Waçkiria Lucia Araujo Cavalcante

“Medita estas coisas, ocupa-te nelas para que o teu aproveitamento seja manifesto a todos”. – Paulo. (I Timóteo, 4:15.).

Os princípios evangélicos são as normas que conduzem e orientam os seguidores de qualquer religião. Mas o entendimento dogmático da mensagem nada tem a ver com a mensagem de transformação moral que o Cristo nos trouxe. Associando-se o capítulo XV – Fora da Caridade Não Há Salvação, do Evangelho Segundo o Espiritismo com o capítulo159 – Aprendamos, no entanto… do livro Palavras de Vida Eterna de autoria espiritual de Emmanuel e psicografia de Chico Xavier trazer a ideia que mais importante que as práticas ritualísticas é a transformação que a criatura promove em si e acaba por influenciar ao semelhante em contato com a mensagem trazida por Jesus.

Jesus não veio implantar uma religião, mas traz aos corações humanos o sentido de religiosidade. Pregava àqueles que ninguém queria pregar, estava com quem ninguém queria estar, falava do que ninguém gostava de falar. Esta polidez evangélica, que até os dias atuais prevalece, que prefere mascarar a dor humana para não ter que trata-la, Ele trazia à tona, para poder trata-la. Conhecia o não dito pelo ser humano e ia ao encontro das mazelas humanas. Era desta religiosidade, deste religare que Ele veio nos falar.

Por isso, a passagem do Samaritano está bem acertada quando vem nos ilustra a questão da caridade. Não importa o título que possuímos, mas o que produzimos em proveito do nosso próximo. Pode parecer simples, mas nos dias atuais, em que muitas campanhas de caridade se vinculam ao movimento espírita, perguntamo-nos, quais delas estamos vinculados verdadeiramente? Ou quantas criaturas, utilizam-se de tais situações como meio de promoção pessoal ou para curar o vazio existencial mascarando suas dores internas?

Entendemos que fazer algo é melhor que não fazer nada. Mas estamos dando um passo a mais no entendimento do que está sendo realizado. Não podemos condicionar a nossa ajuda com um correspondente do outro ao nosso ato. Para que ele seja fiel a nós ou ao nosso credo. Ou tão pouco que a Divindade obrigatoriamente tenha que nos corresponder pelo nosso ato de caridade.

“Um homem, que descia de Jerusalém para Jericó, caiu em poder de ladrões, que o despojaram, cobriram de ferimentos e se foram, deixando-o semimorto. – Aconteceu em seguida que um sacerdote, descendo pelo mesmo caminho, o viu e passou adiante. – Um levita, que também veio àquele lugar, tendo-o observado, passou igualmente adiante. – Mas, um samaritano que viajava, chegando ao lugar onde jazia aquele homem e tendo-o visto, foi tocado de compaixão. – Aproximou-se dele, deitou-lhe óleo e vinho nas feridas e as pensou; depois, pondo-o no seu cavalo, levou-o a uma hospedaria e cuidou dele. – No dia seguinte tirou dois denários e os deu ao hospedeiro, dizendo: Trata muito bem deste homem e tudo o que despenderes a mais, eu te pagarei quando regressar. Qual desses três te parece ter sido o próximo daquele que caíra em poder dos ladrões? – O doutor respondeu: Aquele que usou de misericórdia para com ele. – Então, vai, diz Jesus, e faze o mesmo.”[1]

Muitas vezes estamos mortos segundo a carne. Vivendo “só por viver” como muitos afirmam. Acreditando que a esperança é um termo vão e que não vale mais a pena a encarnação. Defrontamo-nos com os mais variados tipos de pessoas: as religiosas, que pregam de lábios, mas que são frágeis em atitudes; os cultos, que entendem da ciência e da própria religião, mas que não corroboram em atos aquilo que falam. Mas de repente, aparece em nossa jornada, criatura singular, detentora de suavidade nos passos e firmeza no olhar, que nos transmite paz e nos acolhe sem nos perguntar o que desejamos.

Traz-nos o evangelho sem falar do evangelho. É o próprio evangelho em nossas vidas. Vive a singularidade de ser um Cristão mesmo sem ter talvez convivido com o próprio Cristo. Apensa as nossas chagas com o unguento do amor, e nos leva por caminho seguro até a hospedaria do templo onde Deus habita. Faz-nos ver o futuro e a esperança volta a brotar em nós. Não nos pergunta qual a nossa religião, mas demonstra que a dele é a do Cristo.

Para depois, firmes em nossas próprias pernas, possamos caminhar sozinhos. Entendendo que o apoio do outro é substancial em nossa caminhada para prosseguirmos, mas que os passos principais serão dados por nós mesmos. Os princípios evangélicos servem de norteadores neste momento para conduzirmo-nos rumo ao caminho do bem. Entendendo que o Mestre Jesus deu-nos o exemplo e deixou-nos emissários, mas que nunca a forma deverá superar o conteúdo.

Quando se afirma que Fora da Caridade Não Há Salvação, a Doutrina ilumina-nos o horizonte, mostrando-nos acima de tudo o princípio de irmandade que deverá conduzir-nos os passos. Ao ajudar o irmão, estou diminuindo em mim, o orgulho, a soberba e aumentando a empatia, o amor e a bondade. Saio de mim ao encontro do meu próximo e volto a mim, enriquecida do bem que fiz. Por isso, que nossas ações não devem estar pautadas a religião que abraçamos, mas ao sentido de religiosidade que faz a mudança em nós. O outro, não importando a que religião pertença é nosso irmão como também somos irmãos dele. Foi isto que o Mestre nos ensinou, foi isto que o Mestre vivenciou.

Jornal O Clarm – novembro 2019

[1] Evangelho de Lucas, capítulo cap. X, vv. 30 a 37.