Walkiria Lucia Araujo Cavalcante

“O perseguidor de hoje naturalmente será o necessitado de amanhã rogando compreensão e ajuda. O sicário impiedoso de agora ressurgirá depois na condição de vítima à espera de misericórdia e simpatia. Aquele que cria dificuldade e embaraço quando na tarefa da nossa ascensão, despertará, posteriormente, enleado nos cipós da própria imprevidência, desfazendo os nós da irresponsabilidade. O criminoso inveterado que se compraz na prática do erro não fugirá da consciência em despertamento, agora ou mais tarde convidando-o ao ressarcimento. É do Código Divino que todo aquele que pertuba se pertuba, todo aquele que projudica, só a si mesmo prejudica. Assim considerando, tenhamos em mente o impositivo evangélico do perdão doando-o até mesmo aos mais impenitentes lutadores inimigos da nossa pa.”[1]

 

O Mestre Jesus na celebre passagem que responde a Pedro que deve perdoar não sete vezes, mas setenta sete vezes nos convida ao perdão irrestrito, sem limites. A termos tolerância para com o nosso próximo e resignação perante o cumprimento da Lei em Nossas vidas.

Não estamos encarnados vivendo situações casuísticas. Somos espíritos imortais, num processo evolutivo, num constante aprendizado que nos deparamos com criaturas, melhor afirmando, com situações que nos levam sempre ao encontro de nossas consciências em forma de reparo com a Lei. Rebelamo-nos com quem nos fere, mas esquecemo-nos que em algum momento fomos os construtores da situação e tais criaturas atuam como personagens da história.

Ouvíamos que o perdão é bom para quem perdoa, sendo uma verdade compreendida a posteriori. Ao ficarmos magoados, tristes com o que fizeram conosco, carregamos em nós mesmos, grilhões que nos prendem a situação e muitas vezes, prendemo-nos psiquicamente, a (s) pessoa (s) que deram causa. Além de termos sofrido uma vez, sofremos outras tantas em virtude da lembrança revivida do fato ocorrido.

O outro, que se constitui nosso algoz, muitas vezes, não lembra que fez, ou acredita-se no direito de ter feito, então, ainda não fez consciência de culpa com relação ao fato. Sendo nós, os únicos a carregarmos a situação conosco. Por isso, ser tão importante nos desvincularmos do ocorrido, sendo necessário como primeiro passo no processo de cura e libertação do sofrimento.

Nesta passagem que trouxemos e que intitula nosso artigo, verificamos que o nobre espírito, também destaca outro aspecto, faz-nos enxergar que mesmo que a consciência de culpa não tenha feito moradia na criatura, não há como fugir ao Código Divino. Que todos sem exceção estamos submetidos a ele. O ressarcimento faz parte da Lei, que hoje, somos nós que estamos ressarcindo e que amanhã será que está fazendo-se instrumento do nosso ressarcimento.

Pode parecer um pensamento egoístico, mas não é. Ajuda-nos a compreender o que nos acontece. Entendermos que em algum momento descumprimentos o Código Divino e por isso, estamos submetidos a correção de nossos atos. Pois acreditamos na reencarnação, entendemos que em tudo existe consequências, não existe nada que façamos que não reproduza eco, nas nossas como na vida dos semelhantes, então, se a Lei nos alcança, também alcançará àqueles que se tornam instrumentos do nosso sofrimento e reajustamento.

A prática do perdão, faz do entendimento da vida futura uma realidade, afastando a revolta de nossas vidas. Entendendo que a melhor forma de superarmos o sofrimento é amando. Se não conseguirmos fazer isto com relação ao nosso algoz, amemos mais que está ao nosso lado na caminhada. Sejamos mais doces, mais amáveis, mais caridosos, mais solícitos, também para isso ajuda-nos e ensina-nos a prática do perdão. Todos ganhamos quando perdoamos. Sem exceção. Mas quando permitimos que a amargura tome conta de nós, também àqueles que estão ao nosso lado, ladeando a jornada e nos ajudando nos tropeços, sofrem com a nossa dor e amargura.

Um ponto que gostaríamos de destacar é o da vingança. Pois, em algumas situações, temos a possibilidade de exerce-la. “Portanto, meus amigos, nunca esse sentimento deve fazer vibrar o coração de quem quer que se diga e proclame espírita. Vingar-se é, bem o sabeis, tão contrário àquela prescrição do Cristo: ‘Perdoai aos vossos inimigos’, que aquele que se nega a perdoar não somente não é espírita como também não é cristão. A vingança é uma inspiração tanto mais funesta, quanto tem por companheiras assíduas a falsidade e a baixeza.”[2]

Seria o que os evangelistas nos apresentam como dar a outra face. A face do entendimento. Quando temos a possibilidade de fazermos algo errado e não fazemos, é porque a luz do entendimento já faz moradia em nós. A luz do entendimento superior trazida por Jesus, que curava aos sábados, andava entre as pessoas de má vida e estava entre os que os escribas e fariseus condenavam. Estas mesmas pessoas existem entre nós. Somos criticados por não irmos à forra, mas estamos agindo de acordo com a nossa consciência e com os preceitos evangélicos que corroboram os nossos atos.

Jesus nos ensinou: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.”[3] Demonstrando que a consciência ainda não desperta age de forma antagônica com o Código Divino. Um dia, que não tardará, o despertamento ocorrerá, como ocorreu para Jesus e para tantos que ladeiam o Mestre Rabi e nós que estamos em busca deste clarão de luz em nossas vidas, começamos a sentir raios de luz a produzirem-se cada vez que não nos vingamos e transformamos ódio em amor produzindo a redenção em nós mesmos.

Jornal O Clarim – dez 2019

[1] Livro Intercâmbio Mediúnico, cap. 46, Divaldo Franco, autoria espiritual João Cléofas

[2] Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XII, item 9

[3] Lucas, cap. XXIII, vv 34