Walkiria Lucia Araujo Cavalcante 

“E, tendo vindo para casa, reuniu-se aí tão grande multidão de gente, que eles nem sequer podiam fazer sua refeição. – Sabendo disso, vieram seus parentes para se apoderarem dele, pois diziam que perdera o espírito. Entretanto, tendo vindo sua mãe e seus irmãos e conservando-se do lado de fora, mandaram chamá-lo. – Ora, o povo se assentara em torno dele e lhe disseram: Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e te chamam. – Ele lhes respondeu: Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? E, perpassando o olhar pelos que estavam assentados ao seu derredor, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos; – pois, todo aquele que faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.”[1]

Para compreendermos as palavras do Mestre Jesus, precisamos contextualizar a situação. Aquele era um momento que já havia uma perseguição acirrada contra Ele, Maria, mãe amorosa que era, temia pela vida de seu filho. Desejava de alguma forma protege-lo, atitude natural e esperada de toda e qualquer mãe zelosa. Fez-se acompanhar pelos irmãos de Jesus, filhos de José, que era viúvo, sendo Maria sua segunda esposa. O local que Jesus se encontrava estava cheio, inclusive ultrapassando as barreiras da porta, pois as pessoas queriam conhecer O Messias.

Alguém adentra a casa e diz ao Mestre que sua mãe o procurava. Naquele momento, ele, o mesmo que não condenou a mulher adúltera, que curou o cego, que acolheu Zaqueu, que pediu a Pedro para embainhar sua espada não seria o mesmo que repeliria sua mãe e não aceitaria vê-la. Muito pelo contrário. Começava ali, mais uma lição que o Mestre nos trazia: a diferença entre a parentela corporal e a parentela espiritual. Ele elevava, aqueles que comungavam com ele, naquele momento, ao mesmo patamar que a sua família, ao afirmar que “…todo aquele que faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.”

O Evangelho Segundo o Espiritismo[2], nos explica a diferença dos dois tipos de parentela. Mostra-nos que a corporal traz os laços frágeis como a própria matéria, os quais acabam por extinguir-se com o passar do tempo, dissolvendo-se moralmente desde a própria encarnação; a espiritual ao contrário, dura, perpetuando-se após o desencarne, fazendo com que a criatura através das muitas migrações reencarnatórias reconheça no outro, o ser amado, independente de qual título ele venha revestido e se apresente em sua vida.

Por isso, muitos daqueles que estavam comungando com Jesus do ideal cristão, mesmo não sendo parentes consanguíneos, colocavam-se na condição não de parentes espirituais de Jesus, naquele momento, mas estabeleciam uma parentela espiritual em sintonia vibratória, pois comungavam do mesmo objetivo. Ao afirmar que todo aquele que cumprisse a vontade de Deus constituiria sua parentela, mostra-nos que todos, formamos a família universal e somos filhos de um mesmo Pai.

Avançando um pouco mais neste pensamento. O sentido de família em latim é servidor. Então, quando fazemos parte de uma família, sendo está constituída da forma que nós desejamos ou não, estamos num exercício constante de servirmos uns aos outros, treinando a paciência, resignação e amor ao próximo. O Evangelho nos fala também da Piedade Filial[3]. Que vem a ser esta compaixão, esta misericórdia dos filhos para com os pais. Mas, em muitos casos, como agir de uma forma que não fomos ensinados a fazer? Como sermos condescendentes com aqueles que não foram condescendentes conosco?

O Evangelho também nos ensina que o maior dos males se originam no egoísmo e no orgulho. Muito do que condenamos enquanto filhos faríamos da mesma maneira se fossemos pais. Excetuando-se os excessos dos dois lados, a maturidade ensina-nos que muito do que não concordávamos antes decorre das próprias intempéries pessoais que a criatura humana vivencia no decurso da encarnação, não significando vinculações deterioradas entre as partes, mas fatos que precisam ser lapidados no decurso desta mesma reencarnação.

“Formam famílias os Espíritos que a analogia dos gostos, a identidade do progresso moral e a afeição induzem a reunir-se.”[4] Não estamos reencarnados num determinado agrupamento por acaso, aproveitemos a oportunidade de aprendizado ajudando-nos mutuamente e sempre que possível, ajudando aqueles que não comungam conosco da mesma família espiritual. Pois dia virá que todos os antagonismos se dissiparão e formaremos o mesmo grupo de entendimento, comungando do mesmo ideal de sublimação moral.

Jornal O Clarim – Setembro 2020

[1] S. MARCOS. cap. III, vv. 20, 21 e 31 a 35 – S. MATEUS, cap. XII, vv. 46 a 50.

[2] Capítulo XIV

[3] Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XIV, itens 3 e 4

[4] Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XIV, item 9