Walkiria Lucia Araujo Cavalcante 

“Pergunta: Dissestes que seríeis para mim um guia, que me ajudaria e me protegeria; concebo essa proteção e o seu objetivo numa certa ordem de coisas, mas gostaríeis de me dizer se essa proteção se estende também às coisas materiais da vida? Resposta: Neste mundo, a vida material importa muito; não te ajudar a viver, seria não te amar.”[1]

Esta pergunta foi dirigida por Allan Kardec ao Espírito Verdade em meio a outras tantas que lhe eram feitas nos quinze minutos mensais que este nobre espírito lhe dedicava a responder questões adstritas a mensagem da codificação. Acordado este feito anteriormente[2] afim de ajudar ao codificador no transcurso do trabalho. Orientando, pedindo revisão e fazendo apontamentos para que o Mestre Lionês pudesse analisar o conteúdo.

Todo o trabalho de construção passa pela edificação da própria criatura humana. Engana-se quem observa à distância, que aqueles que colocam-se à frente de qualquer obra, que estes, também, não estejam passando por um processo de criação e edificação de si mesmos. Modificação de valores, solidificação de outros e absorção de tantos outros. A criatura edifica a obra edificando-se.

Neste processo, precisamos de apoio dos que nos amam. Amar enquanto tudo está conforme desejamos é muito fácil, compreende o difícil e ajudar a este a crescer, constitui-se no processo de evolução, nosso e do outro. Por isso, somos encarnados em pequenos grupos, as famílias. Para que esta proximidade nos ajude a entendermos melhor e nos colocarmos no lugar do outro. Não havendo esta proximidade, teríamos dificuldade de compreender os defeitos do outro e consequentemente de ajuda-lo.

Ao falarmos da Codificação da Doutrina Espírita, falamos de um trabalho de estruturação e modificação de parâmetros de vidas. Saímos do pequeno grupo familiar e nos associamos a criaturas que pensam conforme pensamos, mas que vieram normalmente com impressões de vida diferente das nossas e com as quais nos vinculamos com o propósito maior de divulgação da mensagem e modificação de nós mesmos. Buscamos apoio nos amigos espirituais no processo de aprendizado e nos momentos mais difíceis.

Assim também ocorreu com Kardec em sua vida particular, pois o mesmo em sua vida particular sofria transformações de todo gênero até por ele ser desacreditado por fazer um estudo científico da existência dos espíritos. E como todos nós, necessitava de amparo. Nisto surge a pergunta que encabeça o nosso texto, contendo uma das mais belas respostas que alguém que ama poderia dar a outra pessoa. Mas será que somente Kardec, em virtude do trabalho que executava, possuía a assistência de um espírito protetor? Será que nós, também não possuímos?

Há Espíritos que se liguem particularmente a um indivíduo para protegê-lo? ‘Há o irmão espiritual, o que chamais o bom Espírito ou o bom gênio.’”[3]Qual a missão do Espírito protetor? ‘A de um pai com relação aos filhos; a de guiar o seu protegido pela senda do bem, auxiliá-lo com seus conselhos, consolá-lo nas suas aflições, levantar-lhe o ânimo nas provas da vida.’”[4]

Sempre contamos com a ajuda e amparo de amigos que nos amam, desejam nosso bem e nos orientam no processo evolutivo. Sabem dos nossos defeitos e conhecem das nossas virtudes. Muitos destes, constituem a nossa família espiritual. Estimulam-nos a crescer e tem a paciência de esperar quando insistimos em fazer o errado, pois dia virá em que retornaremos ao caminho do bem, único que nos leva a perfeição.

Por mais que acreditemos que caminhamos sozinhos no processo de transformação de criaturas velhas em ser humanos melhores, sempre existirão mãos amigas, algumas das quais invisíveis, a nos sustentar os passos. Tendo como principal destas o nosso anjo guardião, espírito superior em moralidade e intelectualidade que está vinculado a nós para nos orientar durante a encarnação. Sempre recorramos a ele, não importa quem o seja, importa a sua presença em nossas vidas. Silenciemos o barulho interior para que possamos escutá-lo em nós!

Jornal O Clarim julho 2020

[1] Livro Obras Póstumas, Mensagem de 9 de abril de 1856

[2] Livro Obras Póstumas, Mensagem de 25 de março de 1856

[3] Questão 489 de O Livro dos Espíritos

[4] Questão 491 de O Livro dos Espíritos