Paradoxos

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Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

Orgulhosos e egoístas, nos recusamos a fazer aquilo que nos liberta da mágoa e da insensatez.
Nunca houve no mundo tantas igrejas, tantas religiões, tantas seitas… Só seguidores da Bíblia, com destaque para o Evangelho do Senhor Jesus, há em nosso país inúmeras, com as mais variadas e exóticas denominações, que são concorrentes sem jamais se completarem. Cada uma com sua doutrina “à la carte”, pregando o que lhe convém. Seus líderes analisam a situação do país e cada membro de sua igreja é apologista de seus pontos de vista, usando o mesmo templo para enaltecer-se e para denegrir o desafeto. Para os amigos, as benesses; para os adversários a calúnia, a crítica mordaz e a ofensa. A minha religião salva e as dos outros conduzem-nos ao inferno. Ou vem para a minha ou está perdido; só ela detém o monopólio da salvação!
Quando analisam os políticos, aí, então, a cegueira e a incoerência são brutais. O partido de um é o único que vai fazer progredir os países e o mundo. Vivemos de PIB e superávit na balança comercial. E ai do adversário que fez algo errado, perdendo-se no cargo para o qual foi eleito. Será execrado sem direito a defender-se. Aí serão incluídos seus amigos, mesmo os que são corretos, e sua família até a última geração.
E nós, os espíritas, como nos comportamos diante desses fatos? Parece-me que exatamente como todos os demais. Não consigo perceber diferença quando se trata de análises e comparações. Um erro de um político do partido do outro e jogamos sobre ele toda a nossa ira.
Mas, qual deveria ser nossa conduta, se realmente nos norteássemos pelo Evangelho? Como resposta, citamos algumas orientações de Jesus, a quem tanto admiramos e temos como Guia e Modelo Maior: “Ama o próximo como a ti mesmo.” “Não julgue pra não ser julgado.” “Perdoa setenta vezes sete.” “Faça aos outros o que gostaria que eles lhe fizessem em situação semelhante.” “Com a mesma vara que medirdes, sereis medidos.” “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei.”
E, no Espiritismo, no Evangelho escrito por Allan Kardec, há ainda uma recomendação de caridade com os criminosos (Cap. XI, item 14) e prece por um criminoso (Cap. XXVIII). Nossa atitude, porém, é totalmente contrária a tais recomendações. Com isso, somos obrigados a refletir sobre outra importante recomendação de Jesus: “Atire a primeira pedra aquele que estiver sem pecado.”
No Cap. XI, item 14, lê-se ainda: “A verdadeira caridade não consiste apenas na esmola que damos, nem mesmo nas palavras de consolação com as quais as acompanhemos. Não é isso apenas que Deus exige de nós. A caridade sublime ensinada por Jesus, consiste também na benevolência constante para com o próximo.” Palavras que perdoam e incentivam também são caridade.
Os criminosos devem ficar sem punição? Esta é uma afirmativa que não fizemos. Cumpra-se a lei. Mas que ela parta de uma justiça institucionalizada, justa, lícita, imparcial e sem interesses escusos e não do julgamento de pessoas tão ou mais levianas do que o réu e que ao julgar defendem, por detrás, interesses escusos. Nenhum de nós passa pelo crivo da razão quando julgados por nossos atos ou pensamentos. Temos consciência pesada e só não aplicamos golpes para levar vantagens e ficar em evidência por medo ou incompetência. Não é, certamente, por honestidade; quer diante de nós, diante do próximo ou diante de Deus. Para orientação e confirmação, leiam no livro O Céu e o Inferno a mensagem do espírito José Bré, que é autoexplicativa.
O discípulo Pedro, em sua epístola 1, 4:8, ensinou: “Acima de tudo, porém, tende amor intenso uns pelos outros, porque o amor cobre multidão de pecados.” Paulo, na epístola aos Gálatas, 5:20, condena falhas da carne e os pecados das “discórdias, dissensões e facções”. Já lá no Velho Testamento, em Provérbios, 10:12, está dito: “O ódio excita contendas, mas o amor cobre todas as transgressões.”
Textos, lições, orientações nunca nos faltaram. O problema é que somos cabeça dura e, por ser orgulhosos e egoístas, nos recusamos a fazer aquilo que nos liberta da mágoa e da insensatez. Por mais emissários que o Plano Divino envie ao planeta, são sempre insuficientes para que vençamos nossas turras e nos livremos dos atrasos. Por isso a reforma planetária, que já está próxima, virá do Alto, de fora, e não das massas desta humanidade fracassada, que precisa ser mais uma vez substituída. Sejam quem forem os nossos governantes, não passam de uma plêiade de equivocados. Não veem um palmo adiante do nariz. Não são diferentes de nós nem uns dos outros. Como diz o povo, “somos todos farinha do mesmo saco”. De batina, fardados ou à paisana; de fala mansa ou austera. E, lamentavelmente, nós também! O mundo não é composto de melhores. Por enquanto, apenas de piores. O fogo que está queimando as matas e sufocando a vida no planeta é o mesmo que vem incinerando as nossas almas. Viram por que estamos num despenhadeiro sem volta? Nossas ações não condizem com a nossa “fé”!
Perdoa-nos, Senhor, por mais este fracasso e tenha piedade de nós! E que sejamos resignados diante das nossas dores.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – março 2020

Saber e proceder

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dia a dia    Octavio Caumo Serrano

Entre nós, os espíritas, há por vezes certo complexo de superioridade quando falamos dos assuntos espirituais. Por termos uma avalanche de informações, lógicas, sensatas, racionais, vivemos apregoando a nossa sabedoria, menosprezando os de outras doutrinas, especialmente os que não aceitam a reencarnação.

Ao ouvir certas conversas, vem-me à mente lições de Jesus, que diz que mais será pedido a quem mais foi dado. Portanto, o saber desacompanhado da ação é inútil e esse será mais cobrado do que o ateu.

Desde que o mundo é mundo, há os que têm mais conhecimento que outros. É o degrau de entendimento que cada um já atingiu. Aprendamos que antes de menosprezar ou criticar o que sabe menos, tentemos aprender com quem sabe mais e ter paciência com os que ainda não têm o mesmo entendimento. Sempre haverá alguém acima e alguém abaixo de nós.

Algo que jamais devemos perder de vista é que o próximo é vital em nossa vida, em todos os momentos. É o instrumento que nos permite praticar a caridade ou nos beneficiarmos dela, conforme situações e circunstâncias. Nada é absolutamente certo e definitivo. Mesmo a nossa verdade é provisória e varia com as situações. Hoje pode ser, mas amanhã estará desatualizada, porque tudo muda de um átimo para outro neste mundo extremamente dinâmico.

Quando incorporarmos este entendimento, seremos menos radicais e cobraremos menos dos outros e mais de nós. Censuramos os erros alheios, mas ignoramos o esforço que fazem para acertar. E muitas vezes até estão corretos sem que nós percebamos por que só entendemos o certo da nossa maneira. Por isso há tantas profissões, tantas religiões e tantos partidos políticos. Um dia, quando crescermos espiritualmente, caberemos todos no mesmo núcleo. O do amor e da verdade. Esta será a linguagem universal!

A grande advertência que cabe, porém, para todos os espíritas está numa frase de Buda: “Não há iluminação sem transformação.” Assim como religiosos de outras doutrinas conhecem de cor e salteado os capítulos e versículos do Evangelho (que para eles é simplesmente Bíblia), há espíritas que conhecem a biografia de ilustres emissários enviados a nós por intermédio do Espiritismo (Bezerra, Chico, Eurípedes e dezenas mais) além da vida de Kardec e Amelie, incluindo obra, encantos e desencantos. Admiram a capacidade que Kardec teve para testemunhar Jesus, rompendo inclusive, embora por vezes circunstancialmente, com o mundo material. Foi absolutamente cristão em detrimento de ideais que plantou por muito tempo, preparando-se inclusive no exterior. Mas somos apenas conhecedores; nada disso vivemos nem os tomamos para reproduzi-los em nossas vidas. Entramos e saímos do centro por décadas e somos sempre o mesmo cristão teórico que jamais se transforma, mas quer ser iluminado pela misericórdia divina.

O merecimento do que fazemos e vivemos virá do plano divino. De nada adianta sermos adorados pelos homens que nos chamam de missionários se para nada nossa missão se aproveita. Nem para exemplo de estímulo aos que nos rodeiam. Embora não devamos valorizar a glória transitória dos homens, nunca esqueçamos que a justiça de Deus mede todos com a mesma vara, Independente de nacionalidade, classe social ou religião.

Cuidemos, portanto, da nossa iluminação sem falsas ilusões; a cada um segundo suas obras.

Kardec ao chegar na espiritualidade naquela tarde de 31/3/1869 deu depoimento dizendo ter sido muito bem recebido e que o plano da erraticidade é exatamente como ele havia estudado e divulgado em sua encarnação, concitando-nos a prosseguir de maneira destemida e constante. Obrigado, caro irmão, pelo seu legado à humanidade.

Jornal O Clarim – março 2020

Permaneçamos Fiéis

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Walkiria Lucia Araujo Cavalcante 

“Além disso, requer-se nos despenseiros que cada  um se ache fiel”[1]

Um dia, a luz do esclarecimento doutrinário adentrou-nos a porta mental. Fomos convidados a compreender melhor o que nos acontecia. A mensagem de amor começou a nos fazer sentido, pois nos falava de um Reino de Deus que começava desde agora, em nós.

Os dias foram se passando, as tribulações ora diminuindo, ora se avolumando, em outros momentos, tomando novos contornos. Vimos companheiros da Seara Espírita desertarem. Afirmarem que ainda não estavam no momento e preferirem “momento mais propício” para abraçarem as tarefas. Como se a obra de renovação individual pudesse ser adiada. Mais uma vez, o orgulho e o egoísmo batem à porta da criatura e não permite que ela enxergue o seu papel no todo e a responsabilidade consigo mesma.

Temos a tendência em observar muito mais o que nos incomoda do que as coisas boas que nos afagam o espírito. “Com efeito, experimenta mais desconserto emocional que bem-estar, quando poderia deter-se nas expectativas otimistas, nas evocações agradáveis, bendizendo a vida e agradecendo-a.”[2] Doenças, reveses financeiros, familiares que não nos compreendem a mudança de conduta e a permanência nesta mudança, companheiros de ideal que procuram minar o trabalho, colegas de trabalho que boicotam o que estamos realizando, tudo corresponde e empecilhos daqueles que estão encarnados e que buscam o processo evolutivo.

Não são “castigos de Deus” ou algo parecido, fazem parte desse processo de ajuste moral individual e coletivo que todos vivenciamos. Os atuais “Coaching” utilizam-se de Jesus como modelo (vejam que muitos não são espíritas e nem tão pouco tem conhecimento da questão 625 de O Livro dos Espíritos)[3] para nos mostrar que nos retroalimentamos de energia individual para prosseguirmos diante dos objetivos almejados. Por exemplo: se desejamos um emprego, não importa o que os outros estejam dizendo, deveremos traçar um objetivo, criarmos um ambiente propício e utilizarmos das ferramentas que temos para chegarmos lá, somando a isto persistência e autodeterminação.

Assim, também o é com relação a evolução da criatura humana e aos trabalhos abraçados na lide espírita. Sem precisarmos de buscar em outras paragens, Jesus nos apresenta como deveremos agir. Trouxe-nos a época, a figura de doze apóstolos, criaturas que representavam doze tipos que nos identificamos, mais Paulo de Tarso que mais tarde veio a ser o décimo terceiro apóstolo, o que viria a ser o divulgador de sua mensagem por todos os povos.

“Não obstante os erros que ainda nos assinalem o coração, sejamos sinceros em nós mesmos e estejamos decididos a cumprir o dever que possamos, diante de consciência. Desistamos de alegar tropeços e culpas, inibições e defeitos para a fuga das responsabilidades que nos competem.”[4] Se esperarmos o momento propício ou sermos perfeitos para atuarmos na Seara Espírita, esperaremos muito tempo para começarmos o trabalho. Seremos iguais as criaturas queixosas que reclamam que as coisas não estão boas e creditam aos espíritos a responsabilidade dos seus sofrimentos. Somos responsáveis por nós mesmos. Se não estamos felizes pelo que estamos vivenciando agora, mudemos a nossa conduta para podermos colher algo diferente.

Sendo um processo interno, em primeiro lugar, mudemos de atitude mental, transformando em atitudes externas o que se passa no nosso mundo interior. “Evidentemente, existem provas e expiações que devem ser experienciadas, porque são resultado de comportamentos irregulares em existências passadas. Apesar disso, a disposição para ser feliz, para utilizar-se bem do recurso reeducativo, raramente é aceita, mais complicando o desempenho do que o solucionando.”[5]

Não estamos sozinhos neste processo de reeducação. Se falhos como somos, ao arbitrarmos uma corrigenda a um educando nosso observamos e orientamos a ele, Deus que é nosso Pai Amoroso iria fazer diferente? Através de seus emissários nos acompanha de perto, nos ampara e orienta para o sucesso da obra empreendida. Mas cabe a nós escolhermos nos esforçarmos ou não. Alguém já disse com propriedade: crescer dói. Sendo verdade tal afirmação. Precisamos sair da nossa zona de conforto, com o que já nos acostumamos e principalmente: da posição cômoda de vítimas.

Temos a oportunidade bendita de estarmos encarnados agora. Quantos estão clamando por este momento, aguardando que mães amorosas acolham em seu ventre estas criaturas? Se nos equivocamos, refaçamos o caminho. Se nos afastamos de alguma maneira do ideal já abraçado, voltemos aos hábitos felizes, passo a passo. Se não podemos mais refazer os laços de amor com as criaturas porque a ofensa foi avultosa ou os laços do desencarne nos alcançaram, esperemos o momento propício, pois Deus que possuí a Suprema Inteligência nos conduzirá a todos a conciliação. Somos filhos bem-amados do mesmo Pai, que nos conduz a todos rumo a perfeição. Permaneçamos fiéis.

Jornal O Clarim – março 2020

[1] Paulo. (I CORINTIOS, 4:2.)

[2] Libertação do Sofrimento, psicografia de Divaldo Franco, autoria espiritual de Joanna de Ângellis, cap. 30 – Enquanto é Oportuno

[3] Jesus é o modelo e guia mais perfeito que Deus ofereceu a humanidade

[4] Livro Palavras de Vida Eterna, psicografia de Chico Xavier, autoria espiritual Emmanuel, cap. 124 – Permaneçamos Fiéis

[5] Libertação do Sofrimento, psicografia de Divaldo Franco, autoria espiritual de Joanna de Ângellis, cap. 30 – Enquanto é Oportuno