Octávio Caumo Serrano   caumo@caumo.com

Ensinar é informar; mas nunca temos a certeza de atingir os objetivos.

O Evangelho, também conhecido como a Boa Nova, ensinado por Jesus, pode, como diz a parábola, acabar na areia, na pedra, na terra… E vai dar frutos ou não dependendo de onde caia e em que condições.

Para entendê-lo, consultemos o mesmo Jesus. Se numa hora Ele diz que não devemos pôr a candeia debaixo do alqueire, logo depois afirma que não se deve dar pérolas aos porcos. Ou quando Ele diz que a quem tem mais, mais será dado, e de quem tem pouco até esse pouco será retirado. Ou, segundo a voz do povo, não devemos gastar vela com mau defunto. Por que essas contradições.

Não há contradições. Podemos comparar essa divulgação a uma aula ministrada por experiente professor que diz o mesmo para todos os seus alunos. Mas no fim do ano, uns passam com destaque, outros “raspando” e ainda há os que não passam. No entanto, o professor ensinou igualmente a todos, mas cada um entendeu conforme a sua capacidade e desejo. Esse desejo geralmente está condicionado ao grau de sabedoria do indivíduo. Não é que ele não quer; ele não pode porque a mensagem está acima do seu discernimento e lhe falta bom senso. É como um paciente que só entende superficialmente a sua doença, quando explicada por um especialista.

Na pergunta 621 de O Livro dos Espíritos foi indagado aos veneráveis onde está escrita a Lei de Deus. E eles responderam: Na consciência. Perguntou-se, a seguir, então porque ela lhe tem de ser lembrada constantemente com a vinda de emissários divinos que repetem sempre o mesmo e eles disseram que é porque os homens a esquecem e menosprezam.

Este alerta sobre a divulgação do Evangelho é importante porque um expositor fala para um público e cada pessoa dessa coletividade entende de um jeito. O que para uns é óbvio para outros é mistério. A maioria dos homens ainda não percebeu que ao perdoar e a si que perdoa e ao odiar é seu coração que se enche de veneno. Somos o criador dos nossos males e podemos ser o primeiro e maior médico para as nossas enfermidades. É o que diz o Evangelho há vinte séculos, para todos os cristãos, e eles ainda não entenderam e vivem digladiando-se. Cada um define o Cristo de uma forma e usa suas lições conforme suas conveniências. O mesmo acontece com os que seguem Buda, Moisés, Maomé e outros enviados de todos os tempos. Todos falaram a mesma coisa para seus povos e em seus idiomas, mas cada um deles é um procurador de Deus traduzindo a Lei Divina para um vocabulário acessível aos homens. E nesses casos, nem sempre os mais letrados entendem melhor que analfabetos. Cultura e sabedoria são atributos diferentes.

Inútil tentarmos amestrar os homens enquanto insistirem em ser feras. Pensarão e agirão como feras. Não afaste seu familiar de Deus ou do Evangelho de Jesus pregando de um jeito e vivendo de maneira oposta. Sem o exemplo não há convencimento. Não falemos do Evangelho sem mostrá-lo em nossas atitudes. Serão palavras ao vento! Não recitemos mensagens; sejamos nós a mensagem. É preciso coerência entre o que falamos e o que vivemos.

Nas escolas de evangelização infantil espírita, defendemos que não deve haver massinhas ou joguinhos, mas evangelho. E se alguém disser que criança não entende, permita-me contar uma passagem,

Fazíamos palestra numa quarta-feira à tarde, no Centro Kardecista os Essênios em São Paulo, onde habitualmente estava presente uma senhora com duas filhas de sete e cinco anos. A menor, loirinha, um biscuit, sentava-se na posição de lotus (como os iogues), longe da mãe, e dormia profundamente. Eu ficava aflito porque ela balançava e parecia que iria cair da cadeira. Nunca caiu.

Certa quarta, ao sair, encontramos mãe e filhas na porta do centro. -Olá. Vocês ainda por aí? – Pois é, meu marido que vem nos buscar atrasou-se. Não havia celulares… Nesse momento a pequena dorminhoca disse à mãe: – Mãe, o seu Octávio fez uma palestra tão legal! Surpresa, a mãe indagou. -Foi filha? Por que você achou a palestra legal? – Porque ele disse que nós só devemos fazer para os outros o que nós queremos que os outros façam pra nós! Eu achei muito legal!…

Não há crianças. Há espíritos adultos que voltam para novas experiências. Não fale com crianças com a linguagem do bilu-bilu, porque ela vai olhar para você e vê-lo com um tonto! O Evangelho sai da nossa boca igual para todos, mas chega diferente no ouvido de cada um. E daí para o cérebro e coração é uma longa viagem.

Tribuna Espírita setembro/dezembro 2019