Octávio Caumo Serrano

O ambiente de uma reunião é determinado pela soma dos pensamentos dos presentes. Como o mundo é a soma das consciências dos homens. Em se tratando de Centro Espírita, é a harmonia ou distonia mental dos participantes do conjunto, o que criará uma atmosfera espiritual elevada ou de baixa qualidade, com consequentes elevações ou perturbações.

No Centro Kardecista Os Essênios, nossa casa de São Paulo, fundado em 1982, fechávamos a porta no início das tarefas e só depois fazíamos a prece preparatória para harmonizar o ambiente com vista ao trabalho a realizar. A partir daí ninguém mais adentrava o recinto. Houve até quem escrevesse na imprensa espírita taxando o gesto como falta de caridade. O certo é que muitos nos copiaram por acreditar que fazia sentido e era disciplina sem o que nada pode ter sucesso.

Por muito tempo fomos expositores de aulas nas Escolas de Aprendizes do Evangelho, criação de Edgard Armond na Federação Espírita do Estado de São Paulo. Certa vez fomos a um centro fazer o trabalho e era uma casa que, inspirada na nossa iniciativa, fechava a porta da sala às 20 horas para preparar o ambiente. Uma bela e sentida prece, com convocação de toda a corte celeste para nos ajudar e proteger. Uma classe de uns quarenta alunos. Como o gesto tinha convicção relativa e titubeante, terminada a preparação a porta era aberta para os retardatários. Nesse dia, oito pessoas adentrara a sala, intempestivamente.

Quando nos deram a palavra, antes de expor a aula do dia, na condição de também dirigente espírita, pedimos licença para fazer uma pergunta: – A entrada desses retardatários não desarmonizou o ambiente? Se a resposta for sim, desarmonizou, eles não deveriam ter entrado. Se a resposta for não, então por que perder tempo com longa preparação? O silêncio foi a resposta, enquanto os olhares fulminantes dos retardatários nos endereçavam suas pesadas vibrações. Sentiram-se ofendidos.

Defendemos que cada participante da reunião, aluno, professor, médium, dirigente ou visitante pode ser um trabalhador de quem a espiritualidade se serve quando há sintonia. Ao adentrar o Centro, somos todos parceiros dos espíritos desencarnados nos trabalhos de assistência, quando doamos ou recebemos conforme nossas condições físicas e espirituais. Daí a importância da oração e vigilância do pensamento e do tipo de conversação. Há que haver silêncio físico e mental.

Quando chegamos ao centro, devemos deixar do lado de fora nossas preocupações do cotidiano, nossas aflições, usando oração e vigilância para exercício de fé. Se em vez de fazer silêncio e nos concentrarmos nos objetivos do dia, no Evangelho, tratamos de receitas de bolo, encontros em festas mundanas, resultado do futebol, navegar nas redes sociais do celular, crises políticas ou outras divagações, ficaremos isolados na reunião e não faremos parte da equipe socorrista. Nem como doador nem como receptor. Estarmos lá ou não é indiferente. Para a espiritualidade somos agentes de perturbação mais do que de harmonização.

Não podemos e não devemos transformar o salão do centro espírita num local de reunião social. Quem gosta de conversar, convide o confrade para ir à sua casa e ofereça-lhes um cafezinho com bolo; ou o que mais lhe agradar. As conversas no centro, quando necessárias, devem versar sobre o Evangelho e a organização da casa, orientação aos trabalhadores, especialmente aos mais novos, alertando-os para que tais mecanismos não sejam rompidos pela frivolidade dos gestos e palavras que não cabem nesse raro momento de nossa vida quando podemos sair do mundo para entrar numa atmosfera mais espiritualizada. Mesmo que por breves instantes.

Os dirigentes do Centro não devem ter medo de orientar ou corrigir o candidato a trabalhador, com medo que ele se afaste da instituição. Se em vez de trabalhador é um atrapalhador espírita, melhor um a menos para que o conjunto não se desarmonize. Se for colaborador antigo, pior ainda. Além de perturbar o conjunto serve de péssimo exemplo aos novatos. Nunca esquecer que o dirigente espírita é o guardião do Espiritismo no centro que ele comanda. As falhas, desarmonias ou perturbações que ocorreram no Centro são ônus para o próprio Espiritismo que será alvo de críticas quanto à qualidade da Doutrina que abraçamos. Não temos o direito de fazer isso, traindo Jesus e Kardec que tantos sacrifícios fizeram para nos deixar O Consolador Prometido. Já diz um adágio popular: – Muito me ajuda quem não me atrapalha.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – fevereiro 2020