Octavio Caumo Serrano

Escravos dos outros e da natureza, muitos arrogantes dizem que não precisam de ninguém. Bastam-se por si mesmos.

Quando ouço esses equivocados, logo indago a ele quem plantou ou preparou a comida que ele hoje almoçou. Quem costurou as roupas que está vestindo, quem fabricou seus óculos para suavizar sua miopia, os remédios que controlam sua hipertensão e o carro que o leva ao trabalho.

Certamente já estudou e dependeu da mensalidade paga pelos pais e das aulas ministradas por idealistas e sofridos professores. Ao chegar em casa, liga uma TV e senta-se num sofá que não foi ele quem fabricou. Acende a luz para ler o jornal com as notícias do dia porque outros lhe proporcionam esta oportunidade. Sabe-se lá o sofrimento destes pioneiros que nos antecederam no planeta para criar todo esse conforto que o mal-agradecido nem percebe, a ponto de dizer: “Não preciso de ninguém. Basto-me por mim mesmo!” Até no dia de sua morte vai precisar de seis voluntários para carregar o caixão que abriga o corpo inerte do equivocado autossuficiente.

Somos seres gregários. Nascidos para viver em tribos onde nos ajudamos uns aos outros, praticando a solidariedade a fim de crescermos; individual e coletivamente.

Além do que vemos, há também o que nossa estreita visão não pode perceber. Somos cegos guiados por cegos. Temos mentores (ou obsessores), anjo da guarda e a misericórdia do Evangelho que nos alerta contra a vaidade, a prepotência, a soberba e outras tolices irradiadas do orgulho e do egoísmo, essa parelha geradora de todos os nossos males que espalha seus longos tentáculos para todos os lados.

Lembremo-nos que além de depender dos outros, os outros também dependem de nós. Do nosso procedimento depende o mundo em que vivemos, também. E quando não podemos ajudar a melhorá-lo cuidemos para não o estragar ainda mais. Ele já está feio porque esta nossa humanidade faliu e está difícil reverter o caos. Não sejamos mais um a tentar apagar o fogo com gasolina. Humildade é qualidade de poucos e apanágio dos lúcidos.

Jornal O Clarim – janeiro de 2020