Octávio Caumo Serrano – caumo@caumo.com

Depois de conhecer rudimentos da nossa Doutrina, há os que se julgam pós-graduados em religião. Verdadeiros doutores da Lei. Fariseus da era moderna!

Quem nos fez importante alerta sobre o tema foi o lúcido Herculano Pires. Disse-nos esse mestre: “Estude o Espiritismo e não se deixe levar por tolices. Dedique-se ao estudo, mas não queira saltar de aprendiz a mestre, pois o mestrado em Espiritismo só se realiza no plano espiritual. Na Terra somos todos aprendizes.”

Chegando ao centro desequilibrados e percebendo alguma melhora, há os que se encantam com os conhecimentos e supõem-se em condições de ser colaboradores na Seara do Cristo. Como teóricos chegam a avançar bastante, mas nos fundamentos mais íntimos que identificam o verdadeiro cristão, progridem muito pouco. Continuam desprezando a assiduidade, prometem muito e cumprem pouco, e permanecem equivocados sobre si mesmos, camuflando defeitos que guardam embutidos na personalidade o que os impede até de ser orientados e corrigidos. Não estão preparados porque o orgulho ainda permanece aflorado. Ninguém se atreva a lhes dizer que está errado ou que fez um trabalho de maneira incorreta. Nesses casos, defendem-se magoados ou irados, porque o dirigente chamou à sua atenção. São os “perfeitos” que jamais admitem cometer um erro. Justificam-se, explicam, mas não admitem a falha. Os mais radicais chegam a se afastar do serviço e até mesmo abandonar a instituição.

Como se trata de um “trabalho voluntário”, creem que tudo dão de graça e a casa tem de tolerá-los como são. Esquecem-se que foi espontaneamente que se ofereceram ou aceitaram a tarefa e que devem enquadrar-se na disciplina exigida para todo colaborador da Doutrina dos Espíritos ou de qualquer outra associação beneficente sem interesses financeiros. É um trabalho de caridade e a disciplina é a grande caridade em favor dos outros e de nós mesmos.

O dirigente, que é o guardião da doutrina no cento, deve ter em mente que, antes de agradar o confrade ou a confreira, deve ser fiel ao Espiritismo. A causa vem antes da casa. Lembro-me da lúcida orientação de José Raul Teixeira: “Não temos de trazer os hábitos da rua para o centro, mas educar as pessoas no centro para que ajudem a transformar a sociedade.” Se esta não é a frase correta usada pelo ilustre conferencista, a ideia está claramente expressada.

Não defendemos a repreensão pública descaridosas, mas a orientação fraterna deve ser feita. Se for num grupo de estudo, até mesmo detalhes de problema podem ser expostos para servir de diretriz aos demais. Sempre com respeito, não fazendo aos outros o que não desejamos que nos façam. Regra simples, mas infalível.

Você, trabalhador da última hora, não perca a oportunidade porque foi censurado pelo dirigente quanto a algum procedimento, abandonando o trabalho. Se a censura foi merecida, agradeça e corrija-se; se foi injusta, desconsidere e perdoe, porque sua consciência está em paz.

Todo aquele que se melindra com a reprimenda ou conselho, é alguém que ainda precisa estudar muito o Espiritismo, sem pretender ser mais uma estrela de uma constelação sem luz. Se somos trabalhadores antigos, já com expressivo conhecimento, os defeitos realçam em nós mais do que nos noviços. Cabe-nos analisar que se sabemos muito, tudo isso é ainda uma parte ínfima do que nos compete saber e, principalmente, viver. Fiquemos felizes por já ser orientadores, sem esquecer, porém, que somos ainda necessitados de muita orientação e prática no campo das virtudes. Raros de nós pode, diante de uma verificação verdadeira, afirmar que estamos em condições de ingressar no “reino dos céus”. Nós mesmos nos reprovaríamos diante de uma sincera autoanálise.

Não poderia ser diferente, caso contrário não estaríamos encarnados num planeta de tantas dores e sofrimentos. O Espírito que somos precisa deste tempo para aprimoramento de caráter. Nunca fomos tão cultos em conhecimentos científicos e tão atrasados em dotes morais. Uma asa pronta e a outra implume. E ninguém voa com apenas uma asa.

Está terminando mais um ano. O chamado ano da renovação pelo término da oportunidade concedida por Jesus. Preparemo-nos para dores mais intensar porque nossa casa mãe está em reforma. Aliás, pegando fogo, literalmente,  como nunca se viu antes. Preparemo-nos enquanto há tempo, mesmo dolorido, para crescer como espíritos e qualificar-nos a voltar para a Terra após seu período de renovação para ser mundo de regeneração. Amemos mais, trabalhemos mais, sirvamos mais porque o prazo é pouco e o esforço para o crescimento é grande e penoso. É para os corajosos que tem fé e bom senso, porque a cada um será dado segundo suas obras.

Feliz Natal e produtivo 2020.

RIE = Revista Internacional de Espiritismo – dezembro 2019