Octávio Caumo Serrano

Baseado num fato real.

Final da década de 1950. Não me recordo a data exata.

Parente da minha esposa havia sigo convidado a ocupar importante cargo na República do Brasil pelo então presidente Jânio da Silva Quadros. Consultando o pai sobre a aceitação do convite, disse-lhe o experiente genitor. “Meu filho. O momento é importante para o país e todos devem dar sua colaboração.” Mas o convidado alegou que isso iria absorvê-lo por muito tempo o que o atrapalharia nos negócios. Mas o pai insistiu: – Dê sua contribuição. Se ele o convidou é porque vê em você qualidades.

Este importante empresário tinha um sobrinho de aproximadamente vinte e dois anos, tido pela família como o mais competente para ser o seguidor do avô na condução dos negócios da família. Foi-lhe sugerido que ao aceitar o convite do Presidente deixasse nas mãos do jovem a gerência dos seus importantes negócios, de naturezas diversas.

Assim foi feito.

Numa certa segunda-feira ele, o jovem, havia ganho um automóvel como presente de aniversário. Seu pai, que ia para o Rio de Janeiro, decidiu deslocar-se dirigindo o veículo e convidou o rapaz para irem juntos. Mas ele recusou sob a alegação que deveria estar na Capital Federal por volta das 9 da manhã. Dirigiu-se, então, ao aeroporto de Congonhas, onde chegou atrasado. O avião já estava na cabeceira da pista, taxiando. Como passageiro conhecido e ilustre, foi pedido pelo rádio que o comandante aguardasse que um carro levaria o jovem até a aeronave.

Tudo certo, o avião levantou voo. Minutos depois a notícia triste e macabra. A aeronave acabava de espatifar-se contra uma montanha na Serra do Mar. Não deixou sobreviventes. Comoção em todos da família. Lembro-me do velório em que a urna nem foi aberta. Um enterro simbólico porque não havia o que sepultar.

– O que conduziu o episódio e por que ele acabou sendo privilegiado com o embarque para morrer tão tragicamente? Foi o destino para que se resgatasse algum carma? Foi o livre-arbítrio que o fez preferir o voo à viagem de carro com o pai? Nunca saberemos a resposta, mas foi um episódio que chocou a todos. Jovem charmoso, simples, apesar da posição social, amigo exemplar, filho extremado que enquanto as irmãs iam para as festas ela fazia companhia à mãe, fiscalizando o fechamento de portas e janelas antes de dormir!

Usamos uma experiência real que vivemos quando tínhamos mais ou menos a mesma idade que ele (éramos dois anos mais velho) e católicos de esporádicas visitas à igreja. Se ainda hoje, mais de sessenta anos depois, não conseguimos definir as razões do acontecimento, apesar do conhecimento sobre o Espiritismo, imaginem como me senti diante da tragédia e a minha ignorância.

Mas como o comando é de Deus, tudo o que aconteceu era necessário para aquela alma que já deve ter retornado aos mundos do progresso. O que não entendemos pela razão devemos aceitar pelo bom senso.

Feliz Natal e produtivo ano novo.

Jornal O Clarim – dez 2019