítulo 46, psicografia de Chico Xavier, autor espiritual André Luiz