Walkiria Lucia Araujo Cavalcante 

“Em muitas ocasiões, admitimos erroneamente que os grandes vultos do Cristianismo terão obtido privilégios nas Leis Divinas; entretanto, basta a reflexão nas realidades do Evangelho, para que nos capacitemos da sem-razão de semelhante conceito. … Realmente, não possuímos qualquer justificativa para isentar-nos do serviço de autoeducação, à frente do Cristo, sob a alegação de que não recolhemos recursos imprescindíveis à solução dos problemas do próprio burilamento para a vitória espiritual. … Pedro, com a autoridade do exemplo, afirma-nos que, diante da providência Divina, todos nós obtivemos valores iguais para as realizações da mesma fé. [1]

Neste momento que se avizinha o período que as famílias se voltam para o congraçamento e comemoração do nascimento do Mestre Jesus, muitos valores que por razões diversas ficam adormecidos ou que não são dados os devidos valores em nossas vidas, veem à tona.

Alguns, surgem como o perlustrar de luzes a nos iluminarem. Trazendo balsamos as feridas que, por vezes, acalentamos durante o ano, mas que “a magia do Natal” consegue apaziguar, mesmo que por um curto espaço de tempo. Relata a espiritualidade nos livros específicos trazidos pelos trabalhadores da seara espírita que grandes grupos se formam e aproveitam que as criaturas encarnadas estão mais propensas ao perdão, ao amor e a caridade para insuflar nos corações estes sentimentos, potencializando-os em nós.

“Compreendei as obrigações que tendes para com os vossos irmãos! Ide, ide ao encontro do infortúnio; ide em socorro, sobretudo, das misérias ocultas, por serem as mais dolorosas! Ide, meus bem-amados, e tende em mente estas palavras do Salvador: ‘Quando vestirdes a um destes pequeninos, lembrai-vos de que é a mim que o fazeis!’”[2] “Mas, se peço, também dou e dou muito. Convido-vos para um grande banquete e forneço a árvore onde todos vos saciareis! Vede quanto é bela, como está carregada de flores e de frutos! Ide, ide, colhei, apanhai todos os frutos dessa magnificente árvore que se chama a beneficência. No lugar dos ramos que lhe tirardes, atarei todas as boas ações que praticardes e levarei a árvore a Deus, que a carregará de novo, porquanto a beneficência é inexaurível.”[3]

Ao nos doarmos aos outros, colocamos medicamento poderoso, o medicamento do amor em nossas próprias feridas e como nos relata Cáritas no trecho acima, ao irmos ao encontro dos infortúnios ocultos de nossos irmãos estamos de certa forma curando os nossos próprios, aqueles que muitas vezes não temos coragem de assumirmos para nós mesmos. Voltando-nos para a árvore da vida e nos repondo de energia bem-fazeja, sendo aqueles que nos dispomos, mesmo com chagas e ainda feridos, a ajudar aqueles que estão na caminhada, ladeando os nossos passos.

Quando era criança tentava entender o que era o “Espírito de Natal”. Hoje, penso que existem plêiades de espíritos trabalhando para que o sentido do Natal persista em nós. O amor, a esperança, a caridade, o perdão, sementes plantadas com mais afinco, regadas e adubadas neste período, sejam germinadas ao longo dos meses subsequentes. Quando buscamos a reunião da mesa, buscamos a união familiar, quando trocamos presentes, desejamos estar presente na vida do outro. Mas muitos de nós ainda não educamos o sentimento e não trabalhamos as ações para que elas traduzam o Eu Divino que habita em nós.

De uma maneira ou de outra tivemos a oportunidade de compartilharmos a presença amorável do Mestre Jesus que nos mostrou que a perseverança seria o nosso estandarte de conduta em todas as suas passagens. Veio-nos a Doutrina Espírita mostrar-nos que a reencarnação comprova-nos a certeza que vale a pena insistir e persistir. Não pelos outros, mas por nós mesmos. Pelo entendimento que estamos construindo a nossa edificação moral, ninguém poderá faze-la por nós. Então tudo o que fizermos será em nosso proveito em primeiro lugar, em sequência de nosso semelhante.

Amar, perdoar, ser caridoso, são virtudes que elevam em primeiro lugar a nós mesmos. Nesta passagem que trouxemos para ilustrar e que serve como título deste artigo, a figura trazida é de Simão Pedro, pescador. Figurativamente a criatura que sai para o mar, enfrenta as intempéries, mantem-se firme, tem a paciência de esperar até que consiga adquirir o pescado do dia para na manhã seguinte, bem cedo, recomeçar o trabalho. Não é assim a encarnação?

Vivemos neste processo de recomeço que para alguns pode parecer eterno, mas que não é. Ultrapassamos etapas e evoluímos, mas não temos a paciência de esperar o processo se cumprir. Dia chegará que olharemos para trás e veremos o quanto já vivemos, o quanto já evoluímos. Caminharmos nas trilhas da fé é termos os passos firmes, não importando o terreno que estejamos caminhando: arenoso, pedregoso ou firme. Pois, temos a certeza que Deus está conosco e que em tudo se cumpre a sua Lei.

Tribuna Espírita setembro/dezembro 2019

[1] Livro: Palavras de Vida Eterna, capítulo 154 – Nas Trilhas da Fé.

[2] Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XIII, item 11

[3] Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XIII, item 13