Walkiria Lucia Araujo Cavalcante

“Não tornando mal por mal, ou injúria por injúria; antes, pelo contrário, bendizendo; sabendo que para isto fostes chamados, para que por herança alcanceis a bênção. Porque quem quer amar a vida e ver os dias bons, refreie a sua língua contra o mal, E os seus lábios não falem engano.”[1]

Estarmos encarnados é uma sublime oportunidade de aplicarmos o entendimento que a doutrina espírita nos faculta através da pluralidade das encarnações, sendo também esta pluralidade que nos proporciona divisarmos a explicação de fatos que não teríamos como entender se não fosse a explicação dada por ela.

Um dos capítulos que somente a pluralidade nos faculta o entendimento é o contido em o Evangelho Segundo o Espiritismo, intitulado Bem-aventurados os que são brandos e pacíficos (IX). Porque num mundo em que o convite é a agressão pela agressão, injúria por injúria, calúnia por calúnia, ser brando e pacífico é um verdadeiro insulto para os adeptos do revide.

Entendendo que não estamos situados no círculo que nos vinculamos por acaso, vivenciando as experiências que ora vivenciamos, estamos num processo evolutivo que nos leva a perfeição e nos eleva a patamares superiores, mas que precisamos ultrapassar barreiras que não são externas e sim internas, para chegarmos onde desejamos.

Não agredirmos a quem nos agride constitui-se na primeira vitória sobre nós mesmos. Pois, o primeiro impulso é de reagirmos e não de agirmos. Mas a racionalidade espírita nos convoca ao pensamento que bendizer antes de agredir é o melhor remédio. Entendendo que o outro está doente por nos agredir, deveremos usar as técnicas que temos, assim como se estivéssemos num hospital atendente a um doente que nos chegasse, usando das medidas de contenção necessária, sem nos permitir abalar por ele. Este era o primeiro ponto a ser destacado.

Após, entender o que esta mensagem educativa/expurgativa tem a nos trazer como tratado de modificação em nossas vidas. Pois se já aprendemos que tudo que nos acontece é com um fim de melhoramento, que possamos melhorar para não termos que repetir a lição quantas vezes forem necessárias. Assimilado isto, o terceiro passo será como a minha conduta se pautará daquele momento em diante. Pois, deverá ocorrer uma mudança.

Mas, mesmo eu sendo o agredido e injuriado, terei que mudar? A resposta sem contradita é sim. Porque a nossa forma de ver a vida e de nos comportar perante ela está fora de sintonia e precisa ser readequada. Não significa que a injúria ou agressão foi correta, mas que serviu para que nós observássemos o nosso proceder o voltássemos o olhar para nós mesmos e inclusive como estávamos nos tratando. Não é o que o outro nos fez, mas o que iremos fazer com aquilo que o outro nos fez. É bem diferente.

Criaturas em desalinho moral, que ainda estagiam na infantilidade do ser existem convivendo com aqueles que estão mais avançados no processo de entendimento, que já saíram do patamar do “eu” e que procuram enxergar o “nós” em tudo que fazem. Criaturas que se assemelham a seres bestiais, que inclusive assumem funções decisões e de influência sobre a vida de tantas vidas.

Mas se já assumimos alguns passos na escalada evolutiva, não importando pouco ou muito diferente que estejamos destas criaturas que agridem aos outros, mas que na verdade estão agredindo-se e negando-se a oportunidade de absorver o amor universal, que possamos adequar a nossa conduta ao entendimento que professamos.

Quando nos preocupamos muito com a caminhada e deixamos de observar o ponto de chegada passamos a muito valorizar as pedras do caminho. A rosa possui espinhos, mas possui também pétalas que poderiam ser catalogadas como um colar a envolver os espinhos. Tudo depende da forma como enxergamos o que nos é apresentado. Bendigamos sempre a oportunidade de evoluirmos. Da mesma maneira que alfinetes nos ferem, pedras nos são colocadas, e agressões bem-postas, deveremos refletir “… quantas vezes já observaste o socorro invisível ao que era tido em conta de mal irremediável”[2] Mãos amigas nos sustenta a caminhada e nos ajudam a prosseguir diante dos sofrimentos vivenciados, inclusive, as injúrias e as agressões recebidas.

O questionamento não é a justiça ou não do que estamos recebendo, mas a forma como agiremos perante eles. O convite a reflexão e ao entendimento se faz presente. Quando assumirmos a postura de bendizer como Pedro nos impulsiona na passagem, verificaremos que em tudo cabe uma mudança de conduta: em nós e nos outros. Todos evoluímos. Aquele que se constitui nosso algoz, um dia também enxergará tal mensagem, não importando sobre que bandeira ela venha e permitirá se envolver nesta onda de amor e de paz que a mensagem reflexiva doutrinária espírita nos envolve e engrandece, permitindo-nos mudar a sintonia e fazendo-nos compreender, o significado dos apodos dos diferentes gêneros que recebemos.

“Bem-aventurados os que são brandos, porque possuirão a Terra.” [3] “Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus.”[4] O Mestre nos promete a Terra da promissão pois os bens da terra são conquistados pelos poderosos da terra que desejam somente conquistar através da força e da violência. Fala-nos da filiação a Deus através de sermos pacíficos, pois esta é única maneira de alcançarmos o Reino de Deus em nós mesmos desde agora.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – julho 2020

[1] PEDRO. 3, vv 9 e 10.

[2] Livro: Palavras de Vida Eterna, psicografia Chico Xavier, autoria espiritual Emmanuel, capítulo 80 – Bendigamos

[3] MATEUS, cap. V, v. 4

[4] Id., v. 9.