Octávio Caumo Serrano

No capítulo XXVIII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec nos dá diferentes receitas de prece.

Quando foi escrito esse livro, 29 de abril de 1864, o Codificador  deu exemplos para diferentes ocasiões e decidiu fechar a obra com uma coletânea de preces para situações específicas, porque o Espiritismo era ainda recente e as pessoas tinham dúvidas sobre como orar e o que pedir usando preces segundo a nova doutrina. Não podia mais usar receitas católicas porque são incoerentes. Como rezar a Ave Maria dizendo Santa Maria, mãe de Deus. Se assim fosse, Maria teria nascido antes de Deus e, portanto, Ela seria Deus. Ela foi a mãe de Jesus, um dos filhos de Deus, como todos os homens. Não poderia rezar o Credo, porque diz “creio em Deus Pai, todo poderoso, e em Jesus Cristo, seu único filho. Manteve a oração dominical, de origem judaica que afirma, ao dizer “Pai Nosso”, que todos somos filhos de Deus e consequentemente irmãos por parte de Pai.

Começou, portanto, com a oração ensinada pelo Senhor Jesus, o Pai Nosso, explicando que ela consiste em louvar o Pai, pedir e agradecer. Diz “Pai Nosso que estás no Céu, santificado seja o Teu nome”. Eis a louvação a Deus, com o reconhecimento que Ele é o pai de todos os homens.

“Venha a nós o teu reino, seja feita a tua vontade na Terra como é feita no Céu. O pão de cada dia, dá-nos hoje, perdoa nossas dívidas assim como perdoarmos os nossos devedores; não nos deixe cair em tentação, mas livra-nos do mal”. Eis o pedido. “Amém” ou “Que assim seja”; este é o agradecimento. Esta oração é unanimidade entre os cristãos, em todo mundo. Na igreja do “Pater Nostrum” em Jerusalém ele está num mural em sessenta e quatro idiomas.

A seguir há um receituário de preces: Para um sofredor, um obsedado, quem está prestes a desencarnar, para doentes, para quem acaba de falecer etc. Hoje, com o estudo do Espiritismo quase todos já sabem orar, embora a maioria faça da prece um requerimento para o qual pede deferimento, ou seja, atendimento imediato. Mas nem todos têm consciência que nossas preces estão condicionadas menos aos pedidos e mais aos méritos que já conquistamos para ter direito ao socorro solicitado.

Não devemos orar pedindo para que alguém que sofre sobreviva nem para que morra, porque não somos o dono da sua vida e não sabemos o que é melhor para a pessoa. Observemos que costumamos pedir com fervor para que Deus livre nosso ente querido dos males por que passa, mas quando percebemos que o sofrimento é dolorido e irreversível pedimos para que Deus se apiede de sua alma e o leve. Quantas vezes aquele pequeno tempo de sofrimento tem a melhor essência de uma encarnação. Um período sublime de aprendizado que aplaca orgulho, prepotência, altivez, vaidade, autoridade, violência e outros vícios de caráter. Vai se ver dependente de quem humilhou, ofendeu, menosprezou, passando por constrangimentos que o colocam no lugar que precisa, antes de deixar o plano material.

Como orar, então, nessas situações? O mais sensato é pedir a Deus que conceda àquele irmão o que lhe for mais útil para entrar na vida espiritual um pouco melhor. Quer seja ficar por mais um pouco, quer seja desligar-se rapidamente.

A enfermidade que retém no leito uma pessoa serve, em muitas oportunidades, para aproximá-la de entes com os quais tinha distanciamento, e até animosidade e agora precisa de seus cuidados. Esta situação, não raramente, visa revelar a sua ingratidão e ferir o seu orgulho. No linguajar popular, leva-o a “baixar a crista”.

Bom não esquecer, porém, que, apesar dos roteiros, o que vale na prece é o sentimento e não somente as palavras. Sempre que possível, manter o hábito de orar ao se deitar, agradecendo por mais um dia de vida, e ao se levantar, grato pela noite de repouso, lembrando que muitos não acordarão nesse dia. Pode ser uma conversa informal, como um diálogo entre pai e filho, sem palavras rebuscadas ou longas ladainhas.

Pedi e obtereis, diz o Evangelho. Mas depende do que pedirmos e do mérito para merecê-lo.

Jornal O Clarim – janeiro 2021