Fidelidade

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Walkiria Lúcia de Araújo Cavalcante – walkirialucia@outlook.com

“É com a perseverança que chegarás a recolher o fruto do teu trabalho. O prazer que experimentarás vendo a doutrina se propagar e ser compreendida te será uma recompensa da qual conhecerás todo o valor, talvez mais no futuro que no presente. Não te inquietes, pois, com as sarças e as pedras que os incrédulos ou os maus semearão sobre teu caminho. Conserva a confiança: com a confiança tu chegarás ao fim, e merecerás ser sempre ajudado.”[1]

Allan Kardec foi aquele no qual foi depositada a confiança que a Doutrina Espirita seria codificada e todas as informações que já estavam sendo reunidas de algum tempo seriam catalogadas e orientadas, por ele, de uma maneira que ficariam didaticamente inteligíveis para aqueles que nunca tiveram conhecimento da explicação de tais fenômenos, mais que vivenciavam em algum grau esta ligação entre os dois planos. Sendo num 01/04/1757, há exatos 164 anosa primeira publicação de O Livro dos Espíritos com 501 perguntas, tendo a segunda com as atuais 1019 perguntas em 1860 o primeiro livro do pentateuco das Obras Espíritas.

A princípio, Kardec não acreditava que uma mesa falasse. Estando certo neste pensamento. Entendia que só uma pessoa, uma causa racional e inteligente poderia responder as questões formuladas. Várias foram as explicações dadas a época para a ocorrência dos fenômenos, menos que existiam espíritos. Algumas destas, constantes em O Livro dos Médiuns, em especial destacamos: Dos Sistemas, Capítulo IV. A partir do momento que pessoas sérias lhe trouxeram mensagens e corroboraram com o seu próprio caráter as comunicações, fizeram com que Kardec começasse por se debruçar sobre tais mensagens e analisar. Ele passou a participar das reuniões e interrogar as forças que até aquele momento não haviam se identificado por Espíritos, e a partir deste momento estabeleceu-se um corpo de informações compiladas, revistas por médiuns incorporados e estudadas exaustivamente na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas.

O trabalho avançava, amigos uniam-se ao propósito de divulgação da mensagem, espíritos amigos o sustentavam neste trabalho de amor a humanidade, mas também os detratores não poderiam deixar de existir. Criaturas que não desejavam o progresso da humanidade, pois tinham a ilusão que assim também não precisariam progredir, tentaram tolher-lhe os passos. Um dos fatos em destaque é o Auto de fé de Barcelona (21/09/1961) retratado em O Livro Obras Póstumas.

Em síntese, Kardec remeteu à Barcelona num total de 300 volumes: Livros dos Médiuns, Livros dos Espíritos e coleções da Revista Espírita. Foram cumpridos todos os requisitos legais e aduaneiros que a remessa requeria, sendo que para liberação, havia necessidade de autorização do Bispo do local, o qual não só negou como ordenou que as obras fossem apreendidas e queimadas em praça pública.

Kardec ao questionar o Espírito Verdade sobre a restituição das referidas obras, obteve como resposta que ele tinha o direito de pedir, mas “ … a minha opinião é que resultará desse auto-de-fé um bem maior que não produziria a leitura de alguns volumes. A perda material não é nada em comparação com a repercussão que semelhante fato dará à Doutrina. Compreendes o quanto uma perseguição tão ridícula e tão atrasada poderá fazer o Espiritismo progredir na Espanha. As ideias se difundirão com tanto mais rapidez, e as obras serão procuradas com tanto mais diligência, quanto as tiver queimado.”

Quantas vezes na divulgação da mensagem Espírita preocupamo-nos tanto em nos defendermos com relação a esta ou aquela calúnia, a esta ou aquela palavra desagradável que nos é dita em virtude da divulgação do trabalho que estamos realizando. Esquecemos que antes de nós, outros vieram e fizeram um trabalho de planificação e sedimentação da informação, mas que as criaturas desavisadas e desprovidas de proposito evolutivo continuam nos ladeando a encarnação, algumas destas nos lares, nas instituições espíritas, enfim, estão convivendo e desfrutando da nossa intimidade. Saibamos escolher e sermos fieis até o fim.

De uma maneira menor e diferente, também fomos convidados a perseverarmos nos trabalhos de divulgação da mensagem espírita. Na mediunidade, nas palestras, nos trabalhos de atendimento fraterno, passes, em todos os trabalhos que realizamos dentro ou fora, em nome da Divulgação da Doutrina Espírita. Então, a mensagem trazida a Kardec pelo Espírito Verdade, também se aplica a nós. Talvez não reconheçamos de pronto o que estamos fazendo, mas no futuro entenderemos melhor a nossa participação no processo evolutivo das criaturas humanas e no nosso próprio.

Sempre nos é facultado a escolha. Diante do que já aprendemos, o que desejamos para nós? “Não te deixes desencorajar pela crítica. Encontrarás contraditores obstinados, sobretudo entre as pessoas interessadas nos abusos. Encontrá-los-á mesmo entre os Espíritos, porque os que não estão completamente desmaterializados procuram, frequentemente, semear a dúvida por malícia ou por ignorância. Mas prossegue sempre.”[2]

Jornal O Clarim – abril 2021


[1] Livro dos Espíritos, Prolegômenos.

[2] Livro dos Espíritos, Prolegômenos.

Chamamento divino

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Walkiria Lúcia de Araújo Cavalcante – walkirialucia.wlac@outlook.com

“… Disse ao servo: sai depressa pelas ruas e bairros da cidade e traze aqui os pobres, os aleijados, mancos e cegos.”[1]

É comum, ao dispormos cursos de passes nas Instituições Espiritas, um grande número se candidatar. Mas com o passar do tempo o grupo ir resumindo-se a alguns poucos, até verificarmos que após o engajamento propriamente dito ao trabalho, pois que não existe formatura em nenhum tipo de trabalho, constituindo-se o primeiro choque para aqueles que começam, verificarmos a desistência e inconstância dos que ficaram. Resumindo-se a poucos daquele agrupamento iniciado.

A alegação de muitos passa pelos afazeres domésticos, cursos que precisam começar ou terminar, trabalhos assumidos, enfim, situações diversas que a criatura humana alega para o desligamento. Outras, afirmam incapazes de darem continuidade em virtude da incapacidade para o serviço assumido ou por reconhecerem-se com impedimentos morais que lhe tolhem os passos? Mas será que para arregimentarmo-nos neste agrupamento de soldados do Cristo na divulgação do bem teremos que ser perfeitos? Não. Pois se assim fosse, não teríamos nenhum trabalhador na seara espírita.

Afastando-se os impedimentos naturais e as situações que realmente fogem ao controle daqueles que estão vivenciando gostaríamos de destacar os quadros obsessivos tão bem explicados em O Livro dos Médiuns, em seu capítulo 23. “A obsessão é o resultado do intercâmbio psíquico, emocional ou físico entre dois seres que se amam ou que se detestam. … Aquele que se sentiu enganado ou traído, vitimado pelo seu opositor, busca retribuir o mal que lhe sofreu, impondo-lhe a crueldade da perseguição sem quartel procedente do mundo espiritual onde hoje se encontra. … Outras vezes, são vinculações amorosas de qualidade inferior, nas quais ambos os compares intercambiam sentimentos vulgares, que os levam a uma convivência mental de torpes satisfações ou de desejos inconfessáveis, que a morte de um deles não mais permite realizar-se.”[2]

Quando nos permitimos associar por mentes que desejam nos afastar de nossos propósitos mais elevados, estes sugerem que aquilo que estamos fazendo não é importante, necessário ou não somos úteis a obra que estamos abraçando. Mais ainda, que não estamos prontos e não somos merecedores de estarmos onde estamos. Não podemos nos permitir contaminar por tais pensamentos. E tal envolvimento não acontece somente com os noviciados no trabalho espírita. Nenhum de nós está livre de tal envolvimento. Orai e vigiai, já nos foi ensinado, para não cairmos em tentação.

Sendo para os de nós que já nos encontramos a mais tempo no movimento estas palavras, entendemos que o tempo de doutrina não significa tempo de conhecimento. A mensagem aplicada ao dia a dia da criatura constitui-se como corolário do que o Mestre nos exemplificou. Lembremos sempre que Ele mesmo não escreveu nenhum Evangelho. Estes foram escritos pelos seus seguidores. Mostra-nos que mais importante do que falarmos, precisamos experienciarmos a mensagem. No nosso segmento diário de proceder. Não desistirmos de empreender o contido no Evangelho representa obra de vida.

Allan Kardec, Bezerra de Menezes, Chico Xavier e tantos outros são exemplos de persistência e perseverança diante da mensagem. Fazendo com que ela se torne viva, não somente palavras repetidas como forma de convencimento. Observemos que nenhum deles dizia-se perfeito na execução do trabalho, mas faziam o que hoje os profissionais da área chamam de rever o que errou para consertar no processo de construção de um líder e que Santo Agostinho já nos orientava: “Fazei o que eu fazia, quando vivi na Terra: ao fim do dia, interrogava a minha consciência, passava revista ao que fizera e perguntava a mim mesmo se não faltara a algum dever, se ninguém tivera motivo para de mim se queixar. Foi assim que cheguei a me conhecer e a ver o que em mim precisava de reforma…”[3]

Desta forma, as interferências de outras mentes até ocorrerão, pois as baixas mentais farão parte da nossa encarnação, mas quando fizermos esta avalição que Santo Agostinho nos sugere começaremos por praticar a primeira virtude que nos imuniza contra a obsessão: a humildade. Após, avançaremos para o exercício da correção moral, outra virtude a nos humanizar e espiritualizar. A caridade começar a brotar neste momento em nós. Pois, vemos que ou outros também passam por este processo, terceira virtude imunizatória diante dos processos obsessivos.

O conhecimento permeia todas estas fazes nos instruindo e fortificando. Explicando o porquê de termos paciência, perseverança e por fim, a necessidade do perdão. Perdão ao outro e a nós mesmos. Nesta última, do perdão, desvinculamo-nos dos quadros obsessivos mais delicados, os destacados anteriormente como “traição” ou que a criatura acredita-se “vitimado” por nós. Ao nos perdoarmos, deixamos de trazer a pecha da culpa e substituímos pela responsabilidade ativa, através do trabalho.

O outro terá a opção de iluminar-se também e trabalhar pela própria evolução ou ficará num processo de busca por vingança. O que gostaríamos de destacar que o chamamento divino[4] como Emmanuel sabiamente diz, soa para todos nós. Aproveitemos esta oportunidade e não permitamos que outros interfiram na oportunidade bendita que tenhamos de nos auto iluminar. Não seremos punidos, nem nada demais nos ocorrerá, mas retardaremos os passos ruma a perfeição relativa buscada. Isto já é o bastante para analisarmos a situação e mantermo-nos firmes diante do propósito abraçado.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – abril 2021


[1] Lucas. 14:21.

[2] Livro: Reencontro com a Vida, psicografado por Divaldo P. Franco, autoria espiritual Manoel P. de Miranda, capítulo 04 – Exorcismo Inútil

[3] Questão 919-a

[4] Livro: Palavras de Vida Eterna, capítulo 127, psicografado por Chico Xavier

Não há vidas passadas

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Não há vidas passadas      Octavio Caumo Serrano    O Clarim abril 21

Como também não há vidas futuras

Quando fomos criados por Deus, sem nenhum conhecimento, destacando-nos da coletiva mônada celestial para adquirir individualidade, iniciamos a jornada da nossa vida eterna e única, que precisaria ser vivida em mundos primitivos, inicialmente, e depois em outros mais desenvolvidos, onde deveríamos reencarnar com corpos mais densos ou mais leves, se passássemos a ser mais espírito que matéria.

Os mundos materiais onde fazemos as mais difíceis experiências da nossa mesma e única vida, são locais de sofrimento, maior ou menor, conforme a vibração conjunta de seus habitantes. O Espiritismo os classifica, de forma genérica, como mundos primitivos, de provas e expiações, de regeneração e felizes. No primeiro a vida e quase totalmente material e no segundo a espiritualização já começa a ser alcançada, sempre dependendo do esforço individual que se vive no coletivo. Nestes encarnamos e desencarnamos por longos períodos, mas sempre como etapas da nossa mesma vida eterna.

Vencida esta fase, após dezenas, centenas, milhares, ou sabe Deus quantas encarnações, poderemos pilotar um corpo material em mundos menos densos, onde nosso peso específico atual de 5,51 g/c3 (densidade da Terra) poderá baixar para 3,96 como Marte, 1,33 como Júpiter, 1,64 como Netuno o que resultaria em peso bem menor para o nosso corpo, de igual volume, permitindo-nos deslocamento muito mais fácil. Se nascêssemos, por exemplo, em Júpiter com esta mesma silhueta exterior pesaríamos menos de 20 quilos!

O que conhecemos como morte, que na verdade é o nosso desligamento do corpo físico e que o Espiritismo define como desencarnação, para voltar por um pouco à vida espiritual, não interrompe a sequência da nossa vida que prossegue, como se nossa chegada à espiritualidade fosse o dia seguinte. Nosso “eu” não termina com esse desenlace, porque nossa mente continua a pensar na mesma sequência e tem como conhecimento tudo o que aprendeu até então. Qualquer pequeno bloqueio temporário assemelha-se a uma internação hospitalar, a uma anestesia, para tratamento, ou a uma viagem para país estranho onde recomeçamos sem perder a nossa identidade.

Haverá quem pergunte por que não nos lembramos desses detalhes. Porque fatos dolorosos ou acidentes de percurso poderiam traumatizar-nos ou envergonhar-nos, comprometendo-nos ante acontecimentos já superados que só serviram como aprendizado e prova ou resgate. Não nos dizem mais respeito e ficar presos a eles seria atrasar-nos.

Já disse Kardec que o ideal seria que houvesse um idioma no qual cada palavra expressasse claramente a ideia, o que não se vê nas línguas da Terra. Só uma linguagem mental poderia expressar fielmente a imagem pensada. Por isso é natural que haja tanta dificuldade para nos entendermos pela palavra articulada. Daí definirmos que fomos isto ou aquilo em vida passada e o que esperamos para a vida futura, quando deveria ser o futuro da vida.

Ao nos referimos ao que fomos como vida passada, fica a impressão que foi um período que acabou e está dissociado do nosso presente, quando este é o único tempo real; só existe o agora. Vivemos uma coleção de presentes que formam nossas experiências nesta nossa vida eterna e única!

Jornal O Clarim – abril 2021