Walkiria Araújo – walkirialucia.wlac@outlook.com

“Se algum escandalizar a um destes pequenos que crêem em mim, melhor fora que lhe atassem ao pescoço uma dessas mós que um asno faz girar e que o lançassem no fundo do mar. Ai do mundo por causa dos escândalos; pois é necessário que venham escândalos; mas, ai do homem por quem o escândalo venha. Tende muito cuidado em não desprezar um destes pequenos. Declaro-vos que seus anjos no céu vêem incessantemente a face de meu Pai que está nos céus, porquanto o Filho do Homem veio salvar o que estava perdido. Se a vossa mão ou o vosso pé vos é objeto de escândalo, cortai-os e lançai-os longe de vós; melhor será para vós que entreis na vida tendo um só pé ou uma só mão, do que terdes dois e serdes lançados no fogo eterno. – Se o vosso olho vos é objeto de escândalo, arrancai-o e lançai-o longe de vós; melhor para vós será que entreis na vida tendo um só olho, do que terdes dois e serdes precipitados no fogo do inferno.”[1]

Quando retratamos esta passagem de Mateus, a primeira impressão é que não poderemos corrigir a ninguém sobre nenhuma atitude errônea que ela venha a tomar. Mais ainda, que as consequências serão violentas se assim o fizermos. Então como agirmos diante dos dias atuais que as agressões tomam espaço e criaturas de mentes desavisadas avassam não enxergando o limite do legal, ético e correto?

Começamos por aumentar o entendimento sobre a palavra escândalo para depois entendermos o nosso comportamento atual. O próprio Evangelho Segundo o Espiritismo[2] quando nos fala sobre o tema, faz uma explicação adicional sobre a palavra escândalo, como sendo uma queda, princípios falsos, abuso de poder, etc. Verificamos assim, que não significa somente algo que vá provocar vergonha no outro, mas uma atitude errônea nossa perante a sociedade. Ponto importante a ser destacado neste momento.

Algo que nós esquecemos é que todos os nossos atos provocam ressonância, mesmo aqueles que só a nossa consciência é testemunha. “Invariavelmente, nesse caso, é de natureza íntima e ninguém toma conhecimento, porque permanece agindo no lado escuro da personalidade, fomentando distúrbios emocionais e comportamentais de variado porte, que se transformam em conflitos de consciência quando defrontados com o ético, o social e o espiritual.”[3]

A criatura é mais o que projeta em sociedade do que realmente ela é de verdade, por isso os conflitos existentes em sociedade. As máscaras sociais e o desejo de impor a sua vontade seja pelo poder, seja pelo exagero no que faz. Os disparates de comportamento e a fuga existencial. Criaturas não só desalinhadas com o eticamente existente, mas com a própria consciência que encaminha a criatura para os valores morais já adquiridos e corroborados pelos exemplos de amor que envolvem a criatura durante a existência. A criatura escandaliza-se escandalizando os outros através de comportamentos inadequados, muitas vezes agredindo-se para agredir, ferindo-se para ferir, extinguindo a existência carnal, como último ato de escândalo perante a sociedade.

Ou a criatura torna-se severo condutor de almas exigindo aquilo de que ela não é capaz de executar. “Quase sempre o indivíduo mergulhado na sombra, de que tem dificuldade de se libertar, disfarça as imperfeições projetando a imagem irreal de um comportamento que está longe de possuir, mas que se torna, não raro, severo para com os demais e muito tolerante para com os próprios erros. Estabelecida essa transferência psicológica de conduta, passa a viver em torvelinho de paixões e tormento de aflições que procura disfarçar com habilidade.” Procurando resolver no outro aquilo que não consegue resolver em si. Expõe, escandaliza o semelhante para que os seus erros não venham à tona e se um dia vier, sejam amenizados pelos erros dos outros que já foram expostos.

Entendemos que é necessário a corrigenda mais que adicionemos a ela a ética do amor. Que nos faz nos colocarmos no lugar do outro, antes de fazermos qualquer corrigenda. De pensarmos no bem da coletividade, antes de pensarmos no nosso próprio bem, de analisarmos a nós mesmos, antes de sermos juízes dos nossos semelhantes, pois quando nos colocamos na condição de corretor do comportamento alheio deveremos nos esforçar por sermos modelos daquele comportamento, não nos assemelhando aos títulos de poder da Terra que são dados àqueles que muitas vezes não merecem e não se constituem exemplos.

Educadores, pais, membros da sociedade, criaturas encarnadas que somos e que influenciamos o meio no qual vivemos, sempre que pudermos utilizar o poder do exemplo o façamos, mas quando nossas atitudes não forem suficientes para alcançarem a alma do outro, que nossas palavras estejam de acordo com elas. Para que aquele que nos observe veja que a nossa intenção não é escandalizar, mas educar. Trazendo ao ambiente equilíbrio e fazendo um pouco de justiça em sociedade de acordo com a Lei de Deus.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – fevereiro 2021


[1]  MATEUS, cap. XVIII, vv. 6 a 11; V, vv. 29 e 30.

[2] Capítulo VIII, item 11

[3] Jesus e o Evangelho a Luz da Psicologia Profunda, Divaldo Franco, autoria espiritual de Joanna de Ângellis, cap. 9 – Escâncalos