Walkiria Lucia Araujo Cavalcante

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Quando orardes, não vos assemelheis aos hipócritas, que, afetadamente, oram de pé nas sinagogas e nos cantos das ruas para serem vistos pelos homens. – Digo-vos, em verdade, que eles já receberam sua recompensa. – Quando quiserdes orar, entrai para o vosso quarto e, fechada a porta, orai a vosso Pai em secreto; e vosso Pai, que vê o que se passa em secreto, vos dará a recompensa. Não cuideis de pedir muito nas vossas preces, como fazem os pagãos, os quais imaginam que pela multiplicidade das palavras é que serão atendidos. Não vos torneis semelhantes a eles, porque vosso Pai sabe do que é que tendes necessidade, antes que lho peçais.[1]

De a muito nos foi ensinado que não é pela quantidade das palavras que teremos o nosso pedido atendido. Tampouco se pularmos tantas ondinhas, ou vestirmos esta ou aquela roupa, comermos isto ou deixarmos de comer tal coisa que teremos os nossos desejos atendidos. Mas então, porque, tantos espíritas fazem disso uma prática nas festas de final de ano? Alguns responderão: se bem não fizer, mal não fará! Ou: para não ser diferente dos outros, para a minha família não reclamar, ou enfim: porque viver está difícil e necessitamos de todo tipo de ajuda.

Não desejamos ser aquela que mexe com o simbolismo de quem quer que seja, mas “Se vos dizeis espíritas, sede-o.”[2]A partir do momento que proferimos uma fé espírita, a qual nos fala da imortalidade da alma, principalmente que a fé que transforma não está representada em objetos tampouco em práticas exteriores, representaria um contra senso praticá-los com o objetivo de alcançar o que quer que seja.

Em nossos momentos de dificuldade busquemos encontrar esta conexão interna com a Divindade que já habita em nós e oremos com o fervor e pureza d’alma, ao ponto que nos sentiremos transportados e transmudados como criaturas. Momentos raros sim, mas possíveis em nossa encarnação. São estes momentos que nos possibilitam a capacidade de mudar e verificar o momento presente como uma parcela de nossa existência.

Estamos tão obcecados (obsidiados em muitos dos casos) no momento ou situação específica presente, que não vislumbramos outras coisas que nos circundam. Ao elevarmos o nosso pensamento em prece, deixamos de plainar na faixa primária de pensamentos elevando-nos a patamares que não estamos acostumados a frequentar mentalmente.

Neste momento, espíritos amigos que nos acompanham de perto conseguem nos insuflar pensamentos de paz, amor, harmonia, bem-estar e sugestionar situações que nos ajudarão a solucionar os problemas que estamos vivenciando na atual reencarnação. Sabemos também, com o próprio conhecimento que a doutrina nos traz, que alguns destes são de longa duração, em virtude do expurgo moral necessário a criatura humana. Então, que pulemos ondinha, vistamos roupa desta ou daquela cor, ou mesmo o próprio Bezerra de Menezes materialize-se em nossa presença teremos que suplantar e nos reajustarmos com os erros do passado.

Então, por que a oração? Para que quando caminharmos diante da trilha da evolução humana as lâminas afiadas e pontiagudas das pedras do caminho não tenham o peso e a dor maior que já possuem. Para que que possamos dar o devido valor que as pessoas e as situações possuem em nossas vidas. Para que possamos aprender a agradecer a divindade e as criaturas humanas pelos beneplácitos que recebemos. Aprendermos a sermos gratos por tudo de bom que recebemos. Diante das provas da vida, enxergarmos que flores nos são colocadas no caminho para que a caminhada seja mais suave e o perfume nos embale no amargor de determinados pedrados.

A figura de linguagem que nos convida a entrarmos no nosso quarto e fecharmos a porta para podermos orar mostrar-nos que a conexão com a Divindade se faz quando deixamos silenciar o mundo interior, quando nos visitamos na forma mais simbólica possível e nos encontramos, sozinhos, sem máscaras, sem subterfúgios, sem desculpas. Somos nós mesmos diante de nós mesmos. Assim, conseguimos ser sinceros na oração. Falar o que estamos sentindo e de que realmente necessitamos. Sem testemunhas. Somente a nossa consciência que vela por nós.

Jornal O Clarim – janeiro 2021


[1] MATEUS, cap. VI, vv., 5 a 8.

[2] Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo X, item 14