Walkiria Lucia Araujo Cavalcante 

“Além disso, requer-se nos despenseiros que cada  um se ache fiel”[1]

Um dia, a luz do esclarecimento doutrinário adentrou-nos a porta mental. Fomos convidados a compreender melhor o que nos acontecia. A mensagem de amor começou a nos fazer sentido, pois nos falava de um Reino de Deus que começava desde agora, em nós.

Os dias foram se passando, as tribulações ora diminuindo, ora se avolumando, em outros momentos, tomando novos contornos. Vimos companheiros da Seara Espírita desertarem. Afirmarem que ainda não estavam no momento e preferirem “momento mais propício” para abraçarem as tarefas. Como se a obra de renovação individual pudesse ser adiada. Mais uma vez, o orgulho e o egoísmo batem à porta da criatura e não permite que ela enxergue o seu papel no todo e a responsabilidade consigo mesma.

Temos a tendência em observar muito mais o que nos incomoda do que as coisas boas que nos afagam o espírito. “Com efeito, experimenta mais desconserto emocional que bem-estar, quando poderia deter-se nas expectativas otimistas, nas evocações agradáveis, bendizendo a vida e agradecendo-a.”[2] Doenças, reveses financeiros, familiares que não nos compreendem a mudança de conduta e a permanência nesta mudança, companheiros de ideal que procuram minar o trabalho, colegas de trabalho que boicotam o que estamos realizando, tudo corresponde e empecilhos daqueles que estão encarnados e que buscam o processo evolutivo.

Não são “castigos de Deus” ou algo parecido, fazem parte desse processo de ajuste moral individual e coletivo que todos vivenciamos. Os atuais “Coaching” utilizam-se de Jesus como modelo (vejam que muitos não são espíritas e nem tão pouco tem conhecimento da questão 625 de O Livro dos Espíritos)[3] para nos mostrar que nos retroalimentamos de energia individual para prosseguirmos diante dos objetivos almejados. Por exemplo: se desejamos um emprego, não importa o que os outros estejam dizendo, deveremos traçar um objetivo, criarmos um ambiente propício e utilizarmos das ferramentas que temos para chegarmos lá, somando a isto persistência e autodeterminação.

Assim, também o é com relação a evolução da criatura humana e aos trabalhos abraçados na lide espírita. Sem precisarmos de buscar em outras paragens, Jesus nos apresenta como deveremos agir. Trouxe-nos a época, a figura de doze apóstolos, criaturas que representavam doze tipos que nos identificamos, mais Paulo de Tarso que mais tarde veio a ser o décimo terceiro apóstolo, o que viria a ser o divulgador de sua mensagem por todos os povos.

“Não obstante os erros que ainda nos assinalem o coração, sejamos sinceros em nós mesmos e estejamos decididos a cumprir o dever que possamos, diante de consciência. Desistamos de alegar tropeços e culpas, inibições e defeitos para a fuga das responsabilidades que nos competem.”[4] Se esperarmos o momento propício ou sermos perfeitos para atuarmos na Seara Espírita, esperaremos muito tempo para começarmos o trabalho. Seremos iguais as criaturas queixosas que reclamam que as coisas não estão boas e creditam aos espíritos a responsabilidade dos seus sofrimentos. Somos responsáveis por nós mesmos. Se não estamos felizes pelo que estamos vivenciando agora, mudemos a nossa conduta para podermos colher algo diferente.

Sendo um processo interno, em primeiro lugar, mudemos de atitude mental, transformando em atitudes externas o que se passa no nosso mundo interior. “Evidentemente, existem provas e expiações que devem ser experienciadas, porque são resultado de comportamentos irregulares em existências passadas. Apesar disso, a disposição para ser feliz, para utilizar-se bem do recurso reeducativo, raramente é aceita, mais complicando o desempenho do que o solucionando.”[5]

Não estamos sozinhos neste processo de reeducação. Se falhos como somos, ao arbitrarmos uma corrigenda a um educando nosso observamos e orientamos a ele, Deus que é nosso Pai Amoroso iria fazer diferente? Através de seus emissários nos acompanha de perto, nos ampara e orienta para o sucesso da obra empreendida. Mas cabe a nós escolhermos nos esforçarmos ou não. Alguém já disse com propriedade: crescer dói. Sendo verdade tal afirmação. Precisamos sair da nossa zona de conforto, com o que já nos acostumamos e principalmente: da posição cômoda de vítimas.

Temos a oportunidade bendita de estarmos encarnados agora. Quantos estão clamando por este momento, aguardando que mães amorosas acolham em seu ventre estas criaturas? Se nos equivocamos, refaçamos o caminho. Se nos afastamos de alguma maneira do ideal já abraçado, voltemos aos hábitos felizes, passo a passo. Se não podemos mais refazer os laços de amor com as criaturas porque a ofensa foi avultosa ou os laços do desencarne nos alcançaram, esperemos o momento propício, pois Deus que possuí a Suprema Inteligência nos conduzirá a todos a conciliação. Somos filhos bem-amados do mesmo Pai, que nos conduz a todos rumo a perfeição. Permaneçamos fiéis.

Jornal O Clarim – março 2020

[1] Paulo. (I CORINTIOS, 4:2.)

[2] Libertação do Sofrimento, psicografia de Divaldo Franco, autoria espiritual de Joanna de Ângellis, cap. 30 – Enquanto é Oportuno

[3] Jesus é o modelo e guia mais perfeito que Deus ofereceu a humanidade

[4] Livro Palavras de Vida Eterna, psicografia de Chico Xavier, autoria espiritual Emmanuel, cap. 124 – Permaneçamos Fiéis

[5] Libertação do Sofrimento, psicografia de Divaldo Franco, autoria espiritual de Joanna de Ângellis, cap. 30 – Enquanto é Oportuno