Sessões Mediúnicas

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Walkiria Lucia Araujo Cavalcante 

“Artigo 17 – … As sessões são particulares ou gerais; jamais são públicas…

Artigo 18 – O silêncio e o recolhimento são rigorosamente exigidos durante as sessões, e principalmente durante os estudos. Ninguém pode tomar a palavra, sem que a tenha obtido do Presidente. Todas as perguntas dirigidas aos espíritos devem sê-lo por intermédio do Presidente, que pode se recusar a formulá-las, segundo as circunstâncias. São notadamente interditadas todas as perguntas fúteis, de interesse pessoal, de pura curiosidade, ou feitas com vistas a submeter os Espíritos a provas, assim como todas as que não tenham um objetivo de utilidade geral, do ponto de vista dos estudos. São igualmente interditadas todas as discussões que se afastam do objetivo especial do qual se ocupa.. [1]

Constituindo princípio básico de respeito de sociedade, mas principalmente quando estamos lidando com os espíritos, Kardec convencionou em Estatuto, normais formais que serviram de orientação para os presentes da época e para todos aqueles que quisessem replicar como modelo norteador de disciplina com relação as comunicações mediúnicas.

Algumas pessoas que adentram ao movimento espírita dizem não ser necessário estudar o livro dos médiuns, nem tão pouco ser preciso muitas orientações com relação ao trato com os espíritos. Afirmam estes que estamos falando da comunicabilidade e o fenômeno de incorporação ocorre de “lá para cá”, utilizando inclusive palavras de Chico Xavier. Mas esquecem-se que o próprio Chico, recebeu de Emmanuel como regra de execução do trabalho mediúnico três conselhos: disciplina, disciplina e disciplina.

Vemos no próprio Evangelho Segundo o Espiritismo que “… a mediunidade é coisa santa, que deve ser praticada santamente, religiosamente.”[2] Denotando assim, o respeito e a responsabilidade com que dever ser praticado. Não é algo de improviso, feito de qualquer maneira, em qualquer lugar, nem tão pouco com plateia. Deveremos nos preparar para execução do trabalho antes ou concomitantemente. Não permitindo ensaios, nem que mentes desavisada (encarnadas ou desencarnadas) utilizem-nos para expansões dos desejos e prazeres.

Começamos assim, a delinear a responsabilidade mediúnica que a criatura encarnada possui diante da própria ou quando responsável pelos trabalhos numa instituição espírita do grupo. Estamos tratando de fluidos, mentes, estrutura psicológica dos envolvidos que precisam estar preparados para tal trabalho. Todos os envolvidos não estão numa reunião social, mas num trabalho de ajuda ao próximo e de ajuda a si mesmos, fazendo um trabalho de catarse e modificação interior neste momento. Por isso, afirma-se que as reuniões mediúnicas seguem numa crescente, como também numa crescente segue a progressão individual de cada membro do grupo.

Infelizmente, “havendo chegado o seu tempo de divulgação, ampliando os horizontes das informações de alto significado, é natural que ocorram vários desvios de conteúdo, especialmente no que diz respeito à mediunidade pouco estudada e muito difundida.”[3] Cabe-nos, a nós espíritas, fazermos o bom papel de divulgação acertada. Incutindo a informação através do exemplo, mas também, através da instrução. Nas instituições espíritas, principalmente, orientar, disciplinar e conduzir o bom andamento dos trabalhos. Não podemos nos melindrar em corrigir o que está errado. Pois, compete-nos sermos os guardiões da mensagem, sendo os propagadores do bem.

Se temos acesso ao conteúdo, que o repassemos de forma correta, para que o erro não seja replicado em nome de não magoarmos a suscetibilidade alheia. “Considerando-se a gravidade de que se reveste, a mediunidade exige educação contínua e aprimoramento moral do seu portador, de modo a manifestar-se dentro dos padrões de respeito e de elevação que a devem caracterizar em todas as circunstâncias.”[4]

Ponto importante a ser destacado: o aprimoramento moral do médium. Muitos afirmam, que por ela ser orgânica, não haveria o que se falar sobre isso. Mas entendemos não ser desta forma. Quanto mais afinado o instrumento melhor o som é produzido. Quando mais culto e harmonizados com o bem, mais fácil aqueles que propagam o bem encontram ressonância e sintonia na emissão da mensagem. Somos àqueles que traduzimos a mensagem e quanto maior a sintonia, maior a exatidão, não havendo ruído para aqueles que estão recebendo.

Por isso que somos médiuns, mediadores entre os dois planos de energia e sensibilidade. Já não fazemos mais parte daqueles que vibram nas faixas mais inferiores, mas a nossa entrada ainda é interdita a zonas superiores pelas nossas mossas morais, as quais estamos, pouco a pouco, cicatrizando através dos bons atos, muitos destes nas reuniões mediúnicas de ajuda ao próximo. Por isso, que o estudo, a disciplina e o aprimoramento moral são as bases condutoras para a boa execução do trabalho mediúnico.

“A circunspeção, a seriedade na prática do fenômeno, a ação contínua da caridade, a maneira correta de viver, constituem os cartões de crédito que dignificam todos aqueles que descobrem os valiosos tesouros do serviço de intercâmbio espiritual.”[5] Nós médiuns somos seres comprometidos sim, não só com um passado espiritual, fato que todos os encarnados o são, mas principalmente, somos comprometidos com o trabalho assumido. A mediunidade é uma ferramenta de trabalho, que a atualizamos como meio de aperfeiçoamento e com isso, conquistamos créditos que angariamos em nosso proveito para de futuro utilizarmos.

Jornal O Clarim – janeiro de 2020

[1] Livro dos Médiuns, Capítulo XXX – Regulamento da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, capítulo III – Das Sessões.

[2] Capítulo XXVI, item 10

[3] Livro: Compromissos de Amor, capítulo: 37 – Comportamento Mediúnico, psicografado Divaldo Franco, Espíritos Diversos

[4] Idem

[5] Idem

Preces Espíritas

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Walkiria Lucia Araujo Cavalcante 

649 Em que Consiste a adoração?” Na elevação do pensamento a Deus. Deste, pela adoração, aproxima o homem sua alma.

  1. Qual o caráter geral da prece? A prece é um ato de adoração. Orar a Deus é pensar nele; é aproximar-se dele; é pôr-se em comunicação com ele. A três coisas podemos propor-nos por meio da prece: louvar, pedir, agradecer.[1]

O capítulo final de O Evangelho Segundo o Espiritismo contém uma coletânea de preces espíritas. Embora a Doutrina Espírita nos ensine que não há fórmulas para se orar, pois o que vale é o pensamento, os Espíritos trouxeram essa coleção de preces para facilitar aos que sentem dificuldade ao fazer uma oração ou que não acreditam nas suas próprias palavras por imaginar que elas não têm força suficiente para ajudar a si mesmo ou ao próximo.

Kardec divide em cinco partes a saber: Preces Gerais (Oração Dominical, Reuniões Espíritas, Para os Médiuns), Preces por Aquele Mesmo que Ora (Aos anjos guardiães e aos Espíritos Protetores, Para Afastar os Maus Espíritos, Nas Aflições da Vida, etc), Preces por Outrem (Preces por Alguém que esteja em aflição), Preces pelos que já não são da Terra (Por Alguém que Acaba de Morrer) e Preces pelos Doentes e pelos Obsediados (Pelos Doentes e Obsediados).

Entendemos que o Mestre Lionês foi muito feliz neste trabalho, pois antes de cada sugestão de prece ele faz uma explicação orientativa sobre do que se trata cada uma delas. Ao oramos, colocamo-nos em comunhão com Deus, num movimento de adoração, não contemplativa, mas de elevação do pensamento procurando mergulhar no psiquismo da Lei Divina, pensando , aproximando e nos comunicando com Ele, podemos absorver sua mensagem. Seja através de palavras já escritas ou formuladas por nós mesmos.

No livro Boa Nova, Humberto de Campos, relata uma conversa[2] de Simão Pedro com Jesus que vem a Desaguar na Oração Dominical que conhecemos. Conta-nos Humberto de Campos que a sogra de Simão Pedro foi curada por Jesus e vendo do que ela era capaz, pediu que Pedro solicitasse a intercessão do Mestre Rabi para a solução dos problemas matérias que eles possuíam. Afinal, eles foram dos primeiros a seguirem o Mestre.

Então, aguardando oportunidade certa, Pedro questiona o Jesus: “Mestre, será que Deus nos ouve todas as orações?” É uma questão delicada. Somos seres limitados tentando compreender e traduzir as atitudes de um ser ilimitado que é Deus. De acordo com a resposta do Mestre, temos a tendência de buscarmos o mais alto e necessitamos de comungar com essa experiência. É o que ocorre quando pedimos, louvamos ou agradecemos. Buscamos a Deus através de várias formas, não obrigatoriamente de palavras ditas, recitadas ou não, mas as nossas ações e os nossos sentimentos deverão corroborar o que estamos expressando naquele momento. Então, todas as nossas orações são ouvidas, mas o atendimento é para o espírito eternos, não para a criatura que vive sob a influência das vicissitudes materiais.

Pedro não se dá por vencido, assim como nós. E pergunta: “Se Deus ouve as súplicas de todos os seres, porque tamanhas diferenças na sorte?” Neste momento, Pedro começa a si comparar e comparar sua família a de outros, da mesma maneira que fazemos algumas vezes em nossas preces. Em vez de analisarmos a nós mesmos e o que podemos fazer para nos melhorarmos e alcançarmos o nosso objetivo. Jesus nos lembra que todos pertencemos a Deus, então, todos somos seus servidores. Cada um em seu campo de atuação contribuindo para o progresso e transformando a vida em uma perfeita oração de amor. Trabalhando no bem, pelo bem, no sentido do bem para todos.

Neste diálogo que se estabeleceu, Simão Pedro procura saber “… como deveremos interpretar a oração?” O Mestre nos orienta que “em tudo deve a oração constituir o nosso recurso permanente de comunhão ininterrupta com Deus.” Nos momentos bons, nos momentos ruins. Nas horas felizes, nas horas tristes. Termos na oração a companheira diária que nos apazigua a mente, nos acalenta a alma e nos ajuda a prosseguir. Nos ajudando a termos firmeza nos passos, equilibro nos pensamentos e certeza no processo de decisão.

Estar em comunhão com Deus e com a sua Lei não significa um movimento de corpo em que nos depomos ajoelhados ou que dizemos uma quantidade de palavras, ou tão pouco práticas exteriores que não condizem com o que estamos pensando ou sentindo. Pedro acreditava que estava de acordo e que mantinha inalterada a sua comunhão com Deus. Mas mesmo assim não lograva êxito. E mais uma vez questiona Jesus do porque não conseguir.

Mas, Jesus, que conhecia a alma humana, mais do que a própria criatura humana imagina, pergunta-lhe: “E que tens pedido a Deus?” A resposta não poderia ser diferente: “Tenho implorado à sua bondade que aplaine os meus caminhos, com a solução de certos problemas materiais.” Jesus, diante desta resposta, orienta a Pedro: “… enquanto orares pedindo ao Pai a satisfação de teus desejos e caprichos, é possível que te retires da prece inquieto e desalentado. Mas, sempre que solicitares as bênçãos de Deus, a fim de compreenderes a sua vontade justa e sábia, a teu respeito, receberás pela oração os bens divinos do consolo e da paz.”

Não nos é interditado solicitar bens materiais, mas que isso não seja objeto e objetivo único de nossas vidas. A mensagem do Mestre foi para o espírito eterno. Deveremos sempre solicitar bênçãos e compreensão do que está nos acontecendo naquele momento. Muitas vezes desejamos interromper algo que está servindo como experiência. Não podemos pular etapas. É da Lei. Neste momento Simão Pedro, também compreende isto e diz: “Senhor, ensina-nos a orar!…” Momento no qual, o Mestre Rabi pronuncia a Oração Dominical.

Revista Internacional de Espiritismo – RIE – janeiro 2020

[1] Livros dos Espíritos

[2] Capítulo 18 – Oração Dominical

Não dependo de ninguém

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Octavio Caumo Serrano

Escravos dos outros e da natureza, muitos arrogantes dizem que não precisam de ninguém. Bastam-se por si mesmos.

Quando ouço esses equivocados, logo indago a ele quem plantou ou preparou a comida que ele hoje almoçou. Quem costurou as roupas que está vestindo, quem fabricou seus óculos para suavizar sua miopia, os remédios que controlam sua hipertensão e o carro que o leva ao trabalho.

Certamente já estudou e dependeu da mensalidade paga pelos pais e das aulas ministradas por idealistas e sofridos professores. Ao chegar em casa, liga uma TV e senta-se num sofá que não foi ele quem fabricou. Acende a luz para ler o jornal com as notícias do dia porque outros lhe proporcionam esta oportunidade. Sabe-se lá o sofrimento destes pioneiros que nos antecederam no planeta para criar todo esse conforto que o mal-agradecido nem percebe, a ponto de dizer: “Não preciso de ninguém. Basto-me por mim mesmo!” Até no dia de sua morte vai precisar de seis voluntários para carregar o caixão que abriga o corpo inerte do equivocado autossuficiente.

Somos seres gregários. Nascidos para viver em tribos onde nos ajudamos uns aos outros, praticando a solidariedade a fim de crescermos; individual e coletivamente.

Além do que vemos, há também o que nossa estreita visão não pode perceber. Somos cegos guiados por cegos. Temos mentores (ou obsessores), anjo da guarda e a misericórdia do Evangelho que nos alerta contra a vaidade, a prepotência, a soberba e outras tolices irradiadas do orgulho e do egoísmo, essa parelha geradora de todos os nossos males que espalha seus longos tentáculos para todos os lados.

Lembremo-nos que além de depender dos outros, os outros também dependem de nós. Do nosso procedimento depende o mundo em que vivemos, também. E quando não podemos ajudar a melhorá-lo cuidemos para não o estragar ainda mais. Ele já está feio porque esta nossa humanidade faliu e está difícil reverter o caos. Não sejamos mais um a tentar apagar o fogo com gasolina. Humildade é qualidade de poucos e apanágio dos lúcidos.

Jornal O Clarim – janeiro de 2020

Aquilo que mais me encanta

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Octávio Caumo Serrano

Sou agradecido a Deus por ter-me colocado frente a frente com a Doutrina dos Espíritos lá pelo início da década de 1970, quando eu passava dos 37 anos de idade. Já era um quase coroa!

Minha vida transcorria normalmente e não havia problema que me levasse a buscar apoio religioso, a não ser o desejo de conhecer respostas para as eventualidades da vida. Afinal, todos queremos saber quem somos, de onde viemos, por que razão estamos aqui e o que teremos a seguir. Não faz sentido tanto esforço e tanta dor para tudo se acabar no nada. Além disso, desejamos explicações e justificativas para a desigualdade das pessoas. Uns tão felizes e outros tão sofridos; uns ricos e outros pobres; uns saudáveis e outros enfermos; uns que vivem muito e outros que morrem cedo, quando não são abortados naturalmente. Se todos procedemos da mesma origem divina por que tanta diferença?

Descoberto o Espiritismo comecei a trabalhar na velha sede da Federação Espírita do Estado de São Paulo onde organizei em Kardex (sistema de fichário em gavetas) o cadastro dos centros ligados à casa. Tínhamos visitadores que traziam relatórios do que viam nas Casas Espíritas, se as atas estavam atualizadas, etc., se havia crianças em reuniões inadequadas, se usavam uniformes, símbolos e que tais, para que fossem orientadas.

Era comum, às sextas-feiras, depois do trabalho que terminava às 22 horas, alguns companheiros irem a locais onde se praticava materialização de espíritos. Fui muitas vezes convidado, mas nunca tive interesse por esses tipos de reunião. Percebi logo que cheguei à doutrina que o que menos me interessavam eram os fenômenos, incluindo as comunicações mediúnicas. Percebi logo de início que o Espiritismo veio para curar almas e não corpos e que era efetivamente o Consolador prometido, segundo o Evangelho de João, sendo, portanto, a volta de Jesus que repetia tudo o que havia divulgado para o povo de Israel, agora sem metáforas, sem parábolas, sem mistérios. O Evangelho chegava até nós pelo Espiritismo com linguagem inteligível para doutores e analfabetos, sendo muitas vezes mais bem compreendido por estes do que pelos acadêmicos.

Conclui que o Cristo jamais voltaria ao planeta porque daqui ele nunca saíra. Está presente nas suas lições. No seu Evangelho. Soube mais tarde que o próprio Emmanuel, mentor do nosso Chico, lá pelos anos 1970 sugeriu que se interrompessem as materializações em Minas Gerais e que, em vez disso, fossem escritos livros para ensinar as pessoas a fim de conscientizá-las. E só o Chico o fez em mais de 400 obras.

Por que precisamos de missionários que repitam as lições de Jesus? Por que a Lei de Deus, que está escrita na consciência de cada um de nós é esquecida e negligenciada (LE P 621 e seguintes). Por isso os Espíritos repetem por livros, mensagens e palestras as mesmas coisas com frases às vezes novas para ver se conseguimos o milagre de gravá-las. E quanto aos milagres, o próprio Jesus fê-los tão poucos que para mim seus maiores milagres foram a transformação de Zaqueu e Saulo de Tarso. Como Irmã Dulce, canonizada no último 12 de outubro pela cura do olhos de um homem e de uma parturiente, de comprovação subjetiva, quando seus grandes milagres foram viver até quase os oitenta anos com saúde comprometida, insuficiência respiratória por deficiência cardíaca que a levava a ter noites mal dormidas e ainda assim atender à comunidade carente em hospital criado por ela em sua cidade, com verbas insuficientes vindas do governo e complementadas pela generosidade do seu povo, o que continua com gestão de sua sobrinha. A cada um seu próprio conceito de milagre. Como os milagres de Chico Xavier que com angina e outros males foi até os 92 anos servindo sem parar. Estancando o choro de muitas mães com a revelação da continuidade da vida, além da vasta obra escrita e vertida para diferentes idiomas.

É por isso que há trinta anos escrevo artigos para esta revista. E me lembro da poeta goiana Cora Coralina. “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”. Portanto, é para mim que escrevo, a priori. E para os leitores que, como eu, querem aproveitar esta encarnação. Feliz 2020!

Revista Internacional de Espiritismo – RIE – janeiro 2020