Walkiria Lucia Araujo Cavalcante

“Também os fariseus vieram ter com ele para o tentarem e lhe disseram: Será permitido a um homem despedir sua mulher, por qualquer motivo? Ele respondeu: Não lestes que aquele que criou o homem desde o princípio os criou macho e fêmea e disse: – Por esta razão, o homem deixará seu pai e sua mãe e se ligará à sua mulher e não farão os dois senão uma só carne? – Assim, já não serão duas, mas uma só carne. Não separe, pois, o homem o que Deus juntou.

Mas, por que então, retrucaram eles, ordenava Moisés que o marido desse à sua mulher um escrito de separação e a despedisse? – Jesus respondeu: Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés permitiu despedísseis vossas mulheres; mas, no começo, não foi assim. – Por isso eu vos declaro que aquele que despede sua mulher, a não ser em caso de adultério, e desposa outra, comete adultério; e que aquele que desposa a mulher que outro despediu também comete adultério.”[1]

A família é a base de sustentação da criatura humana. Norte que irá sedimentar as escolhas no porvir. Por mais que alguns defendem que seja uma instituição falida, entendemos que é uma instituição em profunda construção que procura se descobrir neste momento em que os lares estão se configurando de maneira diferente.

Configuração não somente em virtude dos novos modos constitutivos de relações afetivas, não sendo a nossa abordagem, mas em virtude deste mundo que estamos vivenciando de criaturas que desencarnaram e deixaram na retaguarda verdadeiros agrupamentos que dependiam emocional e financeiramente deles ou delas.

Ou outras que precisaram migrar de suas localidades para outras em busca de ocupação rentável, deixando na retaguarda seres amados que não poderiam lhe acompanhar, fenômeno este encontrado no passado na figura dos retirantes da seca provindos do nordeste do Brasil e que neste momento ultrapassa barreiras mundiais.

Senhores e senhoras, matrões e matronas agregadores familiares tão conhecidos nas famílias dos interiores do Brasil que de uma hora para outra não mais fazem parte deste verdadeiro ritual familiar de amor porque vivemos “um novo normal” que nos impede de convivermos com eles e de alguma forma os estamos privando da nossa companhia.

A família é este elo de ligação que nos ajuda a termos serenidade diante das provas da vida. Faz com que enfrentemos os embates de forma lúcida e caminhemos de passos firmes ao olharmos o imponderável como é o momento presente que estamos colocados. Por isso, o Evangelho nos apresenta tão belo capítulo sobre o casamento[2].

Alguns à primeira vista, acreditam que Ele nos fala das Leis Humanas, mas o que Jesus nos traz é a união segundo a Lei de Amor. Fala-nos sobre as bases evolutivas que constituem a criatura humana, que devemo-nos uns aos outros e que em virtude disso, em terreno de convivência não poderemos cobrar perfeição, mas deveremos ser tolerantes, pacientes e procurarmos ajudarmo-nos mutuamente.

Que não existe acaso quando duas criaturas se procuram e se unem. Mas quando o interesse as unem, o objetivo é desvirtuado no princípio, então a união em si não foi constituída baseada na Lei do Amor, mas em interesse recíproco não tendo por base a Lei Divina. Então quando se separam, separa-se de direito o que já se estava separado de fato. Em nenhum momento a Doutrina Espírita prega a indissolubilidade absoluta do casamento. Seria crime querer prender duas criaturas que não se toleram ou que poderiam de alguma forma chegarem as vias de fato para conseguiram a liberdade.

O divórcio difere da separação familiar. Por isso, que ao separarem-se o casal, os filhos que são frutos dessa união não precisão se desvincular afetivamente de nenhum dos dois. Outras configurações familiares a partir disso surgem, sendo necessária uma boa base primária para estes filhos conseguirem se relacionarem e conseguirem se colocar perante as adversidades do mundo.

Diante das adversidades nos reinventemos, mas nunca percamos o foco e o princípio que é a família que nos constitui como base. Mesmo que não seja a convencial, a qual aprendemos a admirar nos outros e que talvez não seja a mais perfeita. Mas aquela que nos norteou no caminho do bem, nas Leis de Deus e no cumprimento reto do dever Cristão.

Jornal O Clarim – novembro 2020


[1] S. MATEUS, cap. XIX, vv. 3 a 9.

[2] Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XXII, Não Separeis o Que Deus Juntou