Para os colaboradores de centros espíritas; uma advertência.

Começamos nosso trabalho de expositor do Espiritismo lá pelos idos de 1973. Falávamos cinco vezes por semana para diferentes públicos em várias instituições de São Paulo.

Ao terminar o ano com uma classe, um aluno veio conversar conosco e argumentou: – Sabe, professor. Agora que terminou o curso, não venho mais às quintas-feiras. Passarei a vir apenas às segundas porque pretendo dar somente um dia para o Espiritismo. Afinal, tenho outros compromissos com a família e dando um dia já está bom. O senhor concorda?

– Claro meu caro confrade. Mas confesso-lhe que estou decepcionado… – Comigo? – Não, meu caro; comigo mesmo. A única coisa que me incomoda e mostra a minha incompetência é como pude dar aula para você durantes três anos e não consegui lhe informar corretamente o que é um trabalhador espírita. Não lhe expliquei que nada damos ao Espiritismo, porque ele é que tudo nos dá, a ponto de aceitar que sejamos participantes de sua doutrina apesar da nossa pouca capacidade, incompetência, pretensão e indisciplina. Não damos ao Espiritismo, nem a Jesus, a Deus, aos Espíritos ou à instituição que nos forma para o trabalho. Tudo o que damos é somente a nós e à nossa consciência que damos. Nossa prestação de contas não é com Deus, mas conosco mesmos. Deus não perdoa nem castiga; Ele fez a Lei e convidou-nos a viver mergulhados nela. O resto é decidido pelo nosso livre-arbítrio.

Por esse pouco entendimento é que raríssimas vezes encontramos trabalhadores espíritas comprometidos com a causa, já que nem se comprometem com a casa. A festa, o passeio, a visita, o feriado, a tv, ganham sempre do compromisso que o trabalhador assumiu, espontaneamente, com a instituição que frequenta. A garoa, o cansaço ou a preguiça, a indisposição física, ainda que ligeira, o trânsito, são argumentos poderosos para justificar a ausência no trabalho do centro. Mas oram pedindo ajuda e cura, invocando a fé que dizem ter; repetem o pedido de passes intensamente, querendo soluções milagrosas e imerecidas pelo comportamento. E note-se que a participação é de uma a duas vezes por semana! Somos frequentadores de centro espírita e, equivocadamente, nos julgamos Espíritas.

Não sei lhes informar que repercussão teve nosso argumento no dito “trabalhador”. Mas ele depois disso ficou informado um pouco mais sobre o que é ser espírita. Pena que a maioria que tem contato com este tipo de informação se rebela e se aborrece; detestam ser cobrados, embora o dirigente, como guardião da doutrina no seu Centro, tenha o dever de alertar as pessoas quanto ao seu comportamento descompromissado. Julgam-se, por ser colaborador voluntário e “gratuito”, com o direito de fazer o que lhes apraz, da maneira que mais gostam.  Por isso que há os que em vez de ser trabalhadores espíritas são atrapalhadores do Espiritismo. De minha parte, esforço-me para não ser mais um desses!

Jornal O Clarim – abril de 2020