ocaumo@gmail.com  Octávio Caumo Serrano    O Clarim dezembro 20

A maioria das pessoas afirma que é impossível ser feliz neste mundo

Será que o motivo não é por estarmos procurando a felicidade em lugares e coisas errados? É comum quem não goste do seu corpo, do seu cabelo, do seu nome, do seu nariz… Sem falar do patrão, do marido ou esposa, dos pais, dos vizinhos. Enfim, da vidinha que leva. Se for mulher, chega a gastar mais em produtos de beleza do que em comida.

Quando somos jovens, abusamos dos excessos e perdemos a saúde; depois lamentamos. Quando temos liberdade, agimos errado até ser punidos e ficar sem esse bem precioso, que nunca preservamos por ser algo natural e sem valor, até que o percamos. Só a doença nos leva a dar valor à saúde; só a orfandade nos faz ver a importância dos pais.

Quando a igreja diz que muitos vão para o inferno, não explica que há infernos compulsórios e infernos opcionais.  Se a pessoa nasceu desprovida de recursos mínimos de sobrevivência, embora inaceitável, pode ter sentido rebelar-se contra o mundo e agredi-lo de diferentes formas, inclusive desrespeitando as regras sociais e as leis mais elementares. Mas se é alguém privilegiado pelos recursos que lhe permitem uma vida estável, a sua desonestidade, a corrupção, o desrespeito ao próximo leva-o a um inferno por opção. Ele o buscou e não pode ser considerado fatalidade. Mesmo porque céu e inferno não são lugares para onde vamos depois da morte, mas um estado de consciência no qual já estamos mergulhados desde agora. Céu e inferno moram dentro de nós, o tempo todo.

Alguém que em nome da adrenalina seja adepto de esportes perigosos, não pode culpar o destino caso sofra um aleijão que o deixa inválido e sem poder movimentar-se para as ações mais elementares, como falar, comer, caminhar, pensar. Brincou com fogo até queimar-se para provar uma superioridade que só serve à vaidade de parecer melhor, desafiando os limites de segurança. A competição mais inteligente é a que o homem tem contra si mesmo para combater seus defeitos e imperfeições de caráter e ser hoje melhor do que ontem.

O mesmo, se dá com quem não suporta o parceiro que desposou ou o emprego que lhe dá o sustento. Desfaz o matrimônio na busca de aventuras e verifica que é agora ainda mais infeliz. Desprezou o emprego e agora está ao deus-dará. Só que o simples arrependimento não conserta as tolices que cometemos.

Diz a sabedoria popular que não devemos querer tudo o que amamos, mas amar tudo o que temos. Isso não significa que não tenhamos o direito de lutar por situações mais felizes, buscar melhores salários, mas que sejam consequência do nosso aprimoramento cultural, intelectual e esforço; não mero e infundado desejo.

Fica claro, portanto, que o nosso céu ou o nosso inferno são construções da nossa própria alçada. Saímos de um e entramos no outro várias vezes num só dia, pela simples ação do pensamento. A revolta, a inconformação, o desejo de vingança, a mágoa, a tristeza, nos atiram ao inferno. Podemos sair dele quase que imediatamente, substituindo-os pela resignação, pelo perdão e pela alegria. E assim elevar-nos ao céu.

Não há uma interrupção entre a vida e a morte ou entre uma encarnação e outra. Tudo segue em sequência e é apenas o instante, o minuto ou o dia seguinte. Séculos para os homens são átimos para Deus. Se quisermos, a felicidade é, sim, deste mundo!

Daí o sábio conselho de Jesus: “Não junteis tesouros na Terra… Junteis tesouros no céu os quais o ladrão não rouba, a traça não come e a ferrugem não corrói.” Faz sentido agora? Os tesouros do céu podem ser juntados desde já.

Cremos que este é um bom tema para planejarmos nosso novo ano. Não lhes parece?

Bom Natal e feliz 2021!

 Jornal O Clarim dezembro 20