Octavio Caumo Serrano
Novembro; mês de reverenciar santos e mortos

Segundo a doutrina espírita, porém, são essas duas classes de tipos inexistentes. Do mesmo jeito que a igreja santifica pessoas baseada em supostos milagres, aconselha acender velas e oferecer flores às almas que já não vivem entre nós. Evidentemente, esta é mais uma forma de obter vantagens graças à crendice irracional, porque a maioria pensa que a luz enfumaçada de uma vela poluente, pode iluminar os caminhos dos mortos, para irem ninguém sabe aonde; o que pode oferecer luz a um ente querido é a oração sincera, o perdão por uma mágoa ainda guardada, a doce lembrança dos bons momentos vividos e a gratidão por lições aprendidas.

Diz o Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo XVII, item 11 (Cuidar do Corpo e do Espírito) que há ascetas, que agridem o corpo e os materialistas, que querem diminuir a alma, para os quais tudo é apenas humano e nada há de espiritualidade. “Duas violências, tão insensatas uma quanto à outra”. Diz Georges, Espírito protetor em 1863.

O corpo precisa ser tratado com o melhor cuidado, amor e respeito, porque é a sede de uma alma que o usa provisoriamente como recurso de progresso espiritual, já que esta é a finalidade da vida em mundos materiais como a Terra. Não pode ser negligenciado, menosprezado ou aviltado. É tido como o templo do espírito. Mas, no final, ele será descartado e a alma levará consigo apenas as ações que ele a permitiu praticar. A vontade vem da alma, mas a ação vem muitas vezes das mãos e braços que oferecem a ajuda caridosa que enaltece o homem espiritual. Nada levamos de material, porque só as ações podem ser transportadas para o plano da erraticidade. Já disseram que os bens materiais são retidos como contrabando na fronteira entre os dois planos.

Conclui-se que, assim como as oferendas do Templo de Jerusalém, também são inócuas e inúteis as promessas com repetição de preces não sentidas ou o flagelo físico nas escadarias, de joelhos, mortificações por chibatadas nas próprias costas, ou a inútil caminhada de setecentos quilómetros até a igreja de São Tiago, na bela Coruña, Galícia espanhola. Mentem nos iludindo que simples andança e a oferenda ao templo “sagrado” podem curar nossos “pecados”. Se durante a caminhada orarmos, arrependermo-nos de erros que provocamos, a nós ou a terceiros, com a predisposição de não voltar a cometê-los, poderemos colher benefícios. Mas nada que não possamos realizar na nossa cidade, estado ou país. Ou mesmo no nosso lar. A Galícia é linda e tem bons vinhos. Quem puder visitá-la que o faça porque viajar é dos melhores recursos para se adquirir cultura. Mas não para ter “pecados” perdoados sem méritos que justifiquem. Ou comprados com esmolas a uma igreja. Os bens de Deus não se compram com dinheiro.

O Espiritismo ensina que a anulação de nossos erros demanda quatro etapas: Reconhecimento, arrependimento, retratação e reparação. Os dois primeiros dependem do autor; o terceiro precisa do ofendido e o quarto que ainda haja possibilidade de conserto do mal que provocamos. Quando isso não é possível (porque o outro está distante ou desencarnado) o gesto fica guardado na bagagem dos nossos carmas para soluções futuras. Na próxima ou nalguma outra encarnação. Isso é o que ensinou Jesus ao aconselhar a reconciliação com os adversários enquanto estamos a caminho.

Não se preocupe em enfeitar o túmulo do seu parente com velas e flores no dia de finados se você passou o ano todo sem incluí-lo em suas recordações sequer por um minuto. É até possível que ele vá até o cemitério, mas só se não estiver reencarnado ou não tiver algo mais importante para fazer nesse dia. No túmulo, dentro do caixão ou da gaveta, você já sabe que ele não está. Só por amor é que se dá esse encontro. Não é pelas velas ou pelas flores.

Certa vez fiz um soneto que dizia:

Remorso – Octávio Caumo Serrano

Há viúvos que vão ao cemitério, / Levar flores por ter na sua consciência/Remorso pela falta de clemência/Com a esposa, até em pleno climatério!…  (vivendo em adultério)

Sentindo-se, qual Rei, dono do império/Sem ter com ela um pouco de paciência, /Não via que isto era uma incoerência, / Tratando-a com desdém; um impropério.

Jamais deu-lhe uma flor no aniversário; /Nunca lembrou o dia do casamento, /Sentia-se um verdadeiro donatário…

Agora que o remorso não aguenta, /Deseja aproveitar esse momento/Livrando-se do mal que o atormenta!

Jornal O Clarim – novembro 2020