Octávio Caumo Serrano

Sou agradecido a Deus por ter-me colocado frente a frente com a Doutrina dos Espíritos lá pelo início da década de 1970, quando eu passava dos 37 anos de idade. Já era um quase coroa!

Minha vida transcorria normalmente e não havia problema que me levasse a buscar apoio religioso, a não ser o desejo de conhecer respostas para as eventualidades da vida. Afinal, todos queremos saber quem somos, de onde viemos, por que razão estamos aqui e o que teremos a seguir. Não faz sentido tanto esforço e tanta dor para tudo se acabar no nada. Além disso, desejamos explicações e justificativas para a desigualdade das pessoas. Uns tão felizes e outros tão sofridos; uns ricos e outros pobres; uns saudáveis e outros enfermos; uns que vivem muito e outros que morrem cedo, quando não são abortados naturalmente. Se todos procedemos da mesma origem divina por que tanta diferença?

Descoberto o Espiritismo comecei a trabalhar na velha sede da Federação Espírita do Estado de São Paulo onde organizei em Kardex (sistema de fichário em gavetas) o cadastro dos centros ligados à casa. Tínhamos visitadores que traziam relatórios do que viam nas Casas Espíritas, se as atas estavam atualizadas, etc., se havia crianças em reuniões inadequadas, se usavam uniformes, símbolos e que tais, para que fossem orientadas.

Era comum, às sextas-feiras, depois do trabalho que terminava às 22 horas, alguns companheiros irem a locais onde se praticava materialização de espíritos. Fui muitas vezes convidado, mas nunca tive interesse por esses tipos de reunião. Percebi logo que cheguei à doutrina que o que menos me interessavam eram os fenômenos, incluindo as comunicações mediúnicas. Percebi logo de início que o Espiritismo veio para curar almas e não corpos e que era efetivamente o Consolador prometido, segundo o Evangelho de João, sendo, portanto, a volta de Jesus que repetia tudo o que havia divulgado para o povo de Israel, agora sem metáforas, sem parábolas, sem mistérios. O Evangelho chegava até nós pelo Espiritismo com linguagem inteligível para doutores e analfabetos, sendo muitas vezes mais bem compreendido por estes do que pelos acadêmicos.

Conclui que o Cristo jamais voltaria ao planeta porque daqui ele nunca saíra. Está presente nas suas lições. No seu Evangelho. Soube mais tarde que o próprio Emmanuel, mentor do nosso Chico, lá pelos anos 1970 sugeriu que se interrompessem as materializações em Minas Gerais e que, em vez disso, fossem escritos livros para ensinar as pessoas a fim de conscientizá-las. E só o Chico o fez em mais de 400 obras.

Por que precisamos de missionários que repitam as lições de Jesus? Por que a Lei de Deus, que está escrita na consciência de cada um de nós é esquecida e negligenciada (LE P 621 e seguintes). Por isso os Espíritos repetem por livros, mensagens e palestras as mesmas coisas com frases às vezes novas para ver se conseguimos o milagre de gravá-las. E quanto aos milagres, o próprio Jesus fê-los tão poucos que para mim seus maiores milagres foram a transformação de Zaqueu e Saulo de Tarso. Como Irmã Dulce, canonizada no último 12 de outubro pela cura do olhos de um homem e de uma parturiente, de comprovação subjetiva, quando seus grandes milagres foram viver até quase os oitenta anos com saúde comprometida, insuficiência respiratória por deficiência cardíaca que a levava a ter noites mal dormidas e ainda assim atender à comunidade carente em hospital criado por ela em sua cidade, com verbas insuficientes vindas do governo e complementadas pela generosidade do seu povo, o que continua com gestão de sua sobrinha. A cada um seu próprio conceito de milagre. Como os milagres de Chico Xavier que com angina e outros males foi até os 92 anos servindo sem parar. Estancando o choro de muitas mães com a revelação da continuidade da vida, além da vasta obra escrita e vertida para diferentes idiomas.

É por isso que há trinta anos escrevo artigos para esta revista. E me lembro da poeta goiana Cora Coralina. “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”. Portanto, é para mim que escrevo, a priori. E para os leitores que, como eu, querem aproveitar esta encarnação. Feliz 2020!

Revista Internacional de Espiritismo – RIE – janeiro 2020