Walkiria Lucia Araujo Cavalcante

“Na acepção etimológica, a palavra milagre (de mirari, admirar) significa: admirável, coisa extraordinária, surpreendente. A Academia definiu-a deste modo: Um ato do poder divino contrário às leis da Natureza, conhecidas. Na acepção usual, essa palavra perdeu, como tantas outras, a significação primitiva. De geral, que era, se tornou de aplicação restrita a uma ordem particular de fatos. No entender das massas, um milagre implica a ideia de um fato extranatural; no sentido teológico, é uma derrogação das leis da Natureza, por meio da qual Deus manifesta o seu poder. Tal, com efeito, a acepção vulgar, que se tornou o sentido próprio, de modo que só por comparação e por metáfora a palavra se aplica às circunstâncias ordinárias da vida.”[1]

 

Jesus é Aquele que nos ensinou que não iria derrogar as Leis, mas fazer cumpri-las, como então, ele produziria milagres no sentido teológico da palavra? Deparamo-nos aqui, como em outros momentos da vida de Jesus, com atos que a ciência comum não conseguia explicar e trazia um sentido sobrenatural que fazia calar as massas e evitar especulações exigindo deles explicação sobre o que eles mesmos não conheciam ou não desejavam conhecer.

A questão do conhecimento da Lei de é facultada a todos nós o que nos diferencia é o seu conhecimento[2]. Que é aprofundado na proporção do que avançamos na senda evolutiva da perfeição. Jamais um professor exigirá um conhecimento de física avançada a um estudante iniciante da matéria, mas para ele chegar ao final do processo necessitou aprender as quatro funções básicas da matemática.

Isto significa outro ponto importante. A ciência e a religião andam de mãos dadas. Não existe separação entre as duas. “A Ciência e a Religião são as duas alavancas da inteligência humana: uma revela as leis do mundo material e a outra as do mundo moral. Tendo, no entanto, essas leis o mesmo princípio, que é Deus, não podem contradizer-se. Se fossem a negação uma da outra, uma necessariamente estaria em erro e a outra com a verdade, porquanto Deus não pode pretender a destruição de sua própria obra.”[3]. A imutabilidade e a inderrogabilidade traz-nos a estabilidade e a harmonia Universal. Assim sendo, a criatura cria bases sólidas no processo evolutivo.

A mediunidade que não é objeto único da doutrina espírita serve como mecanismo para trazer luz ao que parecia sobrenatural. Desmistifica as curas como um processo de transfusão de fluidos partindo-se dos efeitos para as causas, chegamos a origem dos fenômenos, trazendo-nos a certeza que a comunicabilidade nada mais é que um fato natural ocorrido de mente a mente entre as criaturas ditas mortas e os encarnados. Que vem nos provar mais uma vez que não há derrogação da Lei, mas o cumprimento dela em sua maior pureza.

Outros alegam nos fatos da mediunidade o charlatanismo. Nunca dissemos que a mediunidade não possa ser falseada, sempre solicitamos que os fenômenos fossem estudados para que houvesse uma separação do joio e do trigo, do falso e do verdadeiro, da mentira e da verdade. O embuste permeia a existência humana, mas a criatura desonesta só falseia o que é verdadeira, principalmente aquilo que gera respeito na criatura, mas que a mesma ainda não detém os meandros de sua execução. Parte-se de um princípio verdadeiro, justo e correto para falsear e levar-se vantagem sobre ele.

Mesmo nos tempos atuais, os fenômenos espíritas, em sua grande maioria, são espontâneos. Constamos, em muitas situações, com o detalhamento realizado por parte dos médiuns sobre os fatos, que eles jamais tiveram acesso anteriormente. Desconheciam a existência dos personagens e em alguns dos casos, tais situações fogem a realidade vivida atualmente. A inconsciência é outro fator a ser destacado. Mas, mesmo que tudo isto não fosse objeto de convencimento, imaginemos que Deus iria criar toda uma estrutura Universal, obra gigantesca, para depois modificar pequenas partes ao sabor do bel prazer? “Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.”[4]

Como a inteligência suprema iria ter ideias menores diante do todo? Como Ele iria mudar Sua Lei para beneficiar este ou aquele? Ele Justo e Bom para todos, fazendo-nos que estejamos imiscuídos na mesma Lei, diante das mesmas situações para termos as mesmas possibilidades de escolhas. Não há milagres, somente desconhecimento, ainda, da Lei. Pouco a pouco o véu do esquecimento se desvalerá da nossa visão espiritual e conseguiremos deslumbrar o que ainda não vemos com os olhos do espírito imortal.

Jornal O Clarim – junho de 2020

[1] Livro A Gênese, capítulo XIII, item 1

[2] Livro dos Espíritos, questão 619

[3] Livro Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo I, item 8

[4] Livro dos Espíritos, questão 1