dia a dia    Octavio Caumo Serrano

Entre nós, os espíritas, há por vezes certo complexo de superioridade quando falamos dos assuntos espirituais. Por termos uma avalanche de informações, lógicas, sensatas, racionais, vivemos apregoando a nossa sabedoria, menosprezando os de outras doutrinas, especialmente os que não aceitam a reencarnação.

Ao ouvir certas conversas, vem-me à mente lições de Jesus, que diz que mais será pedido a quem mais foi dado. Portanto, o saber desacompanhado da ação é inútil e esse será mais cobrado do que o ateu.

Desde que o mundo é mundo, há os que têm mais conhecimento que outros. É o degrau de entendimento que cada um já atingiu. Aprendamos que antes de menosprezar ou criticar o que sabe menos, tentemos aprender com quem sabe mais e ter paciência com os que ainda não têm o mesmo entendimento. Sempre haverá alguém acima e alguém abaixo de nós.

Algo que jamais devemos perder de vista é que o próximo é vital em nossa vida, em todos os momentos. É o instrumento que nos permite praticar a caridade ou nos beneficiarmos dela, conforme situações e circunstâncias. Nada é absolutamente certo e definitivo. Mesmo a nossa verdade é provisória e varia com as situações. Hoje pode ser, mas amanhã estará desatualizada, porque tudo muda de um átimo para outro neste mundo extremamente dinâmico.

Quando incorporarmos este entendimento, seremos menos radicais e cobraremos menos dos outros e mais de nós. Censuramos os erros alheios, mas ignoramos o esforço que fazem para acertar. E muitas vezes até estão corretos sem que nós percebamos por que só entendemos o certo da nossa maneira. Por isso há tantas profissões, tantas religiões e tantos partidos políticos. Um dia, quando crescermos espiritualmente, caberemos todos no mesmo núcleo. O do amor e da verdade. Esta será a linguagem universal!

A grande advertência que cabe, porém, para todos os espíritas está numa frase de Buda: “Não há iluminação sem transformação.” Assim como religiosos de outras doutrinas conhecem de cor e salteado os capítulos e versículos do Evangelho (que para eles é simplesmente Bíblia), há espíritas que conhecem a biografia de ilustres emissários enviados a nós por intermédio do Espiritismo (Bezerra, Chico, Eurípedes e dezenas mais) além da vida de Kardec e Amelie, incluindo obra, encantos e desencantos. Admiram a capacidade que Kardec teve para testemunhar Jesus, rompendo inclusive, embora por vezes circunstancialmente, com o mundo material. Foi absolutamente cristão em detrimento de ideais que plantou por muito tempo, preparando-se inclusive no exterior. Mas somos apenas conhecedores; nada disso vivemos nem os tomamos para reproduzi-los em nossas vidas. Entramos e saímos do centro por décadas e somos sempre o mesmo cristão teórico que jamais se transforma, mas quer ser iluminado pela misericórdia divina.

O merecimento do que fazemos e vivemos virá do plano divino. De nada adianta sermos adorados pelos homens que nos chamam de missionários se para nada nossa missão se aproveita. Nem para exemplo de estímulo aos que nos rodeiam. Embora não devamos valorizar a glória transitória dos homens, nunca esqueçamos que a justiça de Deus mede todos com a mesma vara, Independente de nacionalidade, classe social ou religião.

Cuidemos, portanto, da nossa iluminação sem falsas ilusões; a cada um segundo suas obras.

Kardec ao chegar na espiritualidade naquela tarde de 31/3/1869 deu depoimento dizendo ter sido muito bem recebido e que o plano da erraticidade é exatamente como ele havia estudado e divulgado em sua encarnação, concitando-nos a prosseguir de maneira destemida e constante. Obrigado, caro irmão, pelo seu legado à humanidade.

Jornal O Clarim – março 2020