Walkiria Lucia Araujo Cavalcante

Tem o homem o direito de dispor da sua vida? Não; só a Deus assiste esse direito. O suicídio voluntário importa numa transgressão desta lei.”

Não é sempre voluntário o suicídio? O louco que se mata não sabe o que faz.”[1]

O suicídio é abordado em O Livro dos Espíritos, nas questões nas questões novecentos e quarenta e três a novecentos e cinquenta e sete. O suicídio é a negação da dor que a criatura humana está vivenciando. Matando-se o corpo físico acredita-se matar a dor.

Estamos encarnados num momento crucial da evolução, em que os que decidem permanecer fieis aos ensinamentos do Mestre Rabi vivenciamos momentos de profunda agonia em embate por sabermos que o grande enfrentamento de luz e sombra está acontecendo dentro da própria criatura humana. O homem novo construindo-se com os materiais do homem velho, vivencia os momentos semelhantes ao da feitura do aço que é submetido a altas temperaturas e que através do resfriamento do amor, da unção da paciência, do óleo salutar da resignação, das bênçãos do pai nos solidificamos em espíritos para cada vez ficarmos mais fortes.

A ideia da vida imortal está intrínseca na criatura humana[2]. A questão não é desconhecimento da lei, é senti-la em toda sua completude. Este sentimento só nasce da vivencia evangélica no bem. Quanto tiramos o foco do bem, passamos a observar os desgostos da vida com lente de aumento, sendo estes desgostos da vida provindos da ociosidade, da nossa falta de fé e da própria saciedade (questão novecentos e quarenta e três de o livro dos espíritos). Quando não nos sentimos úteis e deixamos de enxergar a presença de Deus e de sua Lei em nossas vidas, vivemos de forma mecânica, perdemos o objetivo da vida e o rumo que nos leva a ascensão espiritual.

Bezerra de Menezes sobre o pseudônimo de Max escreve o livro A Loucura Material e a Loucura Espiritual que distingue claramente os casos de perturbação física, os chamados loucos; e perturbação espiritual, os obsessos. Trazemos este adento e sugestão de leitura, porque ao tratar sobre a disposição da própria vida na questão novecentos e quarenta e quatro, é perguntado ao insignes Mestres da Humanidade se o suicídio é sempre voluntário, obtendo como resposta que “o louco que se mata não sabe o que faz.” Gostaríamos de destacar que sempre seremos assistidos por aqueles que sintonizamos por associação fluídica, então, nestes momentos, irão se associar aqueles que vibram nestes mesmo pensamento.

Em todos os outros casos, o suicídio é voluntário. Mesmo que seja inconsciente. Um dos que gostaríamos de destacar é o suicídio moral[3] : é o suicídio fruto das paixões. Muitos alegam que não conseguem resistir a influência corporal e que são arrastados pelo desejo que as rege. “O corpo não dá cólera àquele que não na tem, do mesmo modo que não dá os outros vícios. Todas as virtudes e todos os vícios são inerentes ao Espírito. A não ser assim, onde estariam o mérito e a responsabilidade?  … Não vos mostra a experiência, a vós espíritas, até onde é capaz de ir o poder da vontade, pelas transformações verdadeiramente miraculosas que se operam sob as vossas vistas? Compenetrai-vos, pois, de que o homem não se conserva vicioso, senão porque quer permanecer vicioso; de que aquele que queira corrigir-se sempre o pode. De outro modo, não existiria para o homem a lei do progresso.”[4]

Fica destacado que o espírito é responsável pelos atos que o corpo executa e que a criatura encarnada é detentora das possibilidades de escolha. Muito se tem falado de um mês dedicado à ajuda para aqueles que desejam a busca do desenlace físico. Entendemos válido este trabalho, mas destacamos que o trabalho é diário. Que deveremos, nas instituições espíritas, nos dispormos a ajudar àqueles que nos buscam e percebermos as mensagens subliminares dos que passam pelos atendimentos fraternos.

Mesmos conhecedores das mensagens que nos libertam e nos mostram um porvir estamos nos permitindo olhar para o agora. Estamos desviando o olhar da proposta de espíritos imortais que somos e nos vinculando ao momento presente. “A vida é difícil, bem o sei. Compõe-se de mil nadas, que são outras tantas picadas de alfinetes, mas que acabam por ferir. Se, porém, atentarmos nos deveres que nos são impostos, nas consolações e compensações que, por outro lado, recebemos, havemos de reconhecer que são as bênçãos muito mais numerosas do que as dores. O fardo parece menos pesado, quando se olha para o alto, do que quando se curva para a terra a fronte.”[5]

O espírito dirige o corpo, não o inverso. Dele promanam as orientações. As consequências do suicídio não são iguais para todos, sempre é levado em consideração a intenção. Não existem penas fixadas[6], uma única coisa vincula como resultado em todos os casos: a frustação encontrada no final, ninguém morre. Somos espíritos eternos vivenciando situações momentâneas, que mesmos que signifiquem uma encarnação, tem prazo determinado.

Diz-se com propriedade que mesmo na noite mais escura, o primeiro minuto após a meia-noite é o primeiro minuto de um novo dia. Que a noite escura e nebulosa que por ventura estejamos vivendo seja ultrapassada pelo primeiro minuto do porvir de um sol radiante a nos iluminar a jornada e nos proporcionar o entendimento e o calor da presença do Mestre Jesus em nossas vidas. Nada dura para sempre, nem as alegrias, nem os sofrimentos. Somos espíritos eternos vivenciando experiências materiais que nos ajudam a evoluir e expurgar um passado espiritual, que contribuamos com este processo e que aprendamos com o que estejamos vivendo, não fugindo do aprendizado que nos bate a porta.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo

[1] Livros dos Espíritos, questão 944, 944-a

[2] Questão 959 O Livro dos Espíritos

[3] Questão 952 O Livro dos Espíritos

[4] Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo IX, item 10

[5] Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo IX, item 09

[6] Questão 957 O Livro dos Espíritos