Walkiria Lucia 

“Dissemos que o Espiritismo é toda uma ciência, toda uma filosofia. Quem, pois, seriamente queira conhecê-lo deve, como primeira condição, dispor-se a um estudo sério e persuadir-se de que ele não pode, como nenhuma outra ciência, ser aprendido a brincar. O Espiritismo, também já o dissemos, entende com todas as questões que interessam a Humanidade; tem imenso campo, e o que principalmente convém é encará-lo pelas suas consequências. Formar-lhe sem dúvida a base a crença nos Espíritos, mas essa crença não basta para fazer de alguém um espírita esclarecido, como a crença em Deus não é suficiente para fazer de quem quer que seja um teólogo.”[1]

Para se adentrar em qualquer ciência, necessário se faz debruçar-se sobre ela. Conhecer seus por menores para depois fazer-se juízo de valor sobre o que ela promana. Dizer que algo não é salutar só por se ouvir falar não é lógico nem plausível ao mundo dos adultos, deveremos, pelo menos, demonstrar que algo existe de melhor como solução para o problema apresentado.

A Doutrina Espírita surge não como uma informação nova, mas como uma forma nova de enxergar velhos fatos que ocorriam e que as pessoas intitulavam como maravilhosos, fantásticos ou provindos de entidades satânicas. As almas dos que já partiram mostram-nos que eles conviveram conosco e que continuam existindo, com outra roupagem, não detectável ao olho humano, mais perceptível as criaturas mais sensíveis.

Mas falar de alma a criaturas que só acreditam no palpável é o mesmo que tentar trazer luz aos que não desejam enxergar. São os que o Livro dos Médiuns[2] intitulam de materialistas por sistema. O são pelo absoluto desejo de negação. Só enxergam o que desejam enxergar, nada mais bastando que o seu pensamento, não permitem-se ver algo mais que o que o seu raciocínio orienta. São em menor número.

A segunda classe são o que o livro intitula dos que por falta de melhor negam a existência de algo que eles não possam tocar. Estes são em maior número e são mais fáceis de serem convencidos, pois desejam acreditar, só não lhes foi apresentado algo convincente o suficiente para isso. Tão logo seja apresentado, eles se convencem.

Excetuando os materialistas desta listagem existem outras classificações que o livro nos apresenta. Mais a partir do momento que a criatura passa a admitir a existência de Deus, que temos uma alma e que continuamos existindo após a morte[3] partimos de provas palpáveis para o desenvolvimento do raciocínio da criatura encarnada. Pois o nosso estado natural não é o encarnado, mas o de criatura errante.

Assim, as experiências vivenciadas no mundo de relação servem para corroborar o conhecimento adquirido de alma imortal que somos. Desenvolvendo em nós um desejo incessante de evoluirmos rumo a perfeição relativa e chegarmos a condição de espíritos puros. Mas só conseguiremos tal feito através de um estudo aclarado e metódico.

Ninguém chega ao cume da montanha sem ter estudado antes a constituição geológica da mesma, o tempo, o melhor período do ano para fazer a travessia e quais serão os companheiros de empreitada. Assim também é a encarnação. Assim também é com relação ao conhecimento espírita ou qualquer outro conhecimento que desejemos dominar como ciência de vida: aprendamos como se processa, saibamos como se expressa, quais suas nuanças e observemos com os mais experientes os seus exemplos, inclusive dos seus erros, para podermos aprender.

Sem método, nos permitiremos guiar por qualquer um que nos pegue nas mãos e nos leve. Seremos iguais cegos que ao atravessarmos uma rua pediremos ajuda a quem estiver ao nosso lado. Se for alguém de boa vontade, nos ajudará a fazer a travessia com segurança, mas se não, poderá nos abandonar no meio do caminho, ao sabor das nossas amarguras. O conhecimento liberta e o método nos encaminha pela estrada correta do aprendizado.

Jornal O Clarim maio 2020

[1] Livro dos Médiuns, capítulo III

[2] Livro dos Médiuns, capítulo III, item 20

[3] Livro dos Médiuns, capítulo I, item 4